Nova ferramenta discutida pelo Fed pode ter impacto contrário no dólar

Sendo utilizada como alternativa à elevação do juros, nova arma do Fed poderia amenizar a disparada do dólar ao tirar a atratividade dos Treasuries dos EUA

Publicidade

SÃO PAULO – Se a ata do Fomc não trouxe novidades em relação ao início da retirada do Quantitative Easing 3 nos EUA – o programa de injeção de até US$ 85 bilhões mensais por meio da compra de títulos públicos -, as discussões sobre uma nova ferramenta para reduzir a liquidez chamou a atenção do mercado. Segundo especialistas, essa nova arma, que poderia ser usada como alternativa à elevação dos juros, pode ter impacto exatamente contrário no câmbio – já que a alta nas taxas de juros naturalmente atrairia dólares para os EUA, apreciando-a em relação às outras divisas.

Divulgada na última quarta-feira (21), a ata da última reunião do Fomc apresentou um mecanismo que criaria uma linha com taxa prefixada para recompras reversas de títulos e que ajudaria a controlar as taxas de juros no país. O economista-chefe da XP Investimentos, Daniel Cunha, explica que uma das preocupações do governo dos EUA está em evitar a alta de juros no país durante a redução do QE3, e que até o momento eles não tem conseguido segurar esse movimento – visto que o rendimento dos “treasuries” norte-americanos com vencimento em 10 anos mais que dobraram nos últimos meses.

Com essa ferramenta, o Fed venderia títulos do Tesouro para um operador primário do país ou um grande fundo e recompraria esse título no dia seguinte. Com isso, o governo consegue retirar, mesmo que por um curto período, o dinheiro do sistema bancário, enquanto o comprador do título recebe os juros sobre a transação. Esse instrumento ajuda a retirar o excesso de dinheiro do mercado e mantém as taxas de juros de curto prazo em queda.

Alternativa à elevação dos juros
Os integrantes do Fed se mostraram interessados na ferramenta, acreditando que ela pode ser útil durante o processo de retirada do QE3, aponta a ata. De acordo com o documento, essa linha permite ao Fed oferecer um instrumento livre de risco para uma “ampla gama de participantes do mercado”, facilitando a entrada de novos agentes no programa além dos fundos tradicionais e das corretoras de títulos.

Para Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação Austin Rating, esse mecanismo ajuda na medida em que o governo consegue controlar as taxas de juros sem intervir no mercado. O economista da agência brasileira explica que os EUA realizaram diversas medidas para conseguirem colocar alguns indicadores no curso que queriam, como por exemplo a taxa de desemprego.

Com a ferramenta, seria possível começar a redução do QE3 sem interferir na taxa de juros, evitando assim, qualquer mudança nesse cenário de crescimento da economia do país. Mesmo com a possibilidade, o Federal Reserve ainda não deu nenhuma indicação sobre quando poderia começar a utilizar essa ferramenta.

Continua depois da publicidade

Impacto adverso no câmbio
Agostini explica que a ideia da ferramenta está em evitar grandes mudanças no mercado, facilitando ainda mais esse cenário onde US$ 85 bilhões deixarão de ser injetados gradualmente na economia norte-americana mensalmente. “Os investidores estão muito agitados com a proximidade do fim do QE3 e um programa como esse poderia ajudar a trazer tranquilidade para o mercado”, explica o economista.

Uma das consequências dessa linha de recompra de títulos poderia ser no mercado cambial, que já vem sofrendo com a disparada do dólar em relação a diversas moedas – entre elas o real. Tentando prever o momento da redução do QE3 e a consequente elevação dos juros norte-americanos, os investidores têm migrado seus investimentos dos mercados emergentes para os títulos do governo dos EUA. Isso diminui a disponibilidade de dólares por aqui e eleva a cotação da divisa frente ao real. 

Cunha explica que esse movimento de alta dos Treasuries norte-americanos é um sinal não só de que os investidores estão buscando ativos seguros, mas que eles já precificam uma alta dos juros nos EUA. Atualmente, o “yield” (rendimento) destes títulos está em 2,89%, bem acima dos 1,7% vistos na metade de maio, época da penúltima reunião do Fed. Com esse controle das taxas, os títulos perderiam a atratividade e diminuiria esse fluxo de investidores, explica o economista.


Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.