Publicidade
SÃO PAULO – Enquanto para os mais novos a questão provavelmente passou batida, aqueles que têm mais de 30 anos com certeza devem se lembrar dos problemas enfrentados pelo setor bancário brasileiro entre 1994 e 1997. Para refrescar a memória: quando a situação piorou por aqui, havia 271 bancos, sendo que 48 tiveram alguma forma de mudança no controle ao longo do processo e 43 tiveram algum regime especial decretado.
A lembrança é feita por Gustavo Franco, sócio da Rio Bravo Investimentos, ao propor um olhar para a crise financeira norte-americana a partir da experiência brasileira. No podcast da firma, o economista faz uma análise comparativa desses dois acontecimentos e das medidas tomadas pelos governos de ambos os países diante dos problemas, afirmando que há instâncias interessantes da nossa experiência que podem ajudar a entender a situação nos EUA.
Segundo Franco, o plano do governo Bush de comprar créditos ilíquidos de instituições financeiras se assemelha à RTC (Resolution Trust Corporation) criada no final de 1980 para assumir ativos de instituições de poupança que quebraram. A analogia brasileira a essa nova RTC, diz o economista, é o FCVS (Fundo de Compensação de Variações Salariais), que foi um fundo governamental criado para bancar os prejuízos do setor financeiro com o SFH (Sistema Financeiro da Habitação).
Em sua análise, Gustavo Franco traçou os principais acontecimentos da crise norte-americana, detalhando particularmente a sua fase sistêmica (ou aberta) que começou com a intervenção no Bear Stearns. Por aqui, essa fase começa com o Raet (Regime de Administração Especial Temporária) no Banespa e no Banerj e em seguida a intervenção, na forma da Lei 6.024, no Banco Econômico, episódios que deram origem à seqüência de intervenções nos três anos posteriores.
Fim de semana, Raet e shotgun marriage
De acordo com o sócio da Rio Bravo, a intervenção no Bear Stearns se assemelha às operações de fim de semana, como era chamado no Brasil quando um banco assumia durante o fim de semana as operações de outro, enquanto o Banco Central herdava o portfólio ruim. Essa primeira intervenção, como ficou claro, não deixou uma boa impressão nos mercados.
“E vale lembrar o seguinte: as primeiras são sempre as mais difíceis”. Quando chegou a vez da segunda intervenção, a operação escolhida pelo Federal Reserve em relação a Fannie Mae e Freddie Mac foi outra. “É algo como o Raet e a analogia óbvia é o que fizemos com o Banespa”, afirma Gustavo Franco. Mas nessa situação, fica a pergunta: qual a efetividade de uma mudança na diretoria, tendo em vista os problemas patrimoniais e administrativos que as instituições já têm? O economista responde: aqui no Brasil, isso não funcionou.
Continua depois da publicidade
Dessa forma, em meio às preocupações acerca de risco sistêmico e risco moral, a crise dos EUA segue para a próxima intervenção, apresentando o desenrolar dos problemas de Lehman Brothers e Merrill Lynch, ambos no mesmo fim de semana. O caso do Lehman Brothers, o Chapter 11, é equivalente à nossa intervenção na Lei 6.024, onde a instituição fica aberta, enquanto liquida e vende seus ativos.
No que se refere à Merrill Lynch, o default sobre o Lehman Brothers teria uma pressão muito grande sobre o banco. Segundo o economista, sabe-se que as decisões foram conjuntas, incentivadas pelo Fed, como em um shotgun marriage. “Segundo testemunhas, uma vez decidido o que fazer com o Lehman, o presidente da Merrill, John Thain, levantou-se da mesa dizendo “vou vender antes que seja tarde”, pegou o telefone, e em poucas horas o seu deal com o Bank of America estava feito, por US$ 29 por ação. Talvez se ele esperasse a abertura dos mercados na segunda-feira, o valor da ação fosse para baixo de US$ 5 dólares”.
Com o estresse do fim de semana e com a certeza de que o problema não se encerrava ali, a segunda-feira começou com o nome da AIG em foco. Dessa forma, foi anunciado o empréstimo para a seguradora, que, segundo Gustavo Franco, de todas as operações feitas, é a que mais se parece com as nossas operações ao amparo do Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento). Esse empréstimo tem garantia no patrimônio da própria empresa, embora o custo seja caro.
Para quem neste ponto se pergunta como isso vai acabar, a resposta de Gustavo Franco aparece no início de sua exposição: ainda é muito cedo para saber. De acordo com o economista, há uma diferença gritante em relação à situação do Brasil no início da década de 1990: há muito capital à disposição para comprar ativos bons e de longa duração, o que não havia aqui.