Troca de ministros

O impeachment tira férias, Dilma trabalha e Barbosa assume

Apesar de todos os ganhos de Dilma Rousseff no STF a probabilidade de o processo de impeachment da presidente prosperar persiste elevada

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A decisão do STF sobre o rito do processo de impeachment foi considerada como uma “vitória” da presidente Dilma Rousseff. De fato, a presidente da República ganhou tempo para se articular em três níveis: (i) junto à base governista a qual está bem esgarçada, (ii) perante à sociedade, sobretudo no que diz respeito à política econômica e (iii) dentro do governo, onde o nível de traição andou bem elevado desde que Eduardo Cunha recebeu o pedido de impeachment. Todavia, as chances de o processo de impeachment prosperar e tirar Dilma Rousseff do Palácio do Planalto persistem elevadas. Não nos enganemos. Vejamos as tarefas mais urgentes da presidente.

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No que diz respeito à base governista o objetivo de Rousseff será o de convencer os partidos que a sustentam que as condições para que o impeachment não seja aprovado pela Câmara dos Deputados e, se for o caso, pelo Senado Federal, são realmente boas. A crença de que a presidente não cairá será o principal fator para que os partidos políticos, sobretudo os mais fisiológicos (maioria no Congresso), não abandonem a primeira mandatária. Caso tenha sucesso, a presidente voltará a negociar no varejo cargos e posições de poder. Assim, evitará a revoada de deputados na direção da oposição e do vice-presidente Michel Temer. O que ficará pendente da parte da presidente será um futuro mais promissor para o país, aspecto fundamental para a reeleição de suas excelências os deputados em 2018. Com três anos de mandato, Dilma ainda pode gastar saliva para convencer as bancadas a ficarem do lado do governo.

A mudança da política econômica é o outro nível no qual a presidente gastará tempo. A queda de Joaquim Levy já aconteceu há pelo menos um mês (a propósito, leia meu artigo de 11/11/2015). O fato de ter formalmente sobrevivido foi resultado apenas da conjuntura política. Levy estava marcado para morrer, seja pelo PT, seja pelo próprio Palácio do Planalto o qual nunca acompanhou as diretivas do ex-ministro Levy. A transformação de Nelson Barbosa no todo poderoso da economia brasileira é fato que não pode ser comemorado como vitória da presidente.

Foi apenas a única alternativa possível. O novo ministro é alguém que a presidente terá relativa facilidade para exercer os seus dotes de mulher que gosta de mandar. A princípio, Barbosa não traz nada de novo à baila. Suas ideias são as mesmas de Guido Mantega com a diferença que a responsabilidade fiscal é mais elevada no caso do ministro que ora ascende. Barbosa é o burocrata à altura da crise: cozinhará o “arroz e feijão” que Maílson da Nóbrega já ensinou a preparar no Governo do imortal José Sarney. A política econômica apenas mudará para melhor quando a política no Congresso Nacional mudar. Portanto, trata-se de algo não passível de ser previsto.

Quanto à restruturação do governo para eliminar os “traidores”, a presidente terá de correr riscos para executar esta tarefa. A mais fácil parte será pôr para fora do governo os apoiadores de Eduardo Cunha por duas razões: a primeira porque os indicados do deputado carioca são poucos e, em segundo lugar, porque com Cunha não há mais nada o que falar. A principal dificuldade de Dilma Rousseff será o de lidar com os aliados de Michel Temer e Renan Calheiros. O vice-presidente já deu sinais de que quer o lugar de Dilma Rousseff e para isto chegou, até mesmo, a negociar com Eduardo Cunha, em princípio alguém de quem até Papai Noel desconfiaria. Seus aliados ainda embutidos no governo precisam ser levados para a porta de saída, mas isto tem de ser feito de modo silencioso, gradual e, ao mesmo tempo, profundo. Dilma deve saber disso, mas possivelmente não tenha operadores políticos em suficiência para não fazer mais barulho em meio às turbulências do processo de impeachment. Note-se que Michel Temer também está sob o foco das luzes da Operação Lava Jato e tende a ficar mais arisco e atento aos passos da presidente.

O caso mais complicado é o de Renan Calheiros. Este senador alagoano está às voltas com inquéritos da PF e processos motivados pelo MPF junto ao STF. Todavia, por interesse próprio, foi fiel à Presidente da República e evitou os rápidos e ferinos passos de Michel Temer. O Planalto, por esta e por outras deve muito ao alagoano. Terá de recompensá-lo no exato momento no qual Calheiros está mais atolado com problemas com a Justiça. Dilma aqui terá de ser habilidosa, coisa que não é, e manter Renan Calheiros perto do coração do governo sem contaminá-lo. Tarefa difícil, mas necessária.

Apesar de todos os ganhos de Dilma Rousseff no STF e, com efeito, junto à sua base que andou quase perdida, a probabilidade de o processo de impeachment da presidente prosperar persiste elevada. A razão para tal é que a situação econômica do país é periclitante. Milhões estão desempregados, a produção persiste caindo, os riscos aumentando (principalmente após a perda do grau de investimento do país), a descrença se alavancando e, por fim, o povo cada vez mais distante daqueles que escolheu nas eleições.

Para reduzir ou eliminar as chances do impeachment a presidente terá de mostrar que está firme no timão do barco e que será capaz de estruturar uma política econômica que retire o Brasil da situação depressiva em que se encontra. Nem mesmo políticos inescrupulosos são capazes de “dar um tiro no pé” e apoiar um governo que não lhes dê futuro eleitoral. Seja aqui ou em Maranguape a lógica é esta.

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