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O problema que o Fed criou para as Bolsas dos EUA que pode estourar em breve

No ano passado, as empresas do S&P 500 investiram cerca de 95% de seus lucros em recompras de ações e pagamentos de dividendos, com as recompras de ações excedendo os US$ 2 trilhões desde 2009

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SÃO PAULO – Seis anos de taxas de juros próximas a zero por cento nos Estados Unidos levaram as bolsas americanas a um descompasso com a realidade. As companhias preferem investir no mercado de ações do que em seus próprios negócios, inflando o preço dos papéis.

No ano passado, as empresas do S&P 500, um dos principais índices acionários do mercado americano, investiram cerca de 95% de seus lucros em recompras de ações e pagamentos de dividendos, com as recompras de ações excedendo os US$ 2 trilhões desde 2009, segundo dados compilados pela S&P Dow Jones Indices. 

Esse ano, as recompras bateram um novo recorde. Somente no mês de fevereiro, as companhias anunciaram recompras acionárias de US$ 104,3 bilhões, valor que equivale a 2% do valor total dos papéis negociados em bolsas locais naquele mês, segundo estatísticas compiladas por TrimTabs Investments Research e Bloomberg e divulgadas pela IR Magazine. O montante foi o maior desde que a TrimTabs começou a acompanhar os dados, em 1995, e quase o dobro dos US$ 55 bilhões em planos de recompras anunciados em fevereiro de 2013. 

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Um comportamento que mostra o óbvio: as empresas estão optando por pegar dinheiro emprestado a juros basicamente zero e recomprar suas ações. Se o retorno não vem do crescimento do próprio negócio – que sofreu com a economia americana patinando nos últimos anos -, vem a partir das recompras. 

Com a “empurrão” das recompras, o mercado altista dos EUA, que começou em março de 2009, já excede o rali que durou de 1974 a 1980 como o segundo maior desde 1956 – uma duração que já desperta ansiedade entre os profissionais, que viram os dois ciclos anteriores desse tipo terminarem em catástrofe. 

Se a dúvida é quão os preços agora estão descolados da realidade, uma medida conhecida como razão de Q, desenvolvida por James Tobin, um economista da Universidade de Yale, ganhador do Prêmio Nobel, que morreu em 2002, aponta que estão muito. Segundo a razão Q de Tobin, as ações dos EUA estão avaliadas cerca de 10% acima do custo de substituição de seus ativos subjacentes – nível mais elevado que em qualquer outro período da história, com exceção da época da bolha da internet e do pico de 1929.

Com o acesso a dinheiro fácil e barato e a economia em compasso de ajuste, boa parte desses empréstimos está alimentando uma série de programas de recompras de ações pelas empresas, o que cria o fluxo comprador pelas ações, estimulando o crescimento de seu valor de mercado. Em fevereiro, a State Street Global Advisors lançou um fundo de índice (ETF) que investe exclusivamente em empresas americanas conhecidas por recomprar ações (o S&P 500 Buyback), em um argumento que hoje as recompras são a principal forma de remunerar os acionistas, à frente dos dividendos. 

No gráfico abaixo, disponibilizado pelo site Zero Hedge, dá para se ter uma ideia de como o mercado americano vêm sendo inflado pelas recompras. A imagem mostra o S&P 500 Buyback, que compila as 100 ações do S&P 500 com o maior índice de recompras de ações, contra o próprio S&P 500. O S&P 500 Buyback vem derrotando o S&P 500 desde 2001.

Fonte: Zero Hedge

E, por que isso é motivo de preocupação? Ainda esse ano o Federal Reserve, banco central americano, deverá elevar sua taxa de juro, encerrando, gradualmente, com a farra dos juros quase zero. Ou seja, se hoje as recompras estão em recorde histórico, isso demonstra a influência da política do Fed na alta das ações americanas, e, por si só, torna-se mais um motivo para acreditar que o mercado sentirá quando os juros começarem a subir, comentou Leandro Ruschel, fundador da escola de traders Leandro & Stormer e da Liberta Global, que atua nos Estados Unidos, que opera há 15 anos no mercado. 

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O alerta não vem só dele. A corrente que acredita que o “bull market” (mercado altista) das bolsas dos EUA está próximo do fim é grande. A própria presidente do Fed, Janet Yellen, fez seu alerta em maio deste ano. Para ela, os preços das ações estão muito altos, enquanto alguns títulos e bônus de renda fixa muito baixos, o que sugere que os investidores estão assumindo riscos excessivos. No mês seguinte, gurus do mercado, como o prêmio Nobel Robert Shiller e o economista Nouriel Roubini, ambos famosos por preverem a crise de 2008, alertaram para um possível formação de bolha no mercado americano, apontando que as bolsas lá estavam excessivamente caras. O mesmo alerta já havia sido dado por Jamie Dimon, presidente do JP Morgan, e Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro americano.