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Entrevista: Santos-Brasil quer aumentar rentabilidade em 2008 e mira novos portos

Executivo mostra interesse em atuar em outros portos no Brasil; empresa lucra R$ 93 milhões em 2007 com 52% de market share

Contêineres container conteiner porto carga
(Shutterstock)

SÃO PAULO - A operadora do maior terminal de contêineres do Porto de Santos, Santos-Brasil (STBP11), comemorou a reversão do prejuízo de 2006 no ano passado com um guidance atrativo. "Para 2008 esperamos uma melhoria significativa na rentabilidade", explicou em entrevista à InfoMoney Marcos Tourinho, diretor adjunto de Relações com Investidores da empresa.

Dentre outras coisas, o executivo falou sobre o novo foco da empresa, que almeja atuar em novos portos pela costa brasileira. A empresa registrou um lucro líquido de R$ 92,6 milhões no acumulado de 2007, revertendo o prejuízo de R$ 98,6 milhões do exercício de 2006. Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

InfoMoney - Qual vem sendo o impacto nas exportações brasileiras com a crise financeira nos EUA?

Marcos Tourinho - Há uma mudança no padrão de crescimento das exportações e das importações desde agosto e setembro do ano passado. No primeiro semestre de 2007, as exportações foram fortes, do ponto de vista de volume de contêineres da Santos-Brasil.

A partir de julho e agosto começamos a ver uma inversão da tendência. Com importações crescendo mais que as exportações. No último trimestre do ano, culminou numa estabilidade das exportações e as importações cresceram mais de 30%. Em janeiro está acontecendo a mesma coisa.

O impacto da crise financeira tem dois fatores: o primeiro é a taxa de câmbio brasileira, ou seja, o real apreciado. E o outro é quanto que a desaceleração norte-americana pode estar estimulando as exportações dos EUA para o Brasil.

Mas o preponderante é a taxa de câmbio brasileira: desfavorável para as exportações e favorável para as importações.

'' Ainda temos espaço para crescer dado que somos o único canal do lado do Guarujá e nossos concorrentes ficam em Santos''

IM - O setor de armazenagem e serviços da empresa tem forte potencial?

Tourinho - Nosso negócio de armazenagem está entre 20% e 25% da receita e ele é muito lucrativo. Nós não armazenamos o contêiner cheio para exportação, porque este entra no nosso pátio e sai no intervalo de uma semana, sem pagar nada.

Mas o contêiner cheio para importação fica mais tempo e, a partir do segundo dia, já estamos cobrando a armazenagem. Ganhamos com o aumento de volume e no mix de contêineres cheios com contêineres vazios. Quando tem muito contêiner cheio de importação entrando no País, não precisamos trazer o contêiner vazio de volta.

No terceiro trimestre estávamos com um mix de 74% de contêineres cheios e 26% de contêineres vazios. Agora no quarto trimestre a relação aumentou para 78% contêineres cheios contra 22% de contêineres vazios, em função do aumento das importações. Isso é bom porque cobramos duas vezes mais para o contêiner cheio em comparação com o contêiner vazio.

IM - Quais os efeitos até o momento da aquisição da Mesquita Transportes e Serviços? Fazem parte dos planos da Santos-Brasil outras fusões e aquisições?

Marcos Tourinho, diretor adjunto de RI da Santos-Brasil

Tourinho - A Mesquita foi um negócio que trouxe sinergias tanto no lado de custos como no lado de receitas. Ela é especializada em armazenagem alfandegada e faz logística para grandes clientes em cima de contêineres. Ela pega o contêiner do porto e leva até o chão da fábrica do cliente e vice-e-versa.

Fazem parte dos planos da empresa outras aquisições, mas não na área de logística. Porque para este segmento específico a Mesquita é suficiente para complementar o serviço de porto (embarque, desembarque e armazenagem) que já prestávamos.

Tínhamos muitos clientes médios e grandes que já pediam a logística inteira. E isso era feito em pequena escala. Mas agora vamos oferecer isso em larga escala.

IM - A Santos-Brasil almeja atuar em outros portos a não ser o Porto de Santos?

