Números comprovam peso do IOF na bolsa, mas impacto não deve durar muito

Tributo reduziu atratividade das ações brasileiras lá fora e dificulta IPOs, embora bons fundamentos devam voltar a prevalecer

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SÃO PAULO – O mercado brasileiro de ações foi um dos que mais aproveitou a melhora no humor e o aumento no apetite por risco dos investidores neste ano. Fundamentos macroeconômicos sólidos e uma moderna plataforma de negociações colocam a Bovespa entre as principais bolsas do mundo.

Os bons números registrados neste ano estão aí para comprovar sua atratividade: as valorizações contabilizadas por seus principais índices estão entre as mais altas do mundo. O mesmo vale para o volume e o número de negócios – isto é, ao menos até outubro.

Embalada pelo clima de superação da crise, a Bovespa encerrou o décimo mês deste ano com recordes históricos nas médias diárias de volume e contratos negociados. Ao todo, o mercado girou R$ 154,25 bilhões em 9.161.252 negócios. As estatísticas eram animadoras e inspiraram otimismo entre muitos analistas e investidores – até que o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) veio como um balde de água fria.

A volta do IOF

Preocupado com a crescente depreciação do dólar frente ao real, o governo reintroduziu em meados de outubro a cobrança do IOF sobre o capital estrangeiro em aplicações de renda fixa e ações, com uma alíquota de 2%. A medida não foi suficiente para afetar o desempenho operacional da bolsa no mês em questão, mas finalmente fez-se notável em novembro.

Na última sexta-feira, a BM&F Bovespa lançou mão das estatísticas registradas no mês passado: o volume caiu para R$ 122,99 bilhões e o número de contratos negociados diminuiu sensivelmente para 7.243.282. A análise da participação de cada segmento de investidor ratifica a percepção de que o IOF foi, de fato, o principal fator responsável pelos números mais fracos da bolsa.

Migração aos ADRs

De 33,7% em outubro, a fatia dos estrangeiros no mercado brasileiro passou a ser de 29,5% em novembro. Para o analista Eduardo Kazuo, da Concórdia Corretora, o IOF “foi decisivo” para o menor apetite externo pelos papéis brasileiros, especialmente para aqueles de companhias que também possuem ações negociadas em Nova York, os ADRs (American Depositary Receipts).

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Os analistas da Link constataram forte migração de negócios das ações negociadas aqui para os papéis em Wall Street, em um fenômeno particularmente marcante no caso da Aracruz, Brasil Foods, Pão de Açúcar, Copel e TIM Participações, entre outras, “claro reflexo do custo de 2% na entrada dos recursos externos no País”.

Para resolver esse quadro, o governo também anunciou a taxação de 1,5% sobre as emissões de DRs. A medida teve pouco efeito, e na visão da Link, trouxe outro fator negativo consigo: o de atrapalhar empresas que estavam cogitando o lançamento de programas de tais papéis lá fora, como a Lupatech.

IPOs prejudicados

A volta do IOF não pesa apenas sobre os planos de lançamento de ADRs em Wall Street; ela dificulta também o ingresso de novas empresas na bolsa, os chamados IPOs (Initial Public Offering, em inglês, ou oferta inicial de ações). Geralmente, tais papéis estreantes são caracterizados justamente por uma carga de risco maior. Acrescidos ainda de 2% de impostos, eles perdem grande parte de sua atratividade aos olhos do investidor estrangeiro.

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Os analistas da Link Corretora destacaram as ofertas de ações da Cetip e Direcional Engenharia como as que mais teriam sido prejudicadas pelo menor interesse externo no mercado brasileiro.

Preocupado com este cenário, Edemir Pinto, presidente da Bovespa, levou ao Ministro da Fazenda, Guido Mantega, a proposta de isenção da cobrança do IOF sobre os IPOs. O governo, no entanto, segue sem posição definida sobre o assunto. Para analistas, o contínuo lobby de diversos setores da economia para que novas medidas sejam tomadas a fim de conter o ingresso de dólares no País faz com que a proposta de Edemir dificilmente seja aprovada.

Enquanto isto, real segue subindo

É claro o impacto da volta do IOF sobre o mercado brasileiro. Mas e seu alvo deliberado, o mercado de câmbio? Na semana posterior ao anúncio do retorno do tributo, feito em 19 de outubro, a moeda norte-americana mostrou uma valorização de 0,17% em relação ao real.

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Mas o efeito não durou muito. O desempenho da divisa no acumulado de novembro foi de queda de 0,34%. Já no começo deste mês, isto é, até a última terça-feira, a valorização mensurada era de modestos 0,23% – deixando a baixa do dólar frente ao real em 25% no ano. Ou seja, a medida foi pouco eficaz também em seu principal objetivo, o de conter a valorização do real.

Analistas argumentam que grande parte do capital estrangeiro que ingressa no País não vem por meio do mercado de ações nem de carteiras de renda fixa, mas sim para investimentos de longo prazo, notadamente os relacionados à melhora da infraestrutura. Outros criticam a postura do governo, que por um lado, pressiona as agências de risco a concederem o investment grade ao Brasil e, por outro, passam a taxar o capital externo.

Apenas uma questão de tempo

Assim como no mercado de câmbio, analistas acreditam que o efeito do IOF sobre o apetite externo pelos papéis brasileiros também não deva durar muito. “O estrangeiro é assim mesmo: pisa no freio ao ver uma medida que pode prejudicar e espera; depois ele volta”, afirma Alex Agostini, da Austin Rating.

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Na visão de Eduardo Kazuo, o menor interesse de fora pelo mercado brasileiro também pode ter sido ocasionado por um movimento de correção. “Nossa bolsa não está barata. O imposto foi um pretexto para que os investidores estrangeiros ajustassem suas posições”, opina o analista da Concórdia.

Em entrevista à InfoMoney TV na última segunda-feira, Fausto Gouveia, economista-chefe da Legan Asset, também mostrou-se otimista. “Frente à capacidade mostrada pelo Brasil de superação da crise, a tributação torna-se pequena. O ano de 2010 tem tudo para ser muito bom, então o IOF passa a ser uma questão secundária”, afirma.

O brasileiro cada vez mais na bolsa

Se as estatísticas de novembro revelam um impacto do IOF sobre a participação do investidor estrangeiro na bolsa brasileira, em contrapartida, elas também mostram um maior peso dos investidores nacionais pessoas físicas, que embora tenha caído de 30,53% em outubro para 30,28% em novembro, passaram a ocupar a liderança das estatísticas.

O consenso entre analistas é de que o brasileiro vem investindo cada vez mais na bolsa, atraído pelas boas taxas de rentabilidade frente às registradas por outras aplicações e motivado pelo maior acesso à informação, que contribui para a desmistificação do mercado de ações como algo complexo e difícil.

Eduardo Kazuo é um desses otimistas. Para ele, o investidor pessoa física tende a apostar cada vez mais na bolsa, inspirado também pelos desempenhos postados pelas grandes companhias brasileiras. Outro fator que estimula o brasileiro a “perder o medo” da bolsa é o bom momento vivido pela economia do País, afirma Agostini.