Política monetária

O BC foi conservador demais ao manter os juros? O que o mercado achou do Copom

Especialistas se dividem entre os que acreditam que o BC deveria já começar a reduzir juros e os que defendem a atitude mais cautelosa

SÃO PAULO – Não surpreendeu ninguém a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa de juros básica da economia brasileira em 6,5% ao ano, anunciada ontem a noite. Essa era a previsão da maioria dos analistas de mercado. O comunicado, porém, trouxe mudanças interessantes.

Um tom mais dovish (aberto a cortes de juros) foi adotado em determinados pontos, o que dividiu os especialistas entre os que consideraram a mudança suficiente e os que vêm o Banco Central conservador demais. 

Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Ratings, faz parte do segundo grupo. Para ele, já existem condições estruturais para reduzir a taxa de juros sem incorrer no risco de deixar a inflação fora de controle. A medida seria extremamente bem vinda para estimular a atividade econômica, visto que o desemprego bate recorde atrás de recorde e a recuperação econômica ainda patina.

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“A inflação subiu em março, abril e maio, elevando a projeção de 3,9% para 4,3% no fim do ano, mas ainda está perto do centro da meta, que é 4,25%”, lembra. Na opinião do economista, a banda tolerável de inflação colocada pelo Banco Central, de 3% a 6% ao ano, existe justamente para acomodar esses choques de curto prazo. 

Já Marcos Mollica, gestor da Opportunity Asset, apontou em seu Twitter oficial que o Copom foi, de fato, mais dovish que o esperado, por introduzir a conjunção concessiva “embora” na seguinte frase: “O Comitê avalia que, embora o risco associado à ociosidade dos fatores de produção tenha se elevado na margem, o balanço de riscos para a inflação mostra-se simétrico”. 

“Finalmente, o BC conseguiu, com uma mudança sutil no comunicado, fazer a curva começar a jogar a favor de afrouxar as condições financeiras”, escreveu o gestor. 

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, ressaltou, em relatório, que o comitê agora vê uma elevação dos riscos por conta da ociosidade dos fatores de produção. “Também foi reiterado que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo do patamar neutro”, destaca o especialista. 

“Alterações no comunicado pós-reunião sugerem que as autoridades estão (corretamente, a nosso ver) menos otimistas quanto ao ritmo de recuperação da atividade econômica. Embora insistindo na necessidade de esperar por mais clareza no fronte de reformas, as autoridades parecem inclinadas a reavaliar a adequação do atual estímulo monetário na economia, caso a atividade não se fortaleça nos próximos meses”, escreveu Mesquita.

O economista-chefe da ACREFi, Nicola Tingas, é da mesma opinião, de que o BC, como guardião da moeda, precisa ser mais conservador. “Um corte de juros poderia criar uma leitura de expectativa favorável, mas o custo do dinheiro não sofreria grande alteração e não é o BC o responsável por fazer a economia voltar a andar. Então a postura está correta em manter onde está pela análise que se faz do ambiente econômico”, comenta. 

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No comunicado, falou-se novamente na importância da continuidade do processo de reformas para reduzir o gasto público, o que seria essencial para manter as expectativas de inflação ancoradas. 

Mesquita entende que após a aprovação da Reforma da Previdência, a trajetória de baixa da inflação tende a prevalecer e os investimentos necessários para a retomada da economia deverão ser destravados, o que possibilitaria um corte de juros. 

Até a última semana, apesar de ter reduzido as expectativas de crescimento do PIB, a maioria dos analistas  esperava que o BC mantivesse os juros até o fim do ano, e elevasse as taxas a partir de 2020. É possível que as novidades no comunicado do Copom provoque mudanças nas projeções.