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"Dilma acumula a Fazenda, o Planejamento e o BC - e ninguém gosta de trabalhar com ela"

Para o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, só haverá inflexão econômica para melhor após mudanças relevantes no terreno da política - mas sempre pode haver inflexão para pior

Gustavo Franco
(Divulgação/PSDB)

SÃO PAULO - O ano de 2015 está terminando, mas o que aconteceu neste período terá consequências por muito tempo. E, em meio ao turbilhão de acontecimentos e à expectativa de virada da política econômica, o governo atual parece ter mudado pouco, ou nada. Esta é a avaliação do ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco, em entrevista exclusiva ao InfoMoney para "Especial Cenários para 2016".

Franco afirma que o governo, na verdade, buscou apenas mudar no campo da retórica e, que só acredita em inflexão para melhor com a mudanças relevantes no terreno da política. Porém, sempre pode haver inflexão para pior. E, para Franco, um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff por conta de “pedaladas” seria um sinal claro de que houve amadurecimento institucional.

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Confira abaixo a entrevista com Gustavo Franco:

InfoMoney - Pra começar, vamos aproveitar que o senhor lançou recentemente um livro de citações (Antologia da Maldade) e escolha uma frase para definir o ano de 2015.
Gustavo Franco - Uma única frase do livro "Antologia da Maldade", conhecida como o Paradoxo de Tim Maia: “Não fumo, não bebo e não cheiro. Meu único vício é a mentira".

IM - O governo mudou a sua ideologia em 2015, mas foi atropelado pelos fatos políticos? Ou, na verdade, nunca mudou?
GF - Nunca mudou coisa alguma. Na verdade, procurou mudar no terreno da retórica, mas sem nenhuma alteração onde era mais importante, na política fiscal. A austeridade ficou só na promessa, e desse jeito não funciona.

IM - Quando o senhor trata do período em que esteve no governo FHC, diz que teve que comprar briga com muita gente na área pública para vencer a batalha da inflação. O senhor acha que faltou fibra dos membros da equipe econômica, notoriamente Joaquim Levy [que saiu da Fazenda no dia 18] e Alexandre Tombini, contra aqueles que pensavam diferente? Eles cederam demais?
GF - O ambiente é totalmente diferente. Agora temos uma presidente que acumula os cargos de ministra da Fazenda e presidente do Banco Central do Brasil. E também de ministra do Planejamento. O presidente FHC sabia liderar equipes, e tirar o máximo do talento de seus subordinados, ao lhes dar liberdade para trabalhar. Todo mundo gosta de trabalhar com ele. Ninguém gosta de trabalhar com Dilma Rousseff.

IM - As últimas projeções apontam para um ano de 2016 desolador, sendo esperada uma contração média de 3,5% do PIB. E há quem fale que, pela dimensão da crise, esta projeção pode ser otimista. 2016 é um ano perdido? Ou pode representar um ponto de inflexão para o Brasil?
GF - O biênio 2015-16 está a caminho de ser o pior de nossa história, se confirmarem os prognósticos do Boletim Focus [projeções econômicas divulgadas pelo Banco Central] para 2016. Nem 1930-31 foi tão ruim. Só acredito em inflexão para melhor com a mudanças relevantes no terreno da política. Sempre pode haver, é claro, inflexão para pior.

IM - E uma das dessas mudanças seria afastamento da presidente Dilma?
GF - Acho que é o começo da transição. Há muito valor simbólico em o presidente cair por conta de “pedaladas”, ou seja, de desobedecer a Lei de Responsabilidade Fiscal. É um sinal claro de que houve amadurecimento institucional. Acho que o processo todo, incluindo os desdobramentos da Lava Jato, funciona como uma espécie de reforma que ataca o assunto da corrupção. Não há dúvida que isso nos fará um País muito melhor, inclusive no tocante às nossas possibilidades de crescimento.

IM - Para o senhor, qual é a chance desse processo levar à queda da presidente? 
G
F - As chance são grandes por que não existe pequeno crime, ainda mais para presidentes da República. Ademais, trata-se de rejeitar o modelo econômico de capitalismo de compadrio, ou de quadrilhas, introduzido no país pelo PT.

IM - Para o ano que vem, as previsões já são de um déficit superior a 1%, apesar do governo ter a meta de um superávit de 0,5%. O governo pode chegar a ter um superávit no ano que vem?
GF - As perspectivas da política fiscal não são boas no momento. Acho que é preciso observar o conjunto da situação fiscal a fim de enunciar soluções. É preciso pensar fora da caixa e nada deve ser descartado.

IM - Como o senhor avalia a sugestão de parte da base aliada, de aumentar os gastos públicos para lidar com a crise?
GF - Uma tolice completa.

IM - O debate sobre a dominância fiscal voltou à tona em meio aos juros altos que estão sendo pouco efetivos para conter a inflação, enquanto a trajetória da dívida pode aumentar por conta da atuação do BC. O senhor concorda com esse diagnóstico?
GF - Não integralmente. Acho que a política fiscal tem sido uma influência importante sobre a política monetária nos últimos 20 anos. Ficou mais sério nos últimos anos pela piora espetacular na situação fiscal, ocorrida a partir de um nível de endividamento já enorme. É uma situação muito difícil, que vai requerer fórmulas mais criativas de tratar programas como a privatização e o de concessões.

IM - Em meio a tantas projeções ruins, quais são as suas perspectivas para 2016? Há como ter "esperanças" pela frente ou o que se desenha para o ano que vem é desolador?
GF - Não creio em mudanças significativas nas tendências na economia se não mudarmos os rumos da política.

IM - Muito tem se falado que o Brasil está ficando muito barato e que os investidores estariam de olho no País. Como gestor, o senhor vê boas oportunidades de investimento no País? 
GF - De fato há muitos ativos bons a preços atrativos, mas a incerteza é muito grande. O nosso futuro continua brilhante, mas está estacionado logo adiante, esperando que façamos alguma coisa para chegar lá.

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