Em mercados

Agora, Brasil faz parte do time: o que aconteceu com países que também viraram "junk"?

Brasil deixou de ser grau de investimento na última quarta-feira e isso deve trazer efeitos para o mercado; Itaú Unibanco analisa o que esperar daqui para frente

Joaquim Levy
(/Agência Brasil)

SÃO PAULO - Na última quarta-feira, uma notícia pegou de surpresa o mercado. O Brasil perdeu o grau de investimento com a sua nota sendo rebaixada pela Standard & Poor's para o nível considerado "junk", tendo em vista das dificuldades de implementação do ajuste fiscal e da piora do cenário econômico.

E, de forma a determinar os potenciais impactos da perda do grau de investimento na economia brasileira, o Itaú Unibanco avaliou o comportamento dos preços de ativos e principais variáveis macroeconômicas em outros países que perderam, no passado, o selo de grau de investimento.

Conforme destaca a economista Julia Gottlieb, que assina o relatório, a perda do grau de investimento vem acompanhada de algum ajuste fiscal maior, de um ajuste rápido e forte das contas externas. Além disso, é importante notar que as economias que perderam o investment grade têm um crescimento menor após o rebaixamento.

Além disso, também se nota que uma parte relevante do impacto nos preços dos ativos, como bolsa, juros, câmbio e o CDS (Credit Default Swap), ocorre antes do rebaixamento, à medida que o mercado financeiro antecipa o evento. "Ainda assim, há algum impacto", avalia o banco.

De acordo com a análise, a perda do grau de investimento, em geral, tem impactos macroeconômicos importantes. O rebaixamento para grau especulativo atinge o crescimento dos países. Em média, o crescimento é negativo no ano do rebaixamento, e também no ano seguinte.

Por outro lado, algum ajuste fiscal é implementado. O déficit primário recua de 2,4% do PIB um ano antes para, em média, 1,4% do PIB no ano seguinte à perda do grau de investimento. Porém, a dívida bruta aumenta. Ou seja, embora algum ajuste fiscal seja implementado, ele não é grande o suficiente a ponto de impedir que a dívida bruta como percentual do PIB aumente.

Ainda se vê alguns ajustes rápidos na conta corrente, uma vez que as incertezas relacionadas às economias que perdem o grau de investimento e a piora do cenário econômico diminuem a disponibilidade de financiamento externo.

"De fato, o fluxo de investimento em carteira (tanto para renda fixa, quanto para bolsa) cai depois do rebaixamento para grau especulativo". Mas, apesar do recuo dos fluxos de portfólio, não necessariamente se observa saída do mercado local de capitais. E, diante da redução da disponibilidade de financiamento externo, as moedas desses países se depreciam em relação aos pares, estimulando a competitividade e levando a um ajuste mais rápido das contas externas. Em média, o déficit em conta corrente recua de 5,3% do PIB, um ano antes, para 1,1% do PIB no ano posterior à perda do grau de investimento.

O câmbio mais depreciado, no entanto, costuma ter efeito sobre a inflação. A inflação dos países analisados aumenta, em média, 2 pontos percentuais no ano do rebaixamento.

Impacto nos preços dos ativos: antes e depois do rebaixamento
A perda do grau de investimento desencadeia um ajuste nos preços de diferentes ativos, avalia a economista. No entanto, na maioria dos casos, boa parte desse ajuste foi incorporada aos preços de mercado antes mesmo do rebaixamento oficial por uma das agências.

O CDS, em geral, antecipa a perda do grau de investimento e fica praticamente estável em nível mais alto depois do evento. Ao longo do tempo, o CDS vai subindo, incorporando a piora de percepção dos agentes em relação ao risco de crédito do país. E um comportamento semelhante é observado nas moedas, que se depreciam em relação ao dólar antes da perda do grau de investimento e se estabilizam em nível mais alto. Somente depois de algum tempo é que as moedas voltam a se apreciar, porém sem atingir o nível anterior mais apreciado.

Os movimentos nos juros também antecipam a perda de grau de investimento, mas a tendência é de overshooting (reação maior que a proporcional). Assim como as moedas e o CDS, os juros também sobem no período que antecede o rebaixamento, mas o movimento de alta é bem mais próximo da data do evento. Os juros, em média, ainda sobem depois do evento, mas essa alta costuma ter duração curta: um mês depois do evento retornam a um patamar mais baixo, ressalta a análise.

Por fim, os preços no mercado acionário costumam incorporar a perda do grau de investimento antes mesmo do episódio. Mas, ao contrário dos outros ativos, as bolsas seguem em queda depois dos países serem classificados como grau especulativo.

'Em suma, a perda de grau de investimento tem impacto importante sobre as principais variáveis macroeconômicas. As perspectivas de crescimento pioram e a inflação aumenta. Por outro lado, algum ajuste fiscal é implementado pelos governos, e as contas externas costumam melhorar rapidamente", destaca. Enquanto isso, o impacto sobre os preços dos ativos, por sua vez, costuma ser menor,  porque pelo menos parte do impacto do rebaixamento é antecipada pelos mercados. Depois não há uma piora tão relevante, salvo em casos de deterioração adicional dos fundamentos, conclui o estudo. 

 

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