O “apagão” de 51% em 26 minutos que estremeceu os investimentos da família Trump

Criptomoedas dos Trump perdem bilhões de dólares em valor de mercado e reduzem substancialmente a fortuna acumulada em 2025

Bloomberg

Eric Trump e Donald Trump Jr. durante a conferência Bitcoin 2025 em Las Vegas, Nevada, em maio de 2025. (Foto: Bloomberg)
Eric Trump e Donald Trump Jr. durante a conferência Bitcoin 2025 em Las Vegas, Nevada, em maio de 2025. (Foto: Bloomberg)

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A queda das ações da mineradora de criptomoedas American Bitcoin Corp. na terça-feira (2) foi imediata. Às 9h31 em Wall Street, um minuto após a abertura, os papéis já caíam 33%. Cinco minutos depois, as perdas tinham chegado a 42% e, às 9h56, ultrapassavam 50%.

O movimento foi tão brusco que a American Bitcoin virou rapidamente o símbolo não só do tombo do mercado cripto no fim de 2025, mas também do colapso da série de empreendimentos que a família Trump vem promovendo no setor de moedas digitais ao longo do último ano. Embora o mercado como um todo tenha perdido força nos últimos dois meses — cerca de 25% no caso do Bitcoin —, projetos associados aos Trump recuaram muito mais.

A World Liberty Financial, cofundada pelo presidente Donald Trump e seus filhos, viu o token WLFI cair 51% desde o pico no início de setembro, desempenho pior que o do Bitcoin e do índice de tokens menores. A Alt5 Sigma, empresa promovida pelos filhos de Trump, despencou cerca de 75% enquanto enfrenta um número crescente de problemas legais.

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Há ainda os memecoins com o nome do presidente e da primeira-dama, Melania, que caíram cerca de 90% e 99%, respectivamente, desde as máximas registradas em janeiro. A American Bitcoin, cofundada por Eric Trump, acumula queda de 75% após o tombo de terça. Os papéis subiram 11% no pré-mercado nos EUA na quarta-feira (3).

Esses movimentos reduziram substancialmente a fortuna cripto que a família Trump acumulou no início do ano. Mas também trazem implicações mais amplas para o setor de ativos digitais e para a imagem pública do presidente. A adesão de Trump ao tema ajudou a impulsionar uma série de tokens nos primeiros meses de seu segundo mandato e transformou o preço do Bitcoin em um termômetro de seu sucesso político.

Agora, porém, o que parecia um “prêmio Trump” virou um “peso Trump”, derrubando um dos pilares que sustentavam os criptoativos e mostrando como a confiança nesses mercados especulativos — e até no presidente — pode evaporar rapidamente.

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“A presidência de Trump foi uma faca de dois gumes para a legitimidade”, disse Hilary Allen, professora de Direito na Washington College of Law da American University. “Trump começou a lançar seus próprios projetos de cripto, muitos dos quais perderam valor muito rápido. Se a ideia era conquistar legitimidade por meio da família Trump, isso não ajudou.”

World Liberty Financial e a empresa por trás do memecoin de Trump, Fight Fight Fight, não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.

Embora o presidente tenha reduzido recentemente a promoção pública de cripto, Eric Trump recorreu às redes sociais na terça-feira para atribuir o mau desempenho da American Bitcoin ao fim do período de lockup das ações, e não a uma fraqueza mais ampla.

“Nossos fundamentos são praticamente incomparáveis”, escreveu em um post no X. “Estou 100% comprometido em liderar o setor.”

Para deixar claro, os movimentos bruscos nos ativos ligados à família Trump não são novidade em um setor marcado pela volatilidade. Tokens digitais já sofreram quedas fortes antes, seguidas de recuperações. Na terça-feira, enquanto a American Bitcoin enfrentava dificuldades, o Bitcoin teve um dos melhores dias das últimas semanas, com alta de cerca de 6%.

No início do ano, no entanto, parecia que o apoio de Trump à tecnologia poderia tirar os tokens do ciclo interminável de euforia e queda, tornando-os parte mais estável do sistema financeiro. Se nada mais, muitos investidores cripto acreditavam que Trump teria força suficiente para garantir o sucesso dos projetos que mais lhe interessavam.

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Por um tempo, esse impulso cruzado funcionou. Pessoas que queriam demonstrar apoio ao presidente compravam tokens ligados a Trump e ajudavam a elevar seus preços. As ações da Gryphon Digital subiram 173% quando a empresa anunciou que se fundiria com a American Bitcoin, de Eric Trump, em maio. No primeiro dia de negociação pós-fusão, em setembro, os papéis da American Bitcoin avançaram mais 16%.

Esses projetos também foram favorecidos por políticas e mudanças regulatórias promovidas por Trump, incluindo legislação que buscava trazer stablecoins atreladas ao dólar para o mainstream.

Mas os sinais de desgaste se acumularam. Os memecoins lançados pouco antes da posse, impulsionados por forte promoção do próprio Trump, perderam tração gradualmente, com raros momentos de alívio — como o rali de abril, depois que o presidente ofereceu jantar aos maiores detentores de um dos tokens.

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Joel Li, CEO de um marketplace de veículos elétricos, comprou o memecoin para participar do jantar, mas vendeu logo depois. Ele notou uma piora significativa após Trump anunciar uma nova rodada de tarifas contra a China em outubro.

“As pessoas começaram a perceber que isso talvez não fosse o que imaginavam”, disse Li.

Michael Terpin, investidor de cripto veterano, afirmou que as tarifas serviram como um alerta: “Trump dá e Trump tira.”

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Os problemas, porém, vão além da volatilidade do mercado. A American Bitcoin teve de lidar com um relatório segundo o qual as máquinas de mineração usadas pela empresa, fabricadas por um fornecedor chinês, foram alvo de investigação por risco à segurança nacional dos EUA. Enquanto isso, a Alt5 Sigma — companhia aberta que pretendia comprar um dos tokens emitidos pela World Liberty Financial — enfrentou uma debandada de executivos após anunciar que uma de suas subsidiárias foi alvo de investigação criminal em Ruanda.

A Alt5 Sigma não respondeu aos pedidos de comentário sobre os desdobramentos recentes.

A derrocada desde outubro eliminou mais de US$ 1 bilhão da riqueza que os Trump geraram com seus negócios em cripto e outras atividades. Mesmo assim, segundo o Bloomberg Billionaires Index, eles ainda acumulam ganhos expressivos. Já os investidores de varejo que compraram ativos perto das máximas enfrentam as perdas mais severas.

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Kevin Hu, estudante de 22 anos em Vancouver, montou posição esperando a continuidade do rali, mas viu seu portfólio de tokens digitais cair até 40% em meados de novembro.

“Você pensaria que, com o presidente tão pró-cripto, isso criaria um piso”, disse. “Mas o mercado não reagiu assim. E toda a questão dos memecoins acabou afastando muita gente.”

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