Em mercados

O Banco Central enfim vai se render à inflação baixa e cortar os juros?

Investidores tiveram mais uma surpresa com IPCA abaixo do esperado, mas economistas ainda veem o BC cauteloso - e à espera da Previdência - para cortar a Selic

Roberto Campos Neto
(Pedro França/Agência Senado)

SÃO PAULO - Muitos investidores que já estavam apostando em um corte de juros pelo Banco Central nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), encontraram mais dois motivos para que isso aconteça. 

Referência da autoridade monetária para a inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) veio mais uma vez abaixo do esperado pelos economistas, com alta de 0,13% frente a abril e no menor resultado para o mês desde 2006, com quatro dos nove grupos monitorados registrando deflação.

Soma-se a isso os dados de emprego bem abaixo do esperado da economia dos EUA, reforçando as indicações de corte de juros pelo Federal Reserve, o que geraria maior tranquilidade para que o BC brasileiro cortasse a Selic, atualmente em 6,5% ao ano.

Com isso, a precificação embutida na curva de juros já acumula, até o final do ano, uma redução de mais de 25 pontos percentuais, com o corte já parcialmente precificado para o período entre setembro e outubro, de acordo com informações da Bloomberg.

Porém, para economistas consultados pelo InfoMoney, não há indicações de que a autoridade monetária vai abandonar o seu discurso e finalmente ceder aos apelos dos agentes do mercado, promovendo cortes na Selic nos próximos meses.

O discurso de cautela, serenidade e perseverança, adotado por Ilan Goldfajn, ainda dá a tônica do atual presidente do BC, Roberto Campos Neto - e isso deve continuar. 

"Por mais que a inflação tenha desacelerado, não vai mudar a forma de pensar das autoridades do BC", avalia Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina, que não vê alterações no curto prazo para o discurso de Campos Neto até que haja um maior avanço na agenda de reformas brasileira. 

Na mesma linha, Alex Agostini, economista-chefe da Austing Rating, destacou em entrevista à Bloomberg que o presidente do BC não deve voltar do Japão, onde está para o encontro do G-20, com uma opinião mudada a ponto de dar um sinal de alívio monetário já em julho. 

"Quando você está na cadeira do BC, as convicções são outras, parte para o lado do conservadorismo. Essa rigidez faz parte da cultura da política monetária no Brasil”, destacou o economista.

Porém, se a reforma da Previdência for aprovada no plenário da Câmara antes de um encontro do Copom, Agostini acredita que o discurso pode mudar e o alívio poderia vir já no fim da reunião seguinte à aprovação.

Vale destacar que Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, indicou que deve pautar a proposta no plenário da Casa só na primeira quinzena de julho, antes do recesso legislativo, que começa no dia 18, o que poderia impactar a decisão de política monetária do dia 31 de julho.

Já Patricia avalia que, mesmo que a Câmara aprove a reforma da Previdência, ela deve acontecer apenas entre o fim do terceiro trimestre e o começo do quarto trimestre - e não deve levar a um corte de juros pelo Copom. 

"O BC deve manter a Selic em 6,5% até que a reforma da Previdência seja aprovada nas duas casas legislativas, tanto na Câmara quanto no Senado", afirma a economista, lembrando as sinalizações do próprio presidente do BC sobre não trocar o crescimento de longo prazo por inflação no futuro.

Assim, ela avalia que pode haver sim uma redução nos juros, mas de forma contida, para 6,25% no final do ano e possivelmente só em uma das duas últimas reuniões (que ocorrem no final de outubro e em meados de dezembro). 

Tudo caminha para corte de juros, mas...

Enquanto isso, as condições para o corte de juros aparecem cada vez mais pavimentadas por demais fatores além da inflação, como a atividade econômica cada vez mais fraca. 

Nesta sexta-feira, a equipe econômica do Bradesco revisou sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 de 1,1% para 0,8%, cortando a estimativa do IPCA para o ano de 4% para 3,8% e, para 2020, de 3,9% para 3,8%. Com isso, o banco projeta uma redução da Selic para 5,75% neste ano. 

“É justamente isso que ajuda a produzir uma aceleração do PIB e da inflação em 2019 e 2020”, comentam os economistas do banco. Sem o estímulo monetário, o Bradesco projeta a inflação de 2020 em 3,5%, ou 0,5 ponto percentual abaixo da meta de 4%. 

Para o Goldman Sachs, o grande hiato negativo do produto, o alto nível de ociosidade no mercado de trabalho e as perspectivas contidas para o crescimento do PIB real no curto prazo devem contribuir para manter a inflação bem ancorada. 

"Neste cenário, assumindo um real bem ancorado e sem uma grande deterioração do cenário externo frente às economias emergentes, esperamos que o Banco Central deixe a taxa de juros inalterada em 6,50% na próxima reunião do Copom, mas reconhecemos uma crescente probabilidade de cortes no segundo semestre de 2019, dada a melhoria das perspectivas para a reforma da Previdência", avalia Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do banco americano. 

Assim, inflação baixa, atividade fraca e cenário de flexibilização monetária nos países desenvolvidos (tanto nos EUA quanto na zona do euro) corroboram que um corte de juros pelo Banco Central brasileiro é quase uma certeza. Porém, nada deve acontecer até que haja avanços reais na reforma da Previdência - o que ainda pode levar alguns meses para acontecer. 

 

Contato