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(CAMPOS DO JORDÃO*) – Para Jim O’Neill, o economista que por décadas trabalhou no Goldman Sachs e criou o termo BRIC (grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China), o futuro do Brasil não é tão ruim quanto prevê o mercado. Em palestra e entrevista no congresso da BM&FBovespa, O’Neill defendeu políticas que favorecem a desvalorização do real e disse que o BC também deve olhar também para o curto prazo no momento de tomar decisões. O economista critica, no entanto, os gastos elevados do governo e alerta: o Brasil não deve copiar o modelo da China em que o crescimento do PIB é induzido pelo Estado. Leia a seguir o que pensa O’Neill:
BRASIL
As pessoas se esquecem que a economia é cíclica. O Brasil está com problemas porque a velha China está mudando. Foi fácil para Rússia e Brasil crescerem enquanto os preços das commodities estavam aumentando. O declínio do real é positivo. No longo prazo, o Brasil vai se beneficiar de um dólar entre R$ 2,45 e R$ 2,50, que está trazendo de volta a competitividade a muitos setores da economia. O crescimento do PIB também foi muito ruim no começo da década de 2000, foi pior que no começo desta década. Mas pode acontecer como em 2003 e a economia começar a acelerar sem que nada de especial seja feito. Aqui no congresso [da BM&FBovespa] disseram que o PIB potencial do Brasil está entre 2% e 2,5%. Acho muito difícil acreditar nisso. O crescimento está desapontador nos últimos anos, mas não acho que essa seja a tendência de longo prazo. No início da década passada, eu dizia que o Brasil cresceria quando criei o termo BRIC. Meu amigo Paulo Leme [economista brasileiro que também trabalhava no Goldman Sachs] dizia que não concordava. Voltei ao Brasil alguns anos depois e afirmavam que eu era um gênio porque havia previsto aquele crescimento de 5%.
Acho que o Brasil não é nem tão ruim com já foi nem tão bom quanto a China. Acho que há uma chance de que o crescimento surpreenda neste ano. Mesmo com a inflação um pouco acima da meta, a inflação anual atual é igual à inflação diária há 30 anos. Não acho que o fato de o desemprego estar tão baixo deva ser um motivo de preocupação. As pessoas não querem políticas, elas querem empregos.
Se o investimento privado subir, isso pode dar um grande impulso à economia. O crescimento impulsionado pelo governo só faz sentido em momentos de crise. A gente achava que o governo tomaria medidas para incentivar o investimento privado e ainda não aconteceu. O Brasil não pode querer se tornar uma China. A própria China não quer mais ser a velha China, não quer mais crescer 10% ao ano. Mas não sou tão crítico sobre o governo. A Nova Zelândia foi o primeiro país a adotar metas de inflação e eles criaram um regime tão rígido que não consideravam mais nada. A Austrália depois adotou metas, que foram mais flexíveis, duráveis e bem-sucedidas. O BC australiano olha para coisas de curto prazo também. Acho inclusive que o enfraquecimento do real é o que o Brasil precisava. Uma maneira de fazer isso era reduzir a taxa de juros, mesmo arriscando que a inflação fosse um pouco mais alta. Não se preocupem tanto com o câmbio no curto prazo. O dólar australiano sempre foi muito volátil e isso nunca foi um problema tão grande. É um câmbio flutuante. Vai para cima e para baixo. Então acho que o BC fez um trabalho bom. Na parte fiscal, acho que deveria ter sido contracionista mais rápido, após a crise de 2009.
CHINA
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Boa parte do mundo emergente vem mostrando dificuldade. A China está fazendo seu dever de casa muito bem, está fazendo melhor do que o mercado percebe. O problema é que os dados chineses estão mostrando desaceleração há três anos. Ao menos os chineses mostraram alguns dados alentadores que indicam estabilização nos últimos dois meses. É importante lembrar que a qualidade do crescimento está melhor. As vendas do varejo da China vêm crescendo consistentemente desde 2010, mesmo com o desaquecimento da economia. A China deliberadamente decidiu reduzir o próprio crescimento. A desaceleração não está ligada a uma possível piora do mundo, vem de dentro. Não entendo por que tanta gente está tão preocupada com a China. Mesmo com uma nova China que cresce 7,5% ao ano, eles já contribuem tanto para o crescimento global quanto metade dos EUA. Acho que a China pode resolver o problema dos maus empréstimos no setor bancário facilmente. Eles são mais fortes que os outros três BRICs juntos.