''A Mesquita foi um negócio que trouxe sinergias tanto no lado de custos como no lado de receitas''

Agora o plano de expansão é em cima de porto. Estamos procurando oportunidades para comprar novos portos ao longo da costa brasileira, para participar de novas concessões de portos que tendem a ocorrer.

A empresa tem interesse em atuar em outros portos e não apenas no Porto de Santos e continuar de olho em toda a oportunidade de crescimento no Porto de Santos, porque é lá onde teremos a maior rentabilidade de sinergia.

IM - Qual a relação entre o avanço do volume de carga movimentada pela Santos-Brasil e o crescimento que circula no Porto de Santos? E quais são as perspectivas?

Tourinho - Em 2007 o porto cresceu aproximadamente 7% em contêineres e a Santos-Brasil cresceu 13,2%, quase o dobro. Estamos investindo pesado em aumento da capacidade e da produtividade do nosso terminal. O ano passado nós investimos R$ 130 milhões e esse ano estamos prevendo investir R$ 237 milhões.

Ainda temos espaço para crescimento, dado que somos o único canal do lado do Guarujá e nossos três concorrentes ficam em Santos. Como a cidade espreme as operações, eles não têm mais espaço físico para crescer. Tudo isso nos leva a capturar boa parte do market share do porto. Fechamos 2007 com 52% de market share.

Em 2002 tínhamos 34% de market share. De acordo com nosso guidance, prevemos uma movimentação de 900 mil contêineres da Santos-Brasil em 2008, uma expansão de 8,6% em relação aos 828 mil contêineres movimentados em 2007.

IM - No ano passado, a companhia reverteu o prejuízo registrado em 2006. Como o sr. avalia o resultado?

Tourinho - O resultado de 2006 está um pouco contagiado. Todo o prejuízo foi decorrente das despesas não-recorrentes da abertura de capital. Em 2007, tivemos um lucro líquido de R$ 93 milhões, o que consideramos muito positivo, dado que houve uma significativa desvalorização do dólar e 70% da nossa receita é em dólar.

O lucro obtido representa uma margem líquida de 19%. Para 2008 esperamos uma melhoria significativa na rentabilidade em função de termos conseguido reaver o que perdemos com a desvalorização do dólar e protegemos nossa receita com operações de hedge.

A margem Ebitda (geração operacional de caixa sobre receita líquida) foi de 40% em 2007 e o guidance para este ano é de 45%.

''Existe a possibilidade de realizarmos novas emissões, mas vai depender do sucesso da nossa estratégia de expansão''

IM - Até o momento, o sr. está satisfeito com o trabalho da nova Secretaria dos Portos, lançada em maio?

Tourinho - Sem dúvida. A iniciativa de conseguir uma licença ambiental para poder aumentar o calado (distância entre a água e a face inferior da quilha) do Porto de Santos de 13 metros para 15 metros, possibilitando a vinda de navios maiores, foi uma medida muito benéfica para o setor e para o comércio exterior do País.

Acreditamos que esse projeto vai sair do papel. A Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo) vai conseguir a licença ambiental. Estamos contando com esse calado maior ainda em 2009, que vai permitir a movimentação de volumes maiores para o porto. É um projeto fundamental para o crescimento do Porto de Santos a médio e longo prazo.

IM - Em 2007, as units da Santos Brasil acumularam perdas de 1,85%. A que o sr. atribui tal desempenho?

Tourinho - Com a turbulência e as perspectivas de recessão norte-americana, a performance das units da Santos-Brasil, se comparadas com outras empresas do setor de logística de portos, foi até razoável. Ainda que muito abaixo das nossas expectativas.

O mercado está privilegiando as large caps com alta liquidez nos papéis, pois se a crise aprofundar você tem uma possibilidade de saída mais rápida. As small caps e empresas que recentemente fizeram IPOs têm baixa liquidez em razão do reduzido free float, como é nosso caso que temos no mercado apenas US$ 450 milhões.

O que está prejudicando muito a vida das pequenas empresas é a liquidez. Existe a possibilidade de realizarmos novas emissões, mas vai depender do sucesso da nossa estratégia de expansão. É a única maneira que vemos a médio e longo prazo para aumentar substancialmente o free float e conseqüentemente a liquidez.

Estamos otimistas, mas não dá para adiantar nenhum plano.

 

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