O que torna Washington tão distante de Detroit e tão próxima de Wall Street?

Montadoras passam uma semana implorando, mas quem recebe ajuda é o Citi; ambos oferecem impactos, só uma oferece retorno

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SÃO PAULO – A notícia que puxou a disparada dos mercados na segunda-feira (24) foi a de mais um socorro bilionário oferecido pelo governo norte-americano. Somente por esta frase, fica a idéia de resgate às montadoras de Detroit, que passaram boa parte da semana passada clamando por ajuda no Congresso dos Estados Unidos. Nada de GM, Ford ou Chrysler; os US$ 20 bilhões foram para o Citigroup.

Mas o que torna Washington tão distante de Detroit e tão próxima de Wall Street? A julgar pelas necessidades de cada um e pelos potenciais impactos, o impasse fica ainda mais evidente. As três grandes montadoras, juntas, passaram dois dias na frente das autoridades norte-americanas implorando, sem sucesso, por US$ 25 bilhões que garantiriam sua sobrevivência; ao menos até 2010.

Somente para o Citi, foram liberados estes US$ 20 bilhões um mês depois da instituição financeira ter recebido aporte de outros US$ 25 bilhões. Sem falar da garantia de US$ 306 bilhões da FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) para os ativos podres do banco. A linha de risco moral traçada pelo governo Bush mais uma vez gera desconforto. Lembra o episódio da ajuda às financiadoras hipotecárias e à AIG, enquanto Lehman Brothers e Bear Stearns foram deixados de lado.

Não parece uma questão pessoal. Obama, que já havia manifestado apoio às montadoras e inclusive defendido um pacote para o setor diante do próprio Bush, foi consultado antes do aporte ao Citigroup. Uma afirmação do atual presidente norte-americano parecia se antecipar à pergunta do segundo parágrafo: “o primeiro passo para a recuperação é a segurança do sistema financeiro”.

Empregos X Confiança

Este embate entre bancos e montadoras parece representar uma disputa entre economia real e sistema financeiro. Uma possível quebra das três grandes montadoras representaria um colapso no mercado de trabalho norte-americano. Para se ter uma idéia, a mídia internacional faz as contas e coloca 1 de cada 10 empregos norte-americanos associados, direta ou indiretamente, às três montadoras de Detroit.

O resgate ao Citi também traz seus argumentos. O banco detém cerca de US$ 1,3 trilhões em ativos de altíssimo risco não contabilizados. O problema financeiro do Citi trouxe de volta aos noticiários o jargão “too big to fail” – grande demais para falhar.

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Erro no passado

Na balança, ambos os pacotes são necessários. A atuação apenas sobre o Citi veio respaldada pela garantia de injeção de confiança no sistema financeiro, um dos principais problemas da atual crise de crédito. Daí surge certo arrependimento quanto ao episódio do Lehman Brothers. A ajuda ao Citi soa como o governo norte-americano assumindo sua falha na condução da quebra do Lehman. A avalanche sobre os mercados e devastação da confiança causadas pelo episódio anterior surgem como lição para o caso mais recente.

A falência de uma GM traria impactos econômicos de magnitude também avassaladora, mas os prejuízos consecutivos da montadora são bem anteriores ao estourar da crise. Enquanto o Citi é visto como vítima da crise, a GM é relacionada a um modelo de gestão e estratégia atrasados. Além disso, o lobby do banco é mais abrangente. Seu CEO (Chief Executive Officer), Robert Rubin, tem grande influência junto aos democratas; Nicholas Calio, executivo do grupo, fala alto junto aos republicanos.

Prazo para mostrar lucros

O fato é que GM, Ford e Chrysler precisam gerar lucro. As três não têm nada além dos impactos econômicos a oferecer pelos US$ 25 bilhões requisitados. Vêm de prejuízos seguidos, apresentam eficiência inferior às rivais asiáticas e encontram o nível de vendas de veículos no menor patamar dos últimos 26 anos nos Estados Unidos.

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É a solicitação que falta para atingirem o tão esperado pacote. Boa parte do Congresso vê um processo de recuperação judicial como melhor pedida para as três, que seriam forçadas a renegociar contratos de fornecimento e revisar a estratégia. As autoridades deram mais uma semana para Detroit esboçar um planejamento de lucros; com tamanho problema, uma semana parece pouco.