Em mercados

Yellen leva o Ibovespa do “céu ao inferno” nesta quarta-feira; entenda por quê

Sinais de que o Federal Reserve irá reduzir o Quantitative Easing assusta o mercado, mas ritmo cauteloso salva o índice

SÃO PAULO - Em um dia de extrema volatilidade, com o Ibovespa oscilando 970 pontos entre a mínima e a máxima do dia, o principal índice de ações da B3 acabou encerrando a quarta-feira (14) em leve alta de 0,15%, aos 61.922 pontos, com volume de R$ 22 bilhões, inflado pelo vencimento de Ibovespa Futuro. A grande volatilidade foi gerada após Janet Yellen dar os primeiros sinais sobre a redução do Quantitative Easing, que foram os estímulos monetários oferecidos pelo Federal Reserve aos mercados durante a crise financeira. 

Em seu discurso, a chairwoman sinalizou que dará início ao processo de normalização do balanço de pagamento, mas de maneira cautelosa, detalhe que esfriou os ânimos dos investidores e fez com que o Ibovespa voltasse a negociar em alta na última meia hora. A ideia é começar com US$ 6 bilhões mensais em vendas de títulos públicos e US$ 4 bilhões em papéis lastreados em hipotecas, a ser ampliada com o tempo. O movimento será uma reversão do que foi feito na época do mais agudo momento da crise, quando o Fed atuou na direção da compra de ativos.

Segundo Pablo Spyer, diretor da mesa de operações da Mirae Asset, a sinalização da chairwoman em dar início ao processo de normalização do balanço de pagamento resultou na correção dos mercados. Para Spyer, quando o Fed começar a recolher os US$ 4,5 trilhões, os mercados de ações devem ser impactados diretamente, pois "boa parte desse dinheiro está no mercado". 

Além disso, a chairwoman afirmou que a economia dos EUA apresenta "sólidos fundamentos", destacando a força do mercado de trabalho e deu uma resposta as especulações de que o Fed reduziria o ritmo de aumento do juro por conta dos fracos dados de inflação e das vendas ao varejo. Sobre o rumo da política monetária, Yellen afirmou que a alta gradual dos juros é apropriada nos próximos anos.

Decisão do Fed
Como o esperado, o Banco Central dos EUA elevou a taxa de juro norte-americana em 25 pontos-base, para o patamar de 1% a 1,25%. A posição do Fomc (Federal Open Market Committee) veio em linha com as expectativas do mercado, repetindo a mensagem das últimas reuniões de gradualismo com a retirada dos estímulos econômicos. As projeções do Fed apontam para mais uma alta do juro este ano e três ao longo de 2018.

Somente um dos membros votantes manifestou posição contrária à decisão. Neel Kaskhari, membro do Fed de Minnesota, é favorável a uma posição mais "dovish" por parte da autoridade monetária até os preços ao consumidor sinalizaram alta mais expressiva. No comunicado sobre a decisão, o Fed sinalizou mais uma alta de juros até o fim deste ano. 12 dos oficiais projetam três altas ou mais em 2017, um a menos do que na última reunião, em março.

Os dirigentes do Federal Reserve deram os primeiros sinais sobre a redução do balanço de pagamento da autoridade, um dos pontos que o mercado está mais de olho e que atualmente está em US$ 4,5 trilhões. No comunicado, o comitê espera dar início ao processo de normalização ainda este ano. A mediana do Fed para o núcleo do PCE (Índice de Preços dos Gastos com Consumo Pessoal) para 2017 está em 1,7%, contra estimativa de 1,9% vista após a reunião de março. Sobre a inflação, os dirigentes afirmaram que vão acompanhar de perto a evolução da inflação.

Pisando no freio?
Pela manhã, dados econômicos aquém do esperado aguçaram a expectativa de que o Federal Reserve reduzirá o ritmo de aumento de juros. O CPI, Índice de Preços ao Consumidor norte-americano, apresentou deflação de 0,1% no mês passado, enquanto os analistas esperavam estabilidade para o período. Além disso, as vendas do varejo no país também decepcionaram em maio ao apresentar queda de 0,3%, enquanto as projeções apontavam para uma variação positiva de 0,1%.

Na visão de Bernardo Dutra, economista da MCM Consultores, essa desaceleração da inflação, que vem sendo acompanhada desde março, também deve ser vista no PCE (Índice de Preços dos Gastos com Consumo Pessoal) que será divulgado no final do mês. O resultado será muito importante, pois, o PCE é a medida de inflação preferida pelo Fed em suas avaliações macroeconômicas.

Para Bernardo, se os indícios da desaceleração da economia forem confirmados em 28 de julho, quando será divulgada a primeira prévia o PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA referente ao segundo trimestre, o Federal Reserve deve ficar mais cauteloso em relação ao aumento dos juros e, assim, os mercados poderão precificar de fato uma redução do ritmo de aumento dos juros nas próximas reuniões.

Destaque da bolsa
Do lado positivo, o principal destaque ficou por conta do Bradesco, que subiu após o banco informar, em comunicado ao mercado, que o TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região decidiu, por unanimidade, trancar a ação penal contra o presidente Luiz Carlos Trabuco na Operação Zelotes.

