O que esperar do afastamento de Romero Jucá do Planejamento?

Para analista político, o episódio recente "sinaliza que o impeachment não deve representar por si a reconstrução imediata do ambiente político para se reverter a crise econômica brasileira"

Publicidade

SÃO PAULO – Primeira crise de maior amplitude na gestão interina de Michel Temer, o vazamento de áudio de conversa entre o então senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado tende a enfraquecer os planos de proteger o governo dos desdobramentos da Operação Lava Jato, risco que já era alertado pelos especialistas levando-se em consideração a escalação de nomes investigados para o ministério. A repercussão do episódio levou Jucá a pedir licença do cargo de ministro do Planejamento do novo governo.

Na avaliação do analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o episódio recente “sinaliza que o impeachment não deve representar por si a reconstrução imediata do ambiente político para se reverter a crise econômica brasileira”. Ao contrário, mostra que a sobreposição de uma agenda econômica positiva sobre a política e investigativa negativa pela atual gestão pode não ocorrer. Cortez foi o convidado do programa Na Real na TV desta segunda-feira (23).

Com as dificuldades de governabilidade que começam a se impor sobre o governo interino, o analista não descarta a possibilidade de a presidente afastada ser absolvida no julgamento pelo Senado, o que garantiria seu retorno à função. Apesar do apertado placar de 55 votos favoráveis — um a mais que o necessário para o afastamento permanente –, porém, ele reconhece que as chances de isso ocorrer não são grandes. De todo modo, o especialista manifesta preocupação com o sistema partidário do país, que vive grave crise de representatividade, e das instituições, alvo de desconfiança da população. Cortez lembra que hoje o maior incômodo popular com relação ao país é a questão da corrupção. Para o analista, o Brasil passa hoje pelo primeiro grau de uma discussão política, que, de difícil superação, discute em nível mais imediato e menos profundo a questão da legitimidade. Temer ainda deverá ter duras batalhas nesse campo.

O risco de o país “sangrar” até as próximas eleições tem crescido, mas o analista da Tendências não vislumbra espaço para que a antecipação do pleito ganhe força no cenário político, ao menos via iniciativa do Legislativo. O TSE pode ser o único ator a provocar tal desfecho, mas que teria que ser célere no julgamento das contas da chapa Dilma-Temer, com o risco de acabar autorizando eleições indiretas, comandadas por um parlamento com baixa legitimidade para conduzir o processo. Caso novas eleições fossem convocadas no futuro próximo, as apostas seriam que PT ou Rede seriam os principais beneficiários, devido ao pouco tempo para o surgimento de novas figuras capazes de captar votos com velocidade.

Outro ponto que chamou a atenção no episódio de Jucá foram as referências ao presidente da Câmara afastado das funções parlamentares Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O episódio foi lido no mundo político como agravante para as relações entre o “centrão” e o governo Temer. O bloco será importante para a aprovação de medidas econômicas e tem exigido espaço na atual gestão. Vale lembrar que, na semana passada, foi confirmado o nome de André Moura (PSC-SE) para a liderança do governo na Câmara. Embora investigado e com sérias acusações, o peemedebista segue influente em Brasília. Na avaliação de Cortez, uma possível perda de mandato de Cunha poderia abalar a unidade do centrão e favorecer o governo, mas os riscos de vingança do deputado com colegas deixa um clima de tensão e mantém sua sobrevivência no cargo.

Para entender um pouco mais do cenário político que se desenha, assista à íntegra do programa:

Continua depois da publicidade

Primeira crise de maior amplitude na gestão interina de Michel Temer, o vazamento de áudio de conversa entre o então senador Romero Jucá (PMDB-RR) — hoje ministro do Planejamento — e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado tende a enfraquecer os planos de proteger o governo dos desdobramentos da Operação Lava Jato, risco que já era alertado pelos especialistas levando-se em consideração a escalação de nomes investigados para o ministério. Na avaliação do analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o episódio recente “sinaliza que o impeachment não deve representar por si a reconstrução imediata do ambiente político para se reverter a crise econômica brasileira”. Ao contrário, mostra que a sobreposição de uma agenda econômica positiva sobre a política e investigativa negativa pela atual gestão pode não ocorrer.
Com as dificuldades de governabilidade que começam a se impor sobre o governo interino, o analista não descarta a possibilidade de a presidente afastada ser absolvida no julgamento pelo Senado, o que garantiria seu retorno à função. Apesar do apertado placar de 55 votos favoráveis — um a mais que o necessário para o afastamento permanente –, porém, ele reconhece que as chances de isso ocorrer não são grandes. De todo modo, o especialista manifesta preocupação com o sistema partidário do país, que vive grave crise de representatividade, e das instituições, alvo de desconfiança da população. Cortez lembra que hoje o maior incômodo popular com relação ao país é a questão da corrupção. Para o analista, o Brasil passa hoje pelo primeiro grau de uma discussão política, que, de difícil superação, discute em nível mais imediato e menos profundo a questão da legitimidade. Temer ainda deverá ter duras batalhas nesse campo.
O risco de o país “sangrar” até as próximas eleições tem crescido, mas o analista da Tendências não vislumbra espaço para que a antecipação do pleito ganhe força no cenário político, ao menos via iniciativa do Legislativo. O TSE pode ser o único ator a provocar tal desfecho, mas que teria que ser célere no julgamento das contas da chapa Dilma-Temer, com o risco de acabar autorizando eleições indiretas, comandadas por um parlamento com baixa legitimidade para conduzir o processo. Caso novas eleições fossem convocadas no futuro próximo, as apostas seriam que PT ou Rede seriam os principais beneficiários, devido ao pouco tempo para o surgimento de novas figuras capazes de captar votos com velocidade.
Outro ponto que chamou a atenção no episódio de Jucá foram as referências ao presidente da Câmara afastado das funções parlamentares Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O episódio foi lido no mundo político como agravante para as relações entre o “centrão” e o governo Temer. O bloco será importante para a aprovação de medidas econômicas e tem exigido espaço na atual gestão. Vale lembrar que, na semana passada, foi confirmado o nome de André Moura (PSC-SE) para a liderança do governo na Câmara. Embora investigado e com sérias acusações, o peemedebista segue influente em Brasília. Na avaliação de Cortez, uma possível perda de mandato de Cunha poderia abalar a unidade do centrão e favorecer o governo, mas os riscos de vingança do deputado com colegas deixa um clima de tensão e mantém sua sobrevivência no cargo.
Para entender um pouco mais do cenário político que se desenha, assista à íntegra do programa:

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.