Em mercados

Henrique Meirelles teria sido o ministro da Fazenda ideal para Dilma, diz professor

Para Carlos Magno, Joaquim Levy não tem relacionamento com os grandes players com quem Meirelles dialoga, o que teria feito grande diferença na guinada inicial da gestão de Lula

Meirelles
(Agência Brasil)

SÃO PAULO - A cada novo passo necessário para a aplicação do ajuste fiscal, mais o ministro da Fazenda Joaquim Levy alimenta discórdias internas no Executivo ou desgastes no Congresso Nacional. Na noite da última quinta-feira (28), ele foi alvo de duras críticas em jantar promovido pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que contou com a presença de importantes nomes do empresariado brasileiro. Em meio a ácidas críticas, foi o presidente da organização que ganhou destaque com os ataques mais pesados.

Paulo Skaf teria dito que o Brasil não precisa de um ministro que só fala em aumentar impostos, em uma clara alusão às pautas da reoneração da folha de pagamentos, aprovada pelo Legislativo recentemente, além da possibilidade de se ressuscitar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores) para socorrer os gastos da Saúde. "O ministro não demonstra preocupação com o desemprego no país, com os setores produtivos. Entendo que esse não é o perfil de um ministro que faça bem ao país. Ele não tem realmente nesse momento nosso apoio", criticou o líder da Fiesp. "Se o ministro da Fazenda não tiver a competência para encontrar outros caminhos para resolver a questão econômica brasileira, a não ser o aumento dos impostos, é melhor ele arrumar as malas e voltar para casa", prosseguiu, taxando Levy de insensível e insinuando que ele desrespeitava a população.

Na medida em que mais desgastado encontram-se as relações políticas do governo Dilma Rousseff, mais a estrutura ministerial balança. Para o cientista político Carlos Magno, professor da Faculdade Senac de Minas Gerais, há uma série de fatores que incidem sobre o cenário hoje desenhado para as dificuldades de articulação do governo com deputados e senadores. Entre eles, destacar-se-iam a própria postura de estímulo ao clientelismo adotada com o uso intensivo de recursos para emendas e cargos como ferramentas de barganha, o visível crescimento do "baixo-clero" - isto é, a parcela de menor expressão política e mais pragmática, interessada em interesses próprios e específicos de suas bases eleitorais - e a ampla fragmentação partidária, além da corrosão das relações entre PT e PMDB, cuja competição por espaços na política se intensificou nos últimos anos. "É uma briga que transcende a cúpula partidária. Posso dizer que, provavelmente, a nível de cúpula, há total acordo entre PT e PMDB. O problema é que o perfil das bancadas é muito pouco qualificado. Nós não temos bons políticos – aqueles que fazem a grande política. É um montão de varejistas", analisou Magno.

Além disso, a mudança de estratégia macroeconômica contribui negativamente para a credibilidade do governo e a conquista de apoio. Neste quesito, na linha de raciocínio do professor, o perfil de Joaquim Levy, apesar de qualificado, também pesa e pode não ter sido a melhor escolha dentre as possíveis opções. "O presidente Lula teria sinalizado com a possibilidade do retorno de Henrique Meirelles ao governo. Dilma, por conta de divergências anteriores, preferiu não consultá-lo. Ele era a última opção para a presidente. Ex-presidente do BC, Meirelles é uma pessoa que tem trânsito em diversos setores da economia, muito diferente dos atuais ministros dela. Seria a pessoa com trânsito ideal, já que o próprio Levy, apesar de toda sua história de vida e capacidade técnica mostrada em outras ocasiões, tem muito pouco trânsito", observou Magno.

Para ele, Levy não tem relacionamento com os grandes players com quem Meirelles dialoga, o que teria feito grande diferença na guinada da gestão de Lula. "Falta isso tudo ao governo Dilma. Enquanto não resolver a questão de sua credibilidade, ele ficará refém", afirmou. O professor lembrou ainda que o ex-presidente do BC era uma figura austera, que levou a gestão Lula a superávits primários mais elevados até mesmo que os de seu antecessor, no início. "Uma série de medidas impopulares foram tomadas para sinalizar para o mercado a disposição daquele governo de manter a austeridade fiscal que tinha sido assumida pelos governos do PSDB anteriores. Em política, credibilidade vale muito", complementou. Neste sentido, fariam diferença relacionamentos para além do setor financeiro, como potenciais chaves para importantes portas a serem abertas.

Nos últimos dias, a pressão sobre Levy tem crescido. Na medida em que ele se opõe à liberação de emendas que vão condicionar apoios no Parlamento e compra briga com nomes como o do vice-presidente, Michel Temer, e Elizeu Padilha, da Secretaria da Aviação Civil. Mesmo sendo mais favorável a cortes de despesas do que criação de novos impostos, Joaquim Levy tem sido um dos alvos nesse novo momento de discussão da CPMF. Aparentemente, a questão da reoneração não foi bem digerida pelo empresariado. A pressão, diz o especialista, sempre vai existir; no entanto, não se sabe até que ponto ela seria suportável. "Se o governo tiver que fazer as concessões para poder manter a base de certa forma sob controle e diminuir a tensão política, a corda vai estourar do lado do Levy", diagnosticou Magno.

Na avaliação do professor, esse movimento obedece os próprios padrões históricos. "Sempre foi assim. Nos governos tucanos também era assim. Esse ajuste vai ter que ser feito no âmbito político. Agora, tem que saber o quanto essa base política está disposta a fazer os ajustes macroeconômicos necessários", concluiu. Diz ele que, se houver espírito republicano de fato, os partidos da base e da oposição terão de sentar para alinhar alguns pontos mínimos. "Não se sabe até que ponto compensa, para a oposição, destruir tudo para depois herdar o caos".

 

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