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Líderes mundiais fecham o cerco por queimadas na Amazônia: quais os impactos para o Brasil?

O modo como o governo Bolsonaro vai atuar em meio à essa crise pode, inclusive, trazer consequências importantes para a economia nacional  

Amazônia
(MÁCIO FERREIRA / AG. PARÁ/FotosPúblicas)

*atualizado às 21h

SÃO PAULO - O Brasil está chamando a atenção dos maiores líderes internacionais - e não é por bons motivos.

As queimadas da Amazônia ganham uma repercussão internacional cada vez maior e, embora não se possa responsabilizar totalmente o atual governo, as declarações de Jair Bolsonaro (como acusações a ONGs pelas queimadas e críticas a líderes mundiais) têm gerado críticas contundentes tanto dentro quanto fora das fronteiras nacionais.

O modo como o governo vai atuar em meio a essa crise pode, inclusive, trazer consequências importantes para a economia brasileira. 

As polêmicas começaram a ganhar força um mês atrás, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou dados preliminares de satélites do Inpe mostrando que mais de 1.000 km² de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena deste mês, aumento de 68% em relação a julho de 2018.

Bolsonaro reagiu aos dados, apontando como "não verdadeiros" e exonerou o então diretor, Ricardo Galvão. 

O assunto voltou à tona quando, na segunda-feira, diversas regiões de São Paulo viram o dia virar noite por conta de uma combinação da chegada de uma frente fria e incêndios no Pantanal. Publicações internacionais voltaram a destacar a situação preocupante sobre a preservação das matas brasileiras. 

Sobre o assunto, a revista britânica The Economist publicou uma matéria em que afirmou: "durante a estação seca da Amazônia, é comum os agricultores colocarem fogo ilegalmente para limpar a terra. O presidente populista do Brasil, Jair Bolsonaro, os encorajou, enfraquecendo as agências que reforçam os regulamentos ambientais. Ele acredita que proteger a floresta impede o desenvolvimento econômico. Quando perguntado sobre os incêndios, ele respondeu ridiculamente acusando ONGs ambientais de colocarem fogo para afetar a imagem do seu governo em retaliação por seus cortes em seu financiamento." E a publicação é apenas um exemplo em meio a toda a repercussão internacional do caso.

Com essas questões no radar, representantes do agronegócio já começaram a expressar preocupação diante de ameaças de boicotes aos produtos brasileiros, em um cenário em que cada vez mais a questão ambiental vem sendo pautada como importante para os acordos comerciais. 

E foi no fim da tarde da última quinta-feira (22) que a discussão ganhou maiores contornos, com consequências diretas sobre a economia brasileira. Emmanuel Macron, presidente da França, manifestou em tuíte que quer que o G-7 (grupo formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) discuta, na reunião do próximo fim de semana, a questão ambiental brasileira, sendo seguido por diversos outros líderes internacionais. 

No mesmo dia, Bolsonaro reagiu às declarações em live no Facebook, afirmando que alguns países usam os incêndios para tentar prejudicar o agronegócio no Brasil e apontando que problemas decorrentes dos incêndios podem prejudicar a todos no País. "Nossa economia está escorada nas commodities. Se o mundo resolver nos retaliar, e a nossa economia bagunçar, todo mundo, inclusive vocês, repórteres, vai sofrer as consequências", afirmou, criticando a cobertura da imprensa nacional sobre o assunto. 

Nesta manhã, Macron elevou o tom, ao retirar o apoio do seu país ao acordo econômico entre União Europeia e Mercosul, e afirmou que Bolsonaro “mentiu” em seu discurso no G20 de Osaka sobre as ações que sua gestão vinha fazendo para preservar a Amazônia. 

O acordo, assinado em julho deste ano, foi bastante celebrado pelo governo brasileiro, com a expectativa de um aumento de R$ 500 bilhões do PIB nacionais em 10 anos por conta dos tratados de livre comércio em segmentos como alimentícios e de produção automobilística. 

"Ao não dar a devida atenção ao desmatamento da Amazônia, o governo põe em risco esse acordo comercial, que havia sido uma de suas maiores conquistas na área econômica até agora. Vale observar que esse acordo enfrentou resistências de setores protecionistas na Europa, inclusive de agricultores franceses. Ao não fazer nossa lição de casa, estamos dando o pretexto que os lobbies protecionistas a serviço desses setores precisam para tentar frustrar esse acordo que pode trazer grandes benefícios para o Brasil. Não deveríamos dar a menor brecha para que isso acontecesse", destacou, em entrevista ao InfoMoney, Eduardo Felipe Matias, responsável pela área empresarial do escritório Nogueira, Elias, Laskowski e Matias Advogados (NELM).

Vale destacar que, na quinta-feira, logo após o tuíte de Macron bastante crítico ao governo brasileiro, as ações da JBS (JBSS3), considerada uma das beneficiadas pelo histórico acordo, tiveram forte reação e viraram para queda no fim do pregão (como pode ser visto no gráfico da Bloomberg abaixo). Os efeitos ainda não foram medidos com exatidão pelo mercado, mas os investidores acabam repercutindo negativamente essas notícias, ainda mais levando em conta o forte desempenho dos papéis registrado durante o ano. Além de JBS, outros papéis de empresas do setor de carnes e de autopeças, que se beneficiam do acordo, podem ser afetados. 

Assim, os investidores devem ficar de olho nos desdobramentos da crise na Amazônia nos acordos comerciais e na imagem do Brasil perante o mundo. Além da reunião do G-7, as medidas a serem anunciadas pelo governo para buscar reverter esse problema serão acompanhadas pelo mercado e pela imprensa internacional. 

Nesta linha, Bolsonaro fez  um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV na noite desta sexta para falar sobre as queimadas que ocorrem na Amazônia. 

Bolsonaro adotou um tom mais moderado e disse incêndios florestais acontecem em todo o mundo e não podem ser pretexto para possíveis sanções internacionais. "Seguimos abertos ao diálogo com base no respeito e cientes da nossa soberania." 

Segundo Eduardo Felipe Matias, o governo precisa se apressar para dar a sinalização de que, alinhado às melhores práticas mundiais e aos setores mais avançados da nossa própria economia, "não tolerará a exploração desenfreada e insustentável daquele que talvez seja o maior patrimônio nacional". 

A questão ambiental ganha contornos cada vez mais dramáticos - e o Brasil precisa agir rápido para conter os danos.

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