Novo estímulo à economia dos EUA é “obrigação”, mas pode agravar crise

Economista acredita que atual turbulência na economia norte-americana pode até ser pior do que a crise financeira de 2008

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SÃO PAULO – Desde o final de 2008 os Estados Unidos têm tentado estimular a economia comprando seus títulos de dívida, através do Federal Reserve, injetando liquidez no mercado por meio de uma ferramenta de política monetária chamada Quantative Easing. Depois de dois programas de flexibilização quantitativa, a maior economia mundial ainda vê a sua taxa de desemprego em 9,1%, historicamente alto para o país. Com isso, parte das economias globais se vê ameaçada pelo fraco ritmo da atividade norte-americana. Seria um novo programa de estímulos necessário?

A resposta, para parte do mercado, é que sim. Ivanor Torres, da Geral Investimentos, acredita que isso é uma obrigação daquele governo, após as fortes quedas das bolsas na última quinta-feira (4), que evidenciaram o nervosismo e o medo dos investidores acerca da possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão.

Obrigação de acalmar os mercados
Contudo, o impasse político norte-americano referente ao aumento do teto da dívida foi mais severo do que pareceu. “O governo está fragilizado financeiramente, mas tem que injetar liquidez nos mercados, só que não tem dinheiro para isso”, diz Torres. E sem a recuperação da economia, o risco de um calote dos Estados Unidos aumenta, já que a relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto) não tem demonstrado melhora, com a primeira crescendo muito mais rápido que a segunda.

Há também um grande déficit na balança comercial da maior economia mundial, que tem de ser equilibrado para que a situação se normalize. “O déficit comercial tem que ser trabalhado, estimulando as exportações”, lembra Torres, ressaltando que com o prospecto de uma recessão, a situação fica ainda mais complicada, já que ela pode agravar o rombo governamental.

Um estímulo, portanto, seria obrigatório para o analista. “No mínimo, tem que sinalizar isso, não tem saída. O mercado está inseguro e isso dá mais segurança a ele”, completa. “Há uma crise de confiança também. Alguns investidores têm deixado o dinheiro parado, mesmo milhões de reais”, lembrou Antonio César Amarante, economista da Sensor Corretora.

Crise preocupa
Contudo, um programa de estímulos poderia ser até danoso para a economia mundial, fragilizada por conta da elevação da relação dívida/PIB em vários países, tanto na Europa quanto Estados Unidos. Além disso, programas como esses são custosos: só o QE2, a segunda rodada de flexibilização quantitativa norte-americana, custou US$ 600 bilhões ao Fed.

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Além disso, parte dos economistas duvida que esses programas têm funcionado, ou que são soluções de longo prazo. “Os estímulos não resolveriam os problemas. Eles estariam cobrindo o sol com a peneira e o problema é muito maior que isso, eles só têm tentado ajudar o mercado artificialmente”, diz Amarante.

O grande déficit fiscal norte-americano também preocupa o mercado – já que a quantidade devida pelo país só aumentará conforme o orçamento norte-americano for deficitário. Torres acredita que tem de ser feito alguma coisa a respeito para equilibrar o orçamento, reduzindo custos e aumentando impostos.

O grande risco, porém, é de que isso acabe por agravar a situação da economia mundial, severamente afetada por essa situação. Amarante lembra que dificilmente um estímulo resolveria o problema. “E isso vai explodir lá na frente”, diz o economista.

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O poder destrutivo da crise de 2008 também parece fraco perto da crise que está por vir, lembra Amarente. “2008 foi causada com títulos privados. E hoje ela atinge os bancos centrais, todos os governos estão altamente endividados. E agora você tem dinheiro público na crise, junto com o dinheiro privado”, completa.

Além disso, conforme os governos se endividam, a situação só piora, já que não há entidade – pública ou privada – que tenha o poder de resgatar os Estados Unidos, caso o país precise disso. Amarante enfatiza esse problema, “agora existe uma preocupação muito grande, pois quem vai ajudar quem?”. Torres é menos sombrio em sua visão, mas também acredita que exista uma bolha se formando no longo prazo. Não importa a solução, uma saída precisa ser encontrada para esse problema, e breve.