O que o fim do programa de estímulos nos EUA significa para o Brasil?

Com o fim do QE3, expectativa é que alta de juros nos EUA não demore a ocorrer, o que pode pressionar os mercados emergentes

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SÃO PAULO – Desde maio de 2013, quando o então presidente do Federal Reserve Ben Bernanke sinalizou que poderia iniciar o fim do programa de compra de títulos norte-americanos, conhecido como Quantitative Easing 3, muita coisa aconteceu. No Brasil, por exemplo, após um período de turbulência devido ao cenário global e um rali por conta das eleições, o mercado sempre seguiu atento às indicações do Fomc.

Agora, com o fim do programa, o que esperar para o Brasil? Conforme aponta a consultoria Capital Economics, os efeitos do encerramento deste ciclo de estímulos não devem ser tão grandes para a nossa economia, assim como para os demais países emergentes. 

De acordo com o economista para mercados emergentes da consultoria, Neil Shearing, os efeitos de uma política mais expansionista dos EUA levou a um fluxo de capitais para os emergentes mas, o tema mais importante para as economias emergentes será o cenário doméstico. 

“Suspeitamos que o tema mais importante nos próximos anos será a contínua fraqueza nos BRICs [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China]. Estes países são, de longe, as maiores economias emergentes e todos eles possuem desafios domésticos para serem enfrentados. Isso explica o crescimento fraco deles, mesmo com o QE se prolongando. Reviver o crescimento dos BRICs será mais uma questão das ações dos políticos locais – não dos EUA”, afirma Shearing.

Outro fator que poderia preocupar os investidores é a inevitável elevação dos juros nos EUA, porém, para a consultoria esse fator ficaria “travado” também por problemas domésticos, tendo qualquer reflexo minimizado em relação às decisões da autoridade norte-americana. “Enquanto alguns emergentes parecem vulneráveis com a expectativa de alta das taxas nos EUA, é muito mais provável que o crescimento seja travado por problemas caseiros”, destaca o economista.

Vale destacar que, apesar do Fed deixar sinalizado que os juros devem se manter baixos por um tempo maior, o mercado trabalha com a chance de que as taxas devem começar a subir cerca de 6 meses após o fim do QE3, ou seja, em meados de junho. No Brasil, o ativo que mais deve ficar sensível às decisões do Fed é o câmbio.

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A partir do momento em que os juros forem elevados, ativos americanos, que já são considerados mais seguros, passam a ser mais atrativos que os de países emergentes como o Brasil. Diante disso, a chance de que os investidores “deixem” o País é grande, o que não só pressiona uma alta do dólar, como pode pressionar a inflação e ainda levar a novas altas da Selic.

Mesmo assim, segundo o economista, é improvável considerar que as ações do Fed possam significar uma crise dos mercados, uma vez que elas não teriam dado tanto suporte para o mercado de ações. Shearing analisa dois canais que o QE teria e que refletiria no mercado: o apoio à economia dos EUA e o fluxo de capitais para os emergentes. As sinalizações do primeiro canal são mistas: há a sinalização de que o fluxo existiu em todas as três fases do QE, mas é preciso olhar com cuidado.

Além do mais, apesar de três rodadas de QE, as entradas permanecem bem abaixo de seu pico pré-crise. Em outras palavras, a escala de entradas para os emergentes ocorre mais do que por questão de política monetária dos EUA. Assim, é difícil saber se há realmente este fluxo, exceto em alguns países com grande necessidade de financiamento externo, caso de Turquia, Indonésia e África do Sul. Estes sim devem ser pressionados, aponta o economista.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.