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SÃO PAULO – Até uma semana atrás, nove entre dez analistas, quando indagados da decisão a ser tomada pelo Fed nesta terça-feira (16) acerca do juro básico norte-americano, compartilhavam de uma resposta em comum: nova manutenção. Todavia, o colapso do sistema financeiro nos últimos dias traçou, de repente, um cenário consideravelmente mais deteriorado ao time liderado por Ben Bernanke.
Longe de ficar restrito ao mercado financeiro, o pedido de concordata do Lehman Brothers fez com que as bolsas desabassem na última segunda-feira, em uma derrocada histórica que pode se alastrar pelo lado real da já penalizada economia dos EUA. “A quebra do Lehman tornou a decisão muito mais difícil do que seria dias atrás”, observam os analistas do banco australiano Commonwealth.
Se o cenário tornou-se mais nebuloso ao Fomc (Federal Open Market Committee), as projeções dos analistas também, indo desde nova manutenção da Fed Funds Rate até um retorno da flexibilização monetária no país. E até em tal segunda possibilidade, o dissenso se faz presente, com apostas variando entre 25 pontos-base até 75 pontos-base, embora o meio termo – um corte de 50 pontos-base – seja visto como o mais provável.
Os que apostam em manutenção
A equipe do Société Générale é uma das que acreditam que a Fed Funds Rate vá permanecer inalterada ao seu atual patamar de 2,00% ao ano, ao menos neste encontro do colegiado. Isto porque, segundo os analistas, ainda que o recente agravamento da crise exerça, sem dúvida, forte pressão sobre o Fed, este deve manter uma postura cautelosa, pautada por uma maior espera do desenrolar dos acontecimentos para que, então, uma decisão mais precisa seja tomada.
Nesse sentido, a autoridade monetária esperaria mais tempo para avaliar a real magnitude do atual colapso do sistema financeiro, possivelmente distorcida pelo atual furor dos mercados. Ademais, uma maior espera seria útil também uma vez que propiciaria tempo para que os efeitos da expansão das linhas de crédito em US$ 70 bilhões – decisão tomada por Bernanke na última segunda-feira – fossem maturados.
Todavia, até entre os que esperam por uma manutenção da taxa básica de juro nesse encontro não rejeitam uma inflexão da postura do Federal Reserve em breve. É o caso dos analistas do Commonwealth. “Na ausência de um corte nesta terça-feira, uma reunião extraordinária nas próximas semanas não pode ser descartada”, afirma a equipe do banco.
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Os que apostam na flexibilização
“No atual ambiente, achamos que o Fed deve sentir a necessidade de enfrentar a crise com uma atitude mais agressiva”, afirmam os analistas da Merrill Lynch. A frase evidencia a projeção da equipe do banco de investimentos para a decisão a ser tomada nesta terça-feira pelo comitê: um corte de 50 pontos-base na Fed Funds Rate.
Segundo a Merrill Lynch, os recentes eventos jogam maiores tensões para o lado da atividade econômica norte-americana, ao passo que a balança vem pendendo cada vez menos para a esfera inflacionária. “Em tal cenário, faz pouco sentido que o Fed opte por esperar mais”, afirma a equipe, que se faz de palavras recentemente proferidas por Janet Yellen, presidente do Fed de São Francisco, para embasar sua leitura:
“Ainda que a atual taxa de juro seja historicamente baixa, eu ainda não considero que a postura da autoridade monetária seja excessivamente estimulante. Eu acredito que as condições financeiras estejam hoje mais restritas do que quando a crise se abateu, um ano atrás”, afirmou Yellen, em discurso feito no último dia 5 de setembro.
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Em visão semelhante, os analistas do Citi também acreditam em uma flexibilização na magnitude de 50 pontos-base. “Reduzir o juro traria dois grandes benefícios. No curto prazo, proveria o sistema financeiro de maior liquidez. No longo prazo, facilitaria o reequilíbrio dos balanços das grandes instituições”, argumenta a equipe.
Histórico recente da crise sobre o juro
Pressionado pelo estouro da bolha imobiliária sobre as praças financeiras, o Federal Reserve deu início, em setembro do ano passado, a um profundo ciclo de flexibilização monetária nos EUA, que durou até abril deste ano e reduziu a Fed Funds Rate em um total de 325 pontos-base, passando de 5,25% ao ano a seu atual patamar de 2,00% ao ano.
Os cortes foram interrompidos na medida em que tensões inflacionárias começaram a se revelar mais profundas, dada a trajetória de disparada no preço dos alimentos e dos combustíveis. Todavia, a recente queda nas cotações das commodities voltou a jogar os holofotes para o lado da atividade econômica no país, ainda sob o sério receio de uma recessão.
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Além do encontro agendado para esta terça-feira, a autoridade monetária norte-americana tem ainda em seu calendário duas reuniões até o final do ano, previstas para 28 e 29 de outubro e, depois, para 16 de dezembro.