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Mercado não está vendo o que o BC indica, diz economista que vê Selic em 14,5%

Dono de uma das projeções para a taxa Selic em 2015 mais agressivas do mercado, André Perfeito não poupa palavras ao falar do que critica como "ingenuidade" dos seus colegas ao acreditar em juros mais baixos este ano

André Perfeito
(Divulgação)

SÃO PAULO - A mediana do mercado acha que a taxa básica de juros brasileira terminará 2015 em 14%. Ou seja, o Banco Central fará mais uma elevação de 0,25 ponto percentual e depois deixará a taxa livre, esperando que a inflação convirja para o centro da meta do governo até o fim de 2016. Contudo, André Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora é um ponto fora da curva neste sentido. Para ele, a Selic não termina o ano abaixo dos 14,5%. 

Sem citar nomes mas também sem poupar críticas aos colegas de profissão, ele diz não entender o porquê de tanta gente no mercado acreditar que o BC preferirá executar uma estratégia de longo prazo com juros mais moderados. "O [presidente do BC, Alexandre] Tombini está querendo começar o ano que vem com as questões resolvidas. Com a inflação em 12 meses esperada para agosto em 8,70%, ele não pode parar o aperto monetário em julho", explica.

Na opinião dele, os economistas que pensam em um ajuste mais demorado estão vendo "o que querem ver" e não o que a autoridade monetária está indicando. Reiteradamente, Tombini e o diretor de Assuntos Econômicos da autarquia, Luiz Awazu, dizem que o BC está vigilante a respeito da inflação e que trará o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de volta para o centro da meta até o fim de 2016. Com o índice oficial de inflação atualmente em 8,17% ao ano, contra uma meta de 4,5%, o objetivo é bastante ousado. E este é um dos motivos porque Perfeito não acredita em um ajuste mais moderado. 

Outra das razões, para ele, é o momento de depreciação de real vivido pelo Brasil. O economista da Gradual Corretora lembra que em outras ocasiões parecidas, de maxi-desvalorização cambial a solução adotada pelo BC foi um forte aumento dos juros e não uma intervenção mais suave. "Quando acabou a âncora cambial no governo do Fernando Henrique, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, colocou a Selic em 42% de uma vez só. Em 2003, época do risco-Lula, com o mercado achando que o presidente iria implantar o comunismo no Brasil, o Henrique Meirelles fez algo parecido, subindo a Selic de 18% para 26% em uma reunião", lembra. 

Em ambos os casos, ele completa, o País saiu de um baixo crescimento para um momento de expansão mais forte do PIB (Produto Interno Bruto). 

Impacto no mercado de trabalho
O aperto monetário pode não ter tanta visibilidade para o trabalhador como o ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, mas André Perfeito afirma que o impacto será parecido. "Vai sobrar para a variável do ajuste do mercado de trabalho. O diagnóstico desde o ano passado era o de segurar a demanda", diz. 

Ao contrário de outros economistas, ele vê como necessária a ancoragem das expectativas do mercado pelo BC com 14,5% de juros, mas não por uma perda de credibilidade no passado. Ele explica que a taxa de juros foi reduzida em 2012 até 7,25% porque o risco estava muito grande no mundo, principalmente com as crises na Grécia e na Espanha e a economia brasileira poderia sofrer uma recessão. "Foi o aumento da renda da população fez com que a inflação subisse nesta época", avalia.

Assim, para atacar causa, o ajuste tem que obrigatoriamente passar por uma redução no rendimento médio das famílias. "Não importa se o PIB está subindo 15% ou caindo 23%. A gente começa a ver evidências de que o ajuste está funcionando quando ele começa a bater no Mercado de Trabalho".

Então, a sua visão sobre a economia é de que este ano estamos colocando "mais um buraco no cinto". Para o câmbio, ele espera que o dólar bata R$ 3,50, no fim do ano, com o efeito dos juros em atrair mais capital estrangeiro sendo contrabalanceado pela redução nos swaps cambiais. No entanto, ele não vê isso exatamente como um problema. "Um erro nos períodos anteriores, na minha visão, foi fazer vazar a demanda doméstica para fora com o real mais forte". Ou seja, em vez de comprar aqui, o consumidor consumia produtos importados devido ao dólar mais barato, aumentando o buraco na balança comercial e, consequentemente, nas contas externas.  

Portanto, se as previsões de Perfeito estiverem corretas, o investidor e o trabalhador podem se preparar para apertar os cintos em 2015, porque a economia vai crescer menos e vamos passar por uma turbulência no mercado de trabalho. No entanto, os resultados de tempos anteriores nos lembram, dentro de cada forte aperto monetário está a semente para um momento de expansão da economia.

 

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