Visões dos gurus

O que é música para os ouvidos de Luis Stuhlberger e Rogério Xavier

Os dois gestores estão um pouco mais otimistas com o Brasil, mas ainda veem riscos, especialmente ligados à aprovação de reformas (não apenas a da Previdência)

SÃO PAULO – Se muitos investidores estrangeiros ainda estão reticentes com o ambiente de reformas e cautelosos para entrar de vez no Brasil, há cada vez mais exemplos de fundos locais que estão aumentando sua exposição a ativos de maior risco no país.

Dois gestores conhecidamente céticos — Luis Stuhlberger, da Verde Asset, e Rogério Xavier, da SPX – disseram na última terça-feira (29) ter uma visão um pouco mais positiva para a bolsa e os juros no Brasil. Estão longe da euforia, mas veem oportunidades em ações (caso de Stuhlberger, principalmente) e títulos de renda fixa prefixados (aposta de Xavier).

Mas ambos destacaram a necessidade de reformas para que a economia brasileira consiga, de fato avançar, com a redução do explosivo endividamento público. E eles lembraram que fazer essas mudanças não será fácil.

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Para Xavier é preciso mais do que a reforma da previdência para estabilizar a relação entre dívida/PIB. E ele sugere duas ações: desvincular a regra do salário mínimo do PIB, mantendo apenas o reajuste da inflação, e passar a ter direito ao abono salarial quem tem um salário mínimo, e não dois. “Os desafios são grandes. Dá para ficar otimista, mas tem que ficar de olho no corporativismo”, ressaltou.

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Já Stuhlberger defende um reajuste do salário mínimo não só pela inflação, mas também pelo PIB per capita. Ele alertou ainda que, mesmo com a reforma da Previdência, haverá um aumento da despesa previdenciária. “Mas, para o PIB crescer 2,5%, é necessário que ela seja feita”. Para que as contas fiquem equilibradas, seria necessário um crescimento do PIB de 3%. Atualmente, estamos longe disso.

Caso ocorra, a aprovação de reformas estruturantes será “música para os ouvidos” do mercado, conforme ressaltou Stuhlberger. “Vamos mudar de patamar.” Xavier compartilha da mesma visão, acreditando que a bolsa brasileira pode descolar das mundiais caso isso aconteça. Mas faz um alerta aos investidores: “não se iludam”. Afinal, o governo de Jair Bolsonaro enfrenta desafios.

Principais investimentos

Durante evento promovido pelo banco Credit Suisse em São Paulo nesta terça, Stuhlberger e Xavier também explicaram seus principais investimentos.

“Apesar de os juros terem fechado muito desde a eleição do Bolsonaro, o patamar ainda está muito errado “, avaliou Xavier, que tem aplicado em títulos de renda fixa prefixados. Para ele, não há sinais de que haverá pressão inflacionária que obrigue o Banco Central a elevar os juros. “A economia brasileira está muito fraca e devemos crescer apenas 2% este ano”.

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Mas, em caso de um cenário de avanço das reformas, a Selic pode cair ainda mais. “Como achamos que a inflação pode cair para 3,75%, o juro real poderia recuar também, para 5% a 5,75% ao ano, com uma taxa real de 2%”, explicou Xavier.

Para Stuhlberger, o cenário de inflação e juros baixos deve impulsionar o consumo e o PIB, que pode crescer em torno de 3% ao ano – um cenário positivo para a bolsa. Atualmente, cerca de 18% da carteira está alocada em ações nacionais e 7% em papéis no exterior, com exposição principalmente nos Estados Unidos. A Verde Asset também tem investimentos relevantes em títulos públicos atrelados à inflação.

A preocupação maior do gestor da Verde é com a China e economia global e, por essa razão, o fundo tem aplicações em ações americanas. “Temos o corte de impostos e o resultado positivo do setor de tecnologia, e hoje a relação preço versus lucro das empresas americanas está em 15 vezes, o que torna razoável ter uma posição em ações lá”. Além disso, avalia que um acordo entre EUA e China pode levar a uma pernada de alta nos mercados. Por outro lado, com desaquecimento econômico, há pouco espaço para os principais BCs pelo mundo atuarem reduzindo os juros. “O único com esse espaço é o Fed”.

A SPX, mais cética, tem uma pequena posição comprada em bolsa brasileira. Um movimento relevante foi realizado nesta segunda-feira após a forte queda das ações da Vale com a repercussão do rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

Prêmio de liquidez subestimado

Mais do que uma precificação errada no mercado de juros, para Xavier os investidores estão subestimando o prêmio de liquidez. Ele lembra o movimento da última segunda da Vale, que despencou cerca de 24%, algo nunca visto por ele em 33 anos de experiência no mercado no caso de uma blue chip.

Movimentos como esse é sinal de que os riscos estão sendo deixados de lado. “No caso da Bolsa brasileira agora, todo mundo está animado, os gestores brasileiros”. Mas em caso de recessão, “não haverá saída.”

Para o sócio da SPX, o quadro pode piorar em caso de agravamento da economia mundial. “Acho que os dados do primeiro trimestre vão ser muito ruins na Europa e na China e os Estados Unidos vão estar contaminados pelo impasse com o congresso e o fechamento do governo, que vai mascarar o desaquecimento”, explica. Sobre isso, resta uma dúvida: “não sei se os investidores vão achar que estamos às portas da recessão global como no fim do ano passado ou que o pior já passou e que os estímulos dados pelos bancos centrais e pelo governo chinês vão ser suficientes”.

Dificuldade em construir portfólio

Para Stuhlberger, atualmente, vivemos em um mundo “deflacionista” – ou seja, que não enfrenta uma aceleração da inflação das suas principais economias. Isso tende a beneficiar os emergentes, já que os Bancos Centrais acabam por manter juros baixos. 

Apesar dos tempos potencialmente benéficos com a inflação baixa, os últimos meses foram de incertezas. “Víamos relatórios internacionais que mostravam o balanço da empresa dentro do esperado, sem revisão de lucros, e ação caiu 30%. E isso é uma fase muito difícil de construir portfólio. Muita gente boa dizia ‘eu não sei explicar'”, destacou.

Para Stuhlberger, houve duas quebras de paradigmas em 2018 que tornaram o cenário mais complexo: a inflação que não apareceu nos EUA e as mudanças no mercado acionário no país. “Estamos em uma fase difícil para construir portfólio”, afirmou. 

Na mesma linha, Xavier destacou os fortes movimentos recentes de queda do petróleo (por um período chegando a ter baixa de 10% ao dia). “O que está acontecendo? A gente se perguntava”. A grande explicação foi de uma economia mundial, de muito aquecida, para uma forte desaceleração. Para que isso tenha acontecido, há fatores como guerra comercial, desaceleração na China, Itália e sua confusão sobre o Orçamento. Apesar de tudo isso, não deixa de surpreender a maneira brusca com que essa virada se deu, avalia o gestor. “De muito aquecida, questiona-se se a Alemanha vai entrar em recessão em seis meses. Como isso é possível?”

Outro ponto de preocupação é referente à China e, sobre ela, há um alerta importante: no terceiro trimestre, o crescimento foi cerca de zero, levando a receios sobre o modelo de crescimento do gigante asiático, muito baseado em investimento e pouco em consumo.  “A China é que nem banco grande; a quebra vai acontecendo ao longo do tempo e não da noite do dia” e a sua mudança vai requerer um desafio adicional uma vez que “terá que trocar o pneu com o carro andando”.

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