Nova bolsa no País não é impossível, mas com atual liquidez, é improvável

Para analistas, concorrente para a BM&F Bovespa esbarraria não só em pesados investimentos, mas no tamanho do mercado

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SÃO PAULO – Apesar de não ser algo impossível, a abertura de uma bolsa concorrente à BM&F Bovespa no mercado brasileiro também não é tão simples como pode parecer – e definitivamente não é algo para o curto prazo. Essa é, de modo geral, a avaliação dos analistas sobre a notícia de que investidores internacionais, como o Deutsche Bank, estariam se articulando para montar uma nova bolsa no País.

Pedro Galdi, da SLW, e Salomão Santos, da iCash, ressaltam diversos problemas e perguntas no caminho de uma nova bolsa. Primeiramente, ambos lembram que a abertura de uma nova bolsa no Brasil não se daria da noite para o dia. “Não é bem como abrir uma sorveteria”, brinca Santos.

Uma bolsa de valores tem que ter não somente uma pesada plataforma de tecnologia por trás, mas também uma estrutura muito forte de atendimento aos clientes. Caso contrário, a possibilidade de problemas é enorme, diz Galdi. A questão da regulamentação também é complicada, segundo o analista.

“Seria necessário um volume muito grande de tecnologia e investimentos para montar uma bolsa por aqui”, avalia Santos. Para ele, simplesmente oferecer custos melhores do que os da atual operadora não justificam um novo player nesse mercado. “Tem que oferecer uma tecnologia melhor, plataformas melhores do que a BM&F Bovespa oferece hoje para conseguir atrair empresas, corretoras e investidores”, aponta.

No mesmo sentido, a Fator Corretora destacou, em relatório, que os investimentos da própria BM&F Bovespa já são bastante elevados. “O capex estimado em 2010 para a BM&F Bovespa pode chegar a R$ 272 milhões, e para 2011, o investimento projetado está entre R$ 235 milhões e R$ 255 milhões”.

Barreiras
Um analista que não quis se identificar também falou sobre o assunto à InfoMoney, destacando que no Brasil, mais do que só operações da bolsa, um novo entrante teria que lidar também com toda a parte de custódia e liquidação dos ativos.

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“Ela pode fazer toda a estrutura, incluindo uma clearing, ou pode comprar o serviço da própria bolsa. Nos EUA há diversas bolsas, mas com uma regulamentação diferente, voce pode ter uma bolsa que faz só a negociação, e não o clearing. Aqui não é bem assim que funciona em termos de legislação”, diz o analista.

Em relatório, a Fator também mencionou a questão da diferença dos mercados internacionais, indicando que, se forem considerados os custos de toda a cadeia, o argumento de que as operações na BM&F Bovespa são caras não é tão válido assim.

Segundo a Fator, a bolsa brasileira atua sob o modelo de negócios integrado, incluindo as negociações, as clearings, a contra parte central, a central depositária e os empréstimos de ações. “Cabe às corretoras brasileiras apenas a atividade de intermediação, enquanto nos EUA, por exemplo, apenas a negociação ocorre no ambiente da bolsa de valores e ficam a cargo das corretoras as outras atribuições”, completa a corretora.

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“Se forem somados os custos totais das operações, nota-se um valor menos elevado no Brasil do que em outros países”, escreve a Fator, destacando ainda que em abril de 2009 a bolsa brasileira revisou sua política de tarifas de seus serviços e produtos e em novembro de 2010 implementou tarifas diferenciadas para investidores de alta frequência – ou seja, já se tornando mais competitiva.

“Sob a regulação em vigor, potenciais competidores seriam obrigados a prover solução integrada, com o mesmo nível de regras e transparência. A nova bolsa teria que estar disposta a fazer elevados investimentos para se adaptar aos requisitos da Instrução 461 da CVM”, afirma a Fator em relatório.

Além disso, a transparência e a credibilidade da nova instituição também teriam que competir com a atual operadora da bolsa, que já conquistou seu espaço no mercado depois de anos de operação. “As empresas listadas na Bovespa estariam interessadas nessa nova bolsa? E a credibilidade delas se algo desse errado?”, frisa Santos.

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Santos aponta que uma bolsa segmentada, aos moldes da Nasdaq, por exemplo, até seria possível – mas a pergunta sobre o interesse das empresas em sair da BM&F Bovespa ou ter seus papéis negociados em duas bolsas paralelas, e mesmo de qual setor seria grande o suficiente para justificar uma nova bolsa, permanece.

O tamanho do mercado
Ainda mais importante do que o interesse dos investidores, corretoras e empresas, é saber se o mercado brasileiro comportaria a criação de uma segunda bolsa de valores. Em outras palavras, há tamanho – e liquidez – para uma bolsa paralela?

Na visão de Galdi e Santos, não. Para eles, o atual tamanho do mercado acionário brasileiro não abre espaço para um concorrente à BM&F Bovespa. “O mercado interno não parece demonstrar mais espaço para uma nova bolsa, não neste momento, pois a Bovespa já nos supre muito bem e ainda com folga”, ressalta Santos.

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Ele estima que seria necessário que a atual liquidez da BM&F Bovespa dobrasse de tamanho para que fosse criada uma concorrente. O diretor de operações da iCash lembra ainda que bolsas em outros estados e acabaram fechando pela diminuição de liquidez e a falta de propósito – caso, por exemplo, da bolsa de valores carioca.

“Uma bolsa nova não entraria roubando 50% de mercado, mas supondo que isso acontecesse, seria um giro financeiro de cerca de R$ 3 bilhões. Em termos de volume, é pouco, então às vezes não vale a pena o investimento”, exemplificou um analista que pediu para não ser identificado.

Não é impossível
Apesar disso, o potencial de crescimento do mercado de capitais brasileiro é um dos fatores que poderiam justificar, no futuro, a criação de uma nova bolsa de valores no País. A visão geral é que isso deve realmente acontecer em algum momento, como algo natural do amadurecimento do mercado. Galdi, por exemplo, estima que o prazo possível para isso seja entre cinco e oito anos – período semelhante ao projetado por Santos, de seis a dez.

“Mas é realmente preciso mais do que dinheiro, é necessário montar algo que surpreenda o mercado, com tudo o que a Bovespa tem e muito mais, capaz de atrair grandes investidores tanto no exterior quanto aqui no País.”, explica Salomão Santos.