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SÃO PAULO – Em palestra na Câmara Portuguesa na tarde desta segunda-feira (24), o economista e sócio da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, destacou temas importantes para a economia brasileira. Conforme aponta Mendonça de Barros, o ano de 2014, é de transição no cenário nacional, dando menção a dois motivos especiais.
“O ano, que já é peculiar, ficou ainda mais pois conta com três fatores de risco”, avalia, citando os riscos econômicos, o social e o da Copa do Mundo. O primeiro motivo, aponta o economista, já seria o suficiente para aumentar os riscos para o País. E um grande evento para tanto ocorrerá na virada de fevereiro para março, quando será divulgado o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2013.
Já do lado social, ressalta-se ainda a insatisfação crescente com as manifestações do meio do ano e que ainda é mal entendido por boa parte dos analistas. Com a Copa do Mundo, as manifestações tendem a eclodir novamente. E o terceiro ponto de preocupação são as eleições.
Esse é o primeiro grupo de preocupações, mas há outro fator de transição. Após a “bonança” vivida entre os anos de 2005 e de 2010, principalmente pelo boom do preço das commodities – mesmo com a crise de 2008 pressionando as cotações -, a arrecadação não deve mais crescer tanto, assim como a China deve desacelerar o seu crescimento nos próximos anos. “Não há nenhuma descontinuidade, os problemas não são tão expressivos”, avalia Mendonça de Barros, mas destacando que o mercado deve ficar de olho.
O economista avalia que, ao contrário dos últimos dois anos, consolidou-se muito mais rápido a percepção de que o crescimento será baixo em 2014 – de acordo com as projeções da MB Associados, alta de 1,6%. O governo já sinaliza isso, já trabalhando com um crescimento do PIB de 2,5%.
Crise dos emergentes surpreendeu, assim como a mãe natureza
Mendonça de Barros também aponta para um dos pontos que ninguém esperava, pelo menos não em tamanha intensidade: a forte saída de capitais dos emergentes, assim como a sua forte crise, dando especial menção a países como Tailândia e Ucrânia, este último necessitando de muito capital para não correr risco de moratória.
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Além disso, avalia, há também o caso da Turquia, que vive a combinação de uma crise política e econômica, o que levou à forte subida na taxa de juros, assim como a África do Sul e a Índia. Neste grupo, o Brasil foi incluso, assim como a Indonésia, formando assim o grupo dos 5 frágeis, que ganhou forças no mercado com a denominação feita pelo Morgan Stanley, em agosto do ano passado.
“O Brasil luta para esclarecer que não faz parte dos 5 frágeis. Mas se existe a dúvida, já indica uma posição defensiva, dado o déficit de conta corrente acima de 3,5% do PIB”, avalia o economista.
Por fim, está a questão chamada “mãe-natureza”, uma vez que nenhum dos meteorologistas previa um cenário de tão poucas chuvas, o que levou à perda da safra agrícola e uma crise da oferta de energia elétrica. Isso em um cenário em que o setor já estava frágil, após a confusão com a Medida Provisória 579 – em setembro de 2012 -, em que a presidente Dilma Rousseff buscou cortar os preços de energia e causou incertezas no setor.
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Desta forma, o conjunto de um crescimento modesto, um grande volume de incertezas e o fato de já se iniciar o ano negativo, mostram um ambiente bastante complicado para o Brasil.
Transição para novas características de crescimento
O ambiente que se forma, aponta o economista, leva a uma transição do modelo de crescimento, com o fim de alguns catalisadores principais, que guiaram o modelo econômico nos últimos anos: a queda do crescimento fortemente acelerado da China, o fim da era de juros internacionalmente baixos, a desaceleração do crescimento acelerado da demanda interna com os programas como a Bolsa Família e a arrecadação não mais tão forte.
Com isso, o pacote anunciado na semana passada pelo governo, com o contingenciamento de R$ 44 bilhões, deve ser ainda mais profundo. “Não há mais como fazer contabilidade criativa, tem que mudar a forma de agir”, aponta o economista.
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Fim dos campeões nacionais
Mendonça de Barros avaliou ainda o início do fim da política dos campeões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), destacando que a derrocada do grupo EBX, de Eike Batista, tão apoiado pelo governo, é um exemplo disso.
“A ideia é cópia do modelo sul-coreano, mas deve-se ressaltar que a Samsung é uma das campeões nacionais por lá enquanto, no Brasil, eram as empresas ‘X’ e frigoríficos, este último com baixa inovação”. Com a mudança de planos do banco de fomento, que não terá mais recursos tão abrangentes para dar saltos tão fortes em seus empréstimos, a disputa irá aumentar.
Neste cenário, o desafio é retomar o reequilíbrio macroeconômico para se recuperar o crescimento econômico. “E isso não acontece sem investimento”, avalia.
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Argentina, Venezuela e as “quebradas da bolsa”
Em relação ao cenário complicado tanto para a Argentina quanto para a Venezuela, o economista ressalta que, em relação ao primeiro país, o cenário pode se desdobrar em piores consequências para o Brasil. Porém, no caso da Venezuela, a “economia em estado terminal” já parece estar refletida no case de investimento do País.
Falando nas “economias quebradas”, Mendonça de Barros apontou ainda para o cenário difícil de diversas companhias brasileiras, como a Petrobras (PETR3;PETR4) e Eletrobras (ELET3;ELET6) que, segundo ele, já estão com o “joelho quebrado”. “A Petrobras praticamente já derreteu, estando numa situação particularmente difícil”, avalia, em meio ao alto endividamento e a política de não repasse de preços ao consumidor usada pelo governo para controlar a inflação.
Por outro lado, o economista buscou diferenciar a situação vivida pelos bancos públicos brasileiros, como é o caso do Banco do Brasil (BBAS3) e da Caixa Econômica Federal: “o primeiro possui maior governança corporativa, enquanto o segundo, de capital fechado, é de uma avaliação mais complicada”.