As maiores altas, dentre as ações que compõem o índice Bovespa, foram:

 C?d. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 BRAP4 BRADESPAR PN 18,18 +5,39 +25,45 139,49M
 BBDC4 BRADESCO PN 27,14 +3,87 +3,26 680,34M
 QUAL3 QUALICORP ON 30,75 +3,54 +63,30 122,48M
 BBDC3 BRADESCO ON 27,00 +3,37 +2,21 98,85M
 MRFG3 MARFRIG ON 6,64 +2,79 +0,45 28,45M

Do lado negativo, a divulgação dos estoques de petróleo às 11h30 gerou grande volatilidade e impactou negativamente a Petrobras. O relatório apontou redução de 1,7 milhão de barris na semana que se encerrou em 9 de junho, enquanto o mercado esperava queda de 2,739 milhões de barris, sustentando as preocupações com um excesso de oferta global. Por conta disso, o petróleo recua mais de 3% em Nova York e Londres.

Além da estatal, a queda de RD também chamou a atenção, após o Bank of America Merrill Lynch reduzir a recomendação para as ações de compra para neutra, apesar de ter elevado o preço-alvo de R$ 77,00 para R$ 80,00.

As maiores baixa, dentre as ações que compõem o índice Bovespa, foram:

 C?d. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 GGBR4 GERDAU PN 9,23 -2,64 -14,54 103,61M
 RADL3 RAIADROGASILON 71,35 -2,47 +16,92 166,26M
 PETR4 PETROBRAS PN 12,62 -2,47 -15,13 857,80M
 PETR3 PETROBRAS ON 13,54 -2,38 -20,07 188,06M
 BRKM5 BRASKEM PNA 32,35 -2,32 -5,55 64,83M

As ações mais negociadas, dentre as que compõem o índice Bovespa, foram:

 C?digo Ativo Cot R$ Var % Vol1 Vol 30d1 Neg 
 PETR4 PETROBRAS PN 12,62 -2,47 857,80M 612,16M 51.488 
 ITUB4 ITAUUNIBANCOPN 36,41 +0,89 755,52M 564,44M 45.083 
 BBDC4 BRADESCO PN 27,14 +3,87 680,34M 350,61M 34.865 
 VALE5 VALE PNA 24,41 -1,37 614,99M 586,36M 33.107 
 ABEV3 AMBEV S/A ON 18,18 -1,14 469,33M 310,67M 29.601 
 BBAS3 BRASIL ON EJ 27,39 -0,04 276,92M 270,57M 21.403 
 BBSE3 BBSEGURIDADEON 28,85 +0,66 227,76M 128,38M 12.076 
 ITSA4 ITAUSA PN 8,96 +1,01 209,90M 173,34M 28.954 
 VALE3 VALE ON 26,10 -1,02 199,91M 161,75M 18.598 
 BVMF3 BMFBOVESPA ON 18,78 +1,24 194,04M 204,08M 22.645 

* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão)

Joesley no Brasil
Além da decisão do Fed, os investidores seguem atentos ao andamento do cenário político brasileiro, com destaque para a volta de Joesley Batista ao Brasil, que falará novamente à PGR a partir desta quarta-feira. O empresário deve confrontar versão de Temer dos fatos investigados pela PGR e afirmar que presidente sabia que o jato em que viajou era da JBS, segundo matéria do Valor Econômico. O retorno de Joesley, que estava na China, foi confirmado oficialmente em nota; ele esteve em Brasília na última segunda-feira em reuniões e participou de encontros de trabalho em São Paulo na terça-feira, diz o comunicado sem especificar as reuniões ou encontros.

Além dele, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deve depor hoje à PF em inquérito contra Temer. Como não fez delação, Cunha quer usar esse depoimento para mandar recado e mostrar o seu potencial; isso pode causar constrangimento ao governo, diz blog do Camarotti, no G1, citando um interlocutor de Temer.

Bolsas mundiais
Com a forte queda do petróleo, as bolsas europeias fecharam predominantemente em baixa nesta quarta-feira, com ações do setor petrolífero liderando as perdas. Nos EUA, o dia também foi de altas e baixas, mas o destaque ficou para o Dow Jones, que subiu 0,22% e renovou máxima com a alta das ações de bancos após Yellen afirmar que a redução do Quantitative Easing será gradual.

Na contramão, o índice acionário chinês recuou com dados fracos da atividade econômica, reforçando as projeção de que a segunda maior economia do mundo começará a perder força nos próximos meses. A visão dos dados apresentados é de que a economia permaneceu sólida em maio, mas a política monetária mais apertada, esfriamento do mercado imobiliário e desaceleração do investimento reforçaram a visão de que ela irá perder força gradualmente nos próximos meses. 

A produção industrial repetiu a taxa do mês anterior e cresceu 6,5 por cento em maio sobre o ano anterior, contra expectativas de ligeira desaceleração, uma vez que os gastos do governo em infraestrutura continuam a alimentar a demanda por materiais de construção. Mas o aumento dos estoques são um risco. Em abril, o crescimento dos estoques industriais acelerou para mais de 10 por cento.

*Dow Jones (EUA) +0,22% (fechado)

*S&P 500 (EUA) -0,10% (fechado)

*Nasdaq (EUA) -0,41% (fechado)

*FTSE 100 (Reino Unido) -0,35% (fechado)

*CAC-40 (França) -0,36% (fechado)

*DAX (Alemanha) +0,32% (fechado)

*Xangai (China) -0,74% (fechado)

*Hang Seng (Hong Kong) +0,09% (fechado)

*Nikkei (Japão) -0,08% (fechado)

*Petróleo WTI -3,70%, a US$ 44,73 o barril

*Petróleo brent -3,51%, a US$ 47,01  o barril

*Contratos futuros do minério de ferro negociados na bolsa chinesa de Dailian +1,17%, a 432 iuanes

*Minério spot negociado em Qingdao, na China +2%, a US$ 54,43 a tonelada

 

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