PAÍSES DESENVOLVIDOS
A economia mundial ainda está tentando se recuperar. Algumas partes estão melhores, outras não estão tão bem. Mas, pela primeira vez desde 2008, as três principais economistas desenvolvidas [EUA, União Europeia e Japão] estão melhorando simultaneamente. A expansão é modesta. A produção industrial global não está tão acima de 50 [nas pesquisas PMI, índices acima de 50 indicam expansão, e vice-versa]. Os EUA estão muito bem em produção industrial, assim como Reino Unido e Japão. A União Europeia também voltou a crescer. Mas não sei se os países desenvolvidos fizeram todo o dever de casa. Um sinal disso é a sensibilidade ao possível aumento dos juros nos EUA. A recuperação do setor imobiliário está por trás da melhora americana. O preço dos imóveis e os juros das hipotecas caíram tanto que ficou mais fácil para comprar. O “tapering” [redução da expansão monetária] pode mudar essa realidade dos juros, e já há sinais de queda dos pedidos de hipotecas.
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REBALANCEAMENTO GLOBAL
A China vai se parecer mais com os velhos EUA, e os americanos vão se parecer mais com a velha China. O déficit em conta corrente dos EUA caiu de mais de 6% do PIB em 2006 para menos de 3% agora. O gás de xisto ajuda a explicar isso, já que reduziu as importações de petróleo. Na China, o superávit em conta corrente chegou a ser de 10% do PIB em 2007 e agora é de 3% do PIB. O comércio entre os países sul-sul cresceu muito e já é quase igual ao comércio norte-norte, que está em declínio. A China está entre os principais destinos das exportações dos países mais desenvolvidos do mundo.
DEMOGRAFIA
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A dinâmica da população [número total de trabalhadores em crescimento] é que define onde estão as melhores oportunidades de investimento. Esse dado ajuda muito Índia, indonésia, Nigéria e EUA, entre outros. Se esses países fizerem o necessário para crescer, terão um futuro brilhante. EUA e Nigéria estão fazendo.
BENCHMARK
Durante minha vida, a Coreia do Sul foi o único país que foi de um nível econômico parecido com o da África para algo quase no nível do G7. É o segundo melhor ambiente de negócios do mundo, atrás só de Cingapura. A educação deu um salto. A Índia é o pior dos BRIC em ambiente de negócios. O Brasil é melhor que a Rússia e pior que a China. O Brasil precisa melhorar em volume de investimentos privados. Precisa se tornar mais aberto ao resto do mundo se quiser fazer melhor. Mas suspeito que o futuro do Brasil não é tão triste quanto parece.
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ESTATÍSTICAS
Eu não confio nos dados econômicos de nenhum país. Numa China que está mudando tanto, é mais difícil ainda [avaliar os dados econômicos]. Mas acho que o PIB da China é mais crível que o do Reino Unido, cuja metodologia muda muito. E hoje dá para fazer testes. Se você olhar as exportações da Alemanha para a China, vai poder testar se eles estão manipulando o PIB. A realidade mostra que houve uma transformação em Hamburgo e Munique por causa das exportações para a China.
DÓLAR
Não é tão óbvio para mim que o dólar vai continuar a se valorizar. O Federal Reserve vai olhar para a economia dos EUA e não vai pensar no que pode acontecer no resto do mundo para tomar a decisão sobre os próximos passos. Se o resto do mundo não gostar disso, pode tomar medidas para anular os efeitos [do aperto monetário]. O resto do mundo precisa tomar medidas para reduzir vulnerabilidades e aumentar o comércio. Enquanto continuarem a não fazer isso, vão sofrer as consequências.
EUROPA
Não sei se o euro vai sobreviver como é. Vamos começar a ver o que vai acontecer após as eleições da Alemanha [que acontece em 22 de setembro]. Não acho que será nenhum processo rápido. É importante notar a fragilidade de ter 17 países tão diferentes com uma mesma moeda. Acho que a zona do euro deveria ser uma espécie de Estados Unidos da Europa, com mais flexibilidade para cada um tomar suas decisões. Mas a Alemanha não quer isso. Também é preciso compreender que qualquer país que decida sair do euro vai pagar um preço alto.
*O jornalista João Sandrini viajou a Campos do Jordão a convite da BM&FBovespa