Expert 2014

“O nível da água subiu no oceano e Lula achou que foi mérito dele”, diz Delfim Netto

Ex-ministro da fazenda destacou que não houve a tempestade perfeita neste ano, mas que temos todas as condições de entrar em uma se nada mudar

SÃO PAULO – O Brasil precisa mudar, mas será a balança entre as urnas e as eleições que apontará quais são os rumos para a economia nacional, destacou o economista Delfim Netto na 4ª Expert 2014, encontro que foi realizado pela XP Investimentos em Atibaia (SP) e que também contou com a participação dos economistas Luiz Carlos Mendonça de Barros e Zeina Latif. 

Perguntado pelo mediador William Waack se a tempestade perfeita aconteceu e “nem deu tempo para ir ao banheiro”, Delfim respondeu em tom de brincadeira que “nós já estávamos no banheiro”. O economista e ex-ministro da fazenda afirmou que, apesar de não termos chegado à uma tempestade perfeita, nós temos todas as condições de entrar em uma se nada mudar.

A expressão “tempestade perfeita” ganhou destaque nas falas de Delfim Netto no final do ano passado, em meio à possível combinação de fatores de risco: a situação fiscal brasileira mais deteriorada, o que poderia levar a um rebaixamento de rating (o que realmente aconteceu, em março de 2014), associado a um cenário de diminuição da compra de ativos pelo Federal Reserve e um aumento da taxa de juros.

Para Delfim, o governo entrou em ação para evitar o rebaixamento de rating, “mas foi rebaixado mesmo assim” pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s. Em compensação, a taxa de juros dos EUA não subiu e evitou que houvesse o crash desenhado por ele. 

Perguntado sobre a atual situação econômica do Brasil em meio à alta inflacionária e o baixo crescimento do PIB, Delfim mostrou-se ironicamente otimista:  “nós não temos competência para diminuir o crescimento do Brasil, mas que podemos até atrasá-lo”. Para ele, o Brasil não vira uma Venezuela principalmente por conta do pacto social devido à Constituição de 1988, que foi um marco. “O Brasil está em um outro nível”. Para ele, o pessimismo está muito superior ao razoável. 

Urna X Mercados e “capitão” Lula
Delfim também destacou a sua tese sobre o equilíbrio entre urna e mercado, que também será uma marca nessas eleições. “Quando a urna é muito distributivista, o mercado vem e corrige, e quando o mercado é muito ‘mercadista’, a urna vem e corrige também”. Para ele, uma das questões que pode ser determinante para o atual processo eleitoral é a da distribuição de renda, uma das marcas do governo petista e que apresenta tendências de estagnação.

O ex-ministro também fez um paralelo entre os governos de FHC e Lula, com o primeiro tendo alcançado a estabilidade econômica e proporcionado de certa forma a eleição de Lula por conta da estabilização e do crescimento. O ex-presidente petista também contou com uma maré mais favorável em termos de conjuntura internacional – algo que foi “ironizado” por Delfim.

“Lula era o capitão do barquinho Brasil. O nível da água subiu no oceano e Lula achou que foi mérito dele”, brincou Delfim, ressaltando a forte alta dos termos de troca (relação entre os produtos vendidos para o exterior em relação aos comprados do exterior), que subiram fortemente por conta da demanda da China. “Agora que a maré baixou, vemos que hoje estamos ‘sem calção'”.

 O distributivismo está comendo o crescimento, afirma Delfim, e isso será refletido na urnas. “Mas pode ser que não seja agora”, ressaltou. 

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Tempestade virou caos?
Delfim Netto também destacou o termo usado por Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos que participou do debate, de que há uma “infantilização” das relações entre o governo brasileiro e a sociedade, além de “falar dos perigos sobre a bolsa-empresariado”.

“Desde quando empréstimo é recurso?”, ressaltou, destacando que isso será insustentável e que pode levar a uma situação caótica mais à frente. “Nós sabemos que vai acontecer, mas não quando”. Para Delfim, o governo fez muita coisa errada, mas não tudo, o que dá margem para que os problemas sejam corrigidos.