PIB

“O Brasil não pode crescer mais que 2% sem inflação”, diz Persio Arida

Ex-presidente do BNDES e do BC e sócio do BTG Pactual acredita que o PIB potencial teve uma sensível redução nos últimos anos

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(CAMPOS DO JORDÃO*) – O ex-presidente do BC e do BNDES e sócio do BTG Pactual, Persio Arida, acredita que a economia brasileira não pode crescer mais que 2% ao ano sem que isso gere inflação. Durante o congresso da BM&FBovespa que acontece em Campos do Jordão (SP), Arida afirmou que o governo tem que gastar menos, reduzir subsídios a pessoas e empresas e desindexar o salário mínimo para que os juros possam cair de forma sustentável. Isso incentivaria o mercado imobiliário, os investimentos em infraestrutura e as concessões, resolvendo a principal anomalia da economia brasileira, que são os juros altos. Leia a seguir os principais trechos da palestra:

QUADRO ECONÔMICO

A economia está em pleno emprego. A inflação está no topo da banda apesar de isenções fiscais anunciadas para diminuí-la. O superávit da balança comercial está diminuindo. Você acha que esse é um quadro econômico de um país que está crescendo mais ou menos do que pode? A resposta óbvia é que a economia está crescendo mais do que pode. Mas ao mesmo tempo o crescimento econômico é a frustração nacional. O crescimento do PIB potencial é muito mais baixo que o imaginado. Não quer dizer que estamos fadados a um crescimento baixo. Depende das políticas que forem adotadas pelo governo. É preciso uma política fiscal ou monetária mais dura. O Copom está subindo os juros porque a economia brasileira está aquecida demais em relação ao seu potencial.

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Como estamos em pleno emprego, não precisa crescer muito para que o mercado de trabalho fique desequilibrado. O aumento do salário mínimo, indexado à inflação e ao PIB, foi um passo atrás. É socialmente justo e bom porque ajuda as camadas mais pobres da população. Mas o aumento do salário mínimo vira referência para todos os aumentos salariais e da aposentadoria do INSS. O Brasil é um dos poucos países do mundo que dá reajuste real a aposentados. Só que o país fica condenado a choques de salário real, e a Selic precisa subir mais para estabilizar a inflação.

A taxa de desemprego precisa subir para 6,5% a 7%. O mercado de trabalho cresce 1% ao ano. A produtividade está caindo ao longo do tempo. A produtividade capta tudo o que está errado na economia, crédito subsidiado, carga tributária elevada. É resultado de muitas distorções e de economia fechada. O Brasil não pode crescer mais do que 2% ao ano sem pressionar a inflação. Estamos em uma rota de baixo crescimento. Esse número de PIB de hoje [crescimento de 1,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre] é olhar pelo retrovisor.

A GRANDE ANOMALIA

A grande anomalia do mercado financeiro são os juros reais altos e os investidores obcecados por liquidez. É por isso que o crédito imobiliário em relação ao PIB é baixo, entre outras distorções. Todas as política deveriam ser pensadas para que os juros fossem baixos com inflação sob controle. O superávit fiscal deveria ser pensado dessa maneira. A política fiscal é excessivamente expansionista. O que aconteceu no Brasil recente, com a extraordinária expansão de crédito subsidiado, vai na contramão do que estou sugerindo aqui. O crédito subsidiado força os juros a serem mais altos do que deveriam ser. Todos pagamos a conta desse juro mais alto, com subsídios via TJLP, via TR, via FGTS, via crédito subsidiado pelo Tesouro Nacional. Se eliminasse tudo isso, teríamos juros mais baixos e política fiscal melhor. O Brasil precisa de política fiscal contracionista. Hoje é expansionista de maneira equivocada. O governo faz doação ao invés de investimento. É uma caixa de transferência de recursos, cobra de um lado e repassa ao outro.

Não sei quando tem que ajustar o superávit fiscal, mas colocar na direção certa já seria extraordinário. Faria a economia voltar à trajetória de redução permanente dos juros. O Brasil teria um potencial de crescimento muito maior com taxas de juros baixas. É isso que faria Brasil dar um grande salto de crescimento. Infraestrutura, setor imobiliário, concessões, tudo isso avança com juros baixos. O Brasil poderia crescer como outros países da América Latina. A arrecadação tributária é a mais alta de todos os emergentes. Precisamos de um esforço de diminuir gastos. O que me deixa mais triste é que as políticas econômicas como um todo forçam a política monetária a ser contracionista. O ideal seria que todos os fatores dessem espaço para que a política monetária fosse expansionista sem que o BC precisasse agir para conter a inflação. Mas estamos no caminho contrário.

CÂMBIO

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O efeito da desvalorização ainda será sentido e vai ter efeito na economia, vai forçar o BC a subir a taxa de juros. É difícil prever para onde vai o câmbio e é importante lembrar que Fed nem começou o “tapering” [reversão da política monetária frouxa dos últimos cinco anos]. Até agora é só expectativa de aperto monetário. Não sei para quanto podem subir os juros nos EUA, mas a taxa média histórica é de 3% a 3,5%. E tradicionalmente tem “overshooting” [exagero] em momentos de desvalorização cambial.

AGIGANTAMETO DO ESTADO E TRIBUTOS

Para o BC, o que importa é o superávit fiscal. Para a produtividade, importa como o dinheiro é gasto. O problema é que o estado brasileiro está em processo de agigantamento há um bom tempo. O estado brasileiro arrecada muito e arrecada mal. Impostos como de renda ou sobre valor adicionado são bons, mas arrecadação sobre faturamento, como PIS e Cofins, é uma distorção. O gigantismo da carga tributária com contribuições e taxas tem como origem a Constituição de 1988 porque incentivou o governo federal a elevar a cobrança de tributos que não precisam ser divididos com os Estados. Se zerasse PIS e Cofins e aumentasse IR na mesma proporção, seria muito melhor. Subsídio creditício seria bom para a produtividade porque gera pior alocação dos recursos. Da forma como está sendo feita, a desoneração fiscal não gera investimento porque o empresário não sabe quando aquele incentivo vai acabar. Se baixasse impostos em geral e de forma constante, seria muito melhor.

SUBSÍDIOS

Muita transferência de recursos também atrapalha. É meritório em muitos casos, mas cresce num regime contínuo. Isso esvai a capacidade de investimento do estado. Mexer em tudo isso não é simples. Mexer na tributação, em FGTS, FAT, subsídios agrícolas, não é simples. Mas virar o barco em outra direção já daria um sinal positivo e poderia ajudar nos investimentos. Precisa de uma mudança permanente, com aumento de superávit primário. Parece-me cristalino que os juros podem cair. Se desindexar o salário mínimo e tornar a economia mais eficiente, poderia crescer muito mais.

*O jornalista João Sandrini viajou a convite da BM&FBovespa