O que esperar de 2010 ? Para Krugman, chance de recessão chega a 40%

Otimismo do último ano contaminou as perspectivas de 2010, contudo, dados dos EUA sugerem cautela aos investidores

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SÃO PAULO – O ano de 2010 começou marcado pelo otimismo em relação as perspectivas de recuperação da economia global, muito dele devido a mudança do cenário ocorrida no último ano. Mas, como manda a sabedoria popular, é melhor prevenir do que remediar e, ao analisar mais profundamente os fundamentos da economia norte-americana, pode-se achar motivos de preocupação.

É importante fazer uma ressalva: o argumento aqui não é de que teremos um ano difícil como foi 2008, mas sim de que o desempenho dos mercados deverá ficar mais próximo da média histórica até que surjam evidências mais confiáveis de que a recuperação realmente está acontecendo. Até o momento, estas provas ainda não apareceram.

Imagem confusa
René Magritte, pintor frânces do início do século passado, ganhou fama ao apresentar ao mundo seu quadro intitulado “A traição das imagens”, em que a figura de um cachimbo aparece acima da frase “isto não é um cachimbo”. Talvez o mesmo paradoxo aconteça com a conjuntura econômica dos EUA.

Um bom exemplo são os últimos indicadores divulgados do país, com referência ao mês de novembro, que surpreenderam os analistas. O Retail Sales superou as expectativas, ficando em 1,3%, o Existing Home Sales também veio além do esperado, mostrando a marca de 6,54 milhões de casas, e o Employment Report acusou uma melhora na situação do mercado de trabalho norte-americano. Estes três índices deveriam inspirar confiança até mesmo no mais pessimistas. 

Contudo, um olhar um pouco mais crítico mostra que existem rachaduras na pintura. Aqueles que se preocupam com a redução dos gastos dos consumidores norte-americanos podem encontrar razões no desempenho menor do que o esperado nas vendas de fim de ano, e o otimismo com o mercado imobiliário perde parte de seu brilho quando se olha para o resultado das vendas de novas casas em novembro, medido pelo New Home Sales, que marcou vendas de 355 mil casas, número inferior àquele revisado do mês anterior, de 400 mil.

Além disso, a recuperação inesperada do Employment Report pode ser atribuída, em parte, as contratações de trabalhadores temporários para a temporada de fim de ano, que cresceu 52 mil no penúltimo mês do ano. Ainda que exista a perspectiva de que parte destas vagas sejam efetivadas, muitos destes empregos deverão desaparecer neste ano.

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Nuvem preocupante
As chances de que a economia norte-americana entre em recessão novamente no segundo semestre são entre 30% e 40%. O prognóstico de Paul Krugman, o professor da Universidade de Princeton laureado com um Nobel de economia, foi revelado durante o encontro anual da American Economic Association nesta semana. 

O discurso mais cauteloso em relação as perspectivas também foi adotado pelo professor de Harvard Martin Feldstein e por Joseph Stiglitz, que também conta com um prêmio Nobel em seu currículo. “O crescimento (da economia) não ficará robusto tão logo” disse Stiglitz, e Feldstein classificou o enfraquecimento dos estímulos do governo como “uma nuvem preocupante”.

As chances de que
a economia norte-americana
entre em recessão
novamente no segundo
semestre são de 30% a 40%

“Historicamente, crises financeiras são muito, muito prolongadas” disse Krugman no encontro, onde ele disse discordar da opinião do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan. Para ele, o rali das ações no ano passado não reduz a necessidade de novos pacotes de estímulo por parte do governo. “As pessoas estão muito mais pobres do que elas estavam há quatro anos” afirmou o professor, ao que ele adicionou ” o consumo não é tão dependente dos preços das ações quanto é dos preços das casas”.

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Para Krugman, o que tem direcionado o desempenho dos Estados Unidos até o momento é a reconstrução dos estoques, um fator fadado a desaparecer. “A chance de que nós veremos o crescimento desacelerando o suficiente para que o desemprego cresça de novo, eu diria que é razoável”.

Por fim, ele faz um alerta. O risco de uma recuperação em W está presente em todo o mundo desenvolvido, uma vez que “todos têm programas de estímulo que desaparecem”.