O que está por trás dos recordes de operações de aluguel de ações?

Para analistas, estratégias de grandes players e educação dos investidores ajudam; perspectivas para o Ibovespa são divergentes

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SÃO PAULO – A BM&F Bovespa (BVMF3) reportou seguidos recordes nas operações com aluguéis de ações nos últimos meses. Em agosto do ano passado, por exemplo, o número de foi de 92.405, com volume financeiro de R$ 43,507 bilhões – ambas cifras recordes.

Nos meses subsequentes, os volumes seguiram avançando, chegando a R$ 49,366 bilhões em 91.926 operações em dezembro. Com isso, o ano de 2010 registrou 971.558 negócios, com volume de R$ 465,606 bilhões – números inéditos na bolsa. Em janeiro, a tendência de recordes continuou. O volume financeiro atingiu R$ 59,05 bilhões em 98.352 negócios.

Mas o que explica esse avanço consistente nos aluguéis de ações? Cabe lembrar que esse tipo de operação normalmente é indicado para o investidor que tem ações e não deseja vendê-las no curto prazo, e consiste em alugar os papéis – detendo ainda direitos como subscrição e dividendos – obtendo mais uma fonte de ganhos com a renda variável a partir do preço do aluguel.

Por outro lado, quem aluga as ações o fazem para apostar na sua queda – ou seja, o investidor vende o papel por um preço mais alto e compra por um preço mais baixo, ganhando com a diferença. É possível que, antevendo um período difícil para o Ibovespa, os investidores estejam apostando na queda do índice através do aluguel de ações?

O long & short
Algumas opções explicam essa evolução – a primeira delas é a popularização das operações long & short – nas quais o investidor compra um ativo e vende o montante financeiro correspondente de outro ativo, ganhando na diferença de performance entre eles – no mercado brasileiro.

Visando ganhar dinheiro com o spread entre esses dois papeis, existem hoje mais investidores arbitrando com estratégia long & short, explica Márcio Cardoso, diretor da Título Corretora. Essas operações, segundo Alfredo Sequeira Filho, gerente da mesa de investimentos pessoa física da Fator Corretora, exigem que o vendedor do papel tome o aluguel do ativo – estimulando, assim, o mercado de aluguel de ações.

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Para ambos, o maior conhecimento do mercado e seus instrumentos é um dos causadores dessas mudanças. “As pessoas estão se educando mais, conhecendo melhor os mecanismos do mercado de capitais e percebendo que você deve colocar disponível para aluguel uma posição em ações que você não pretende vender no curto prazo – se você vai ganhar 1%, 2%, 10%, 15% ao ano, não importa. Você está ganhando alguma coisa com o papel. E a garantia é total, da CBLC”, diz Sequeira.

No mesmo sentido, Cardoso afirma que, com o investidor mais familiarizado com o mercado, a tendência é que ele ganhe força e veja sua liquidez aumentar – como vem acontecendo com os alugueis de ações.

“Quando há mais transparência, as pessoas tendem a arbitrar mais”, explica o diretor da Título. Ele exemplifica que o mesmo já aconteceu com o mercado à vista versus o mercado de opções, bem como o à vista e o futuro. “A diferença chegava a 200% do CDI, mas hoje é tão arbitrado que está embutido no preço; as distorções são corrigidas”, aponta.

Os grandes players
Mas nem toda essa alta deve-se ao maior conhecimento da pessoa física. Hugo Azevedo, superintendente da área de estratégia de investimento da Santander Corretora, atribui mais aos grandes investidores institucionais do que às pessoas físicas a responsabilidade pelo maior volume de aluguéis. “O número de fundos quantitativos, que operam com estratégia long & short, aumentou, assim como o do fundos long & short”, explica Azevedo, incluindo na lista também tesourarias de empresas.

Além disso, a aposta de investidores institucionais em papéis que subiram muito recentemente – como ações de consumo e imobiliárias – também podem pesar. “É um short puro e simples”, aponta. “Um market maker também pode simplesmente fazer um delta hedge shorteando um papel”.

Já Sequeira lembra que o aumento de volume não é considerado substancial, apesar de se manter em uma trajetória crescente. O número de contratos, porém, registrou uma alta mais significativa. “Algumas instituições têm fechado contratos mais curtos do que o usual um mês para poder renovar mais vezes esses contratos para que elas subam no ranking. Não é uma forma de maquiar, mas distorce um pouco o número real”, explica.

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A cautela e a bolsa
Outro motivo que pode estar por trás dos maiores volumes de operação de aluguel são as perspectivas não tão otimistas para a bolsa brasileira, em um ano que começou com uma pesada queda de seu principal índice.

“A tendência de queda da bolsa nos últimos meses estimula operações de venda a descoberto”, destaca Sequeira. Mas podemos assumir que, como estamos vendo muitas operações de aluguel, a tendência da bolsa ainda é de queda? “Não, uma coisa não leva a outra”, diz o gerente da Fator.

“Quando você acha que vai cair, você vende as ações – mas alguém comprou, e esse alguém acha que vai subir. Não significa que a bolsa está com tendência de queda”. Cabe lembrar que a Fator estima o Ibovespa em 75 mil pontos no final do ano – upside de 14,75% frente ao fechamento da última segunda-feira (7).

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“As perspectivas de resultado da bolsa, mesmo pensando em uma alta, são muito pequenas, na visão da Fator, para estimular o investidor a tomar risco. Vou ganhar 15% na bolsa assumindo um risco, ou 12% ou 13% ao ano num título público? As pessoas estão fazendo as contas, o investidor está ficando mais cauteloso, mais com medo de novos aumentos na taxa de juro, que vai incentivar investimentos em renda fixa, novas medidas macroprudenciais”, explica Sequeira, que destaca não ver muito mais espaço para quedas do Ibovespa.

Cardoso, da Título, não acredita que nesse caso o aumento de volume possa ser atribuído aos especuladores – aqueles que alugam para vender porque não esperam uma performance positiva do índice. “Em alguns casos sim, por exemplo, um investidor com uma expectativa de que o resultado de determinada empresa seja ruim”, diz. Mas as distorções podem atrapalhar em determinados casos. “O preço do aluguel sobe tanto que não é mais interessante alugar o papel”, explica.

Azevedo, do Santander, vê a situação atual de modo um pouco diferente. “Alguns estudos mostram que uma alta no volume de aluguéis antecipa uma correção do índice”, alerta, sinalizando um momento de maior cautela.

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Mais recordes
Apesar de também cautelosos, Cardoso e Sequeira esperam que o crescimento dos aluguéis de ações siga em curso em 2011. “Muitas pessoas têm acordado para o fato de que se você não tem perspectiva de vender o papel no curto prazo, nada mais óbvio que alugá-lo”, aponta o gerente da Fator.

“Você ter uma ação e não alugá-la se você não pretende vendê-la, é como se você tivesse um imóvel que você não mora e não tem ninguém morando e não colocá-lo para aluguel, só pensando ‘vou ficar com o imóvel porque vai valorizar’. E o aluguel?”, frisa. “Vai continuar crescendo, na mesma medida da popularização do mercado de capitais”, conclui Sequeira.

“Se você acredita que o mercado tem a capacidade de crescer, você terá uma expansão desse e de outros produtos, como os ETFs (Exchange Traded Funds)”, afirma Cardoso.