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CDS: o que é e por que ele pode mostrar o fim do "grau de investimento"

As tensões na política e a fraqueza macroeconômica fazem com que o Brasil já tenha que pagar mais para se financiar, mesmo sem a revisão por agências classificadoras de risco

Dilma Rousseff
(Isaac Amorim/ AG:MJ)

SÃO PAULO - O primeiro teste do ambiente para os investimentos no Brasil já passou e o Brasil foi aprovado pela S&P, que manteve a nota de risco do País em BBB-. Mesmo assim, ainda é cedo para saber se o País não corre mais o risco de entrar no tão temido "grau especulativo", uma vez que Fitch e Moody's ainda podem revisar suas notas para o Brasil. 

A conjuntura política e econômica atual é propícia para que se questione a capacidade brasileira de honrar seus compromissos no futuro. Não é novidade que o ambiente político atual é instável com economia estagnada, inflação em alta, dificuldades fiscais, Congresso desafiando o Executivo e manifestações pedindo o impeachment de Dilma Rousseff (PT). Tudo isso é levado em conta pelo investidor na hora de decidir investir ou não investir em títulos aqui nas terras tupiniquins. 

Além de ser levado em conta pelas agências de risco, este cenário também é base para os principais indicadores de segurança para investimentos internacionais, como por exemplo o Risco País, que usa a taxa paga pelos Estados Unidos em seus títulos como referência para o risco de se investir em outros países. Além dele, também há o CDS (Credit Default Swap) que, por sua vez, funciona como um seguro do risco.

E a má notícia é que, na visão de alguns analistas, ele já mostra que o downgrade do Brasil pela Fitch ou pela Moody's pode ser apenas questão de tempo. 

O que é o CDS?
Os famosos Credit Default Swaps são seguros contra a inadimplência. No geral, o que acontece é um contrato entre duas partes: a primeira, que pode ser uma instituição financeira que compra proteção para sua carteira de crédito, e a outra, por exemplo, uma seguradora de títulos, vende essa proteção. Assim, o risco de default, ou não cumprimento das obrigações, é transferido do credor para o vendedor do CDS. Mas como isso serve para medir a segurança do investimento de um país?

Quem possui um carro sabe que quanto mais jovem e com menor tempo com a carta de motorista, mais caro é o seguro. O mesmo ocorre com estes contratos. Países mais arriscados possuem um CDS mais caro e países menos arriscados possuem um CDS menor.

Logo, para aquelas nações com notas de risco semelhantes, a rentabilidade do CDS deveria ser também parecida. 

No entanto, a realidade não é bem assim. A Guide Investimentos elaborou uma tabela mostrando que entre os países com rating baa2 pela Moody's, o Brasil é o que tem o CDS mais caro, atualmente em 279 pontos-base. O segundo maior, da África do Sul, está 79 pontos-base abaixo, em 200.

Não bastasse isso, a curva do prêmio do CDS brasileiro entrou em uma trajetória de franca ascensão desde setembro do ano passado, durante as eleições. Uma boa mostra disso é este gráfico desenhado pelo Deutsche Bank. 

"Nota-se, pelo gráfico, que de setembro para cá a probabilidade de calote brasileiro mais do que dobrou, um atestado, na prática, da rápida deterioração dos fundamentos e desconforto em relação à situação das contas públicas brasileiras", diz a casa de research Empiricus.

O significado prático disso é que mesmo sem ter perdido ainda o grau de investimento, o Brasil já tem que pagar mais caro para captar dinheiro no exterior, disso resultando que os seguros dos bonds brasileiros também estão tendo que pagar mais. Isso leva a crer que uma revisão para baixo por agências como a Moody's - cuja nota para o País é Baa2 - ou a Fitch - cuja nota é BBB - seria apenas questão de tempo. 

Para Ignácio Crespo, economista da Guide, a revisão, se ocorrer - e ele vê isso como muito provável - deve ter efeitos negativos no mercado financeiro. "Ainda tem espaço para o dólar se fortalecer e a Bolsa sofrer com essa revisão", afirma. "Tem fundos que investem em ativos com selo de grau de investimento e se um deles começar a tirar dinheiro daqui, a situação já começa a ficar complicada". 

No entanto, nada disso garante que o Brasil realmente terá seu rating rebaixado. Na avaliação do economista da Austin Rating, Alex Agostini, tanto o Embi quanto o CDS carregam uma preocupação com o momento de dificuldade enfrentado pelo País, somado ao aumento dos juros nos EUA, mas as agências levam em conta também indicadores qualitativos. "Acho que no Brasil este ano não haverá nenhuma queda na nota porque as agências devem dar crédito ao [ministro da Fazenda Joaquim] Levy", explica. 

Para ele, este ano, o "outlook" das agências pode ser de baixa, mas o downgrade só ocorrerá em meados de 2016, porque as consequências do ajuste de 2015 podem bater no ano seguinte. Mesmo assim, para ele, a perda do grau de investimento seria improvável e o rebaixamento viria de apenas uma agência, e não duas, como é necessário para haver efetivamente a perda do investment grade. 

Para corroborar esta linha de argumentação, vale lembrar que ao contrário da S&P, que mantém a nota brasileira apenas um degrau acima do investment grade, o Brasil teria que sofrer dois downgrades sucessivos para perder o grau pela Moody's e pela Fitch.

Mesmo com tudo isso posto sobre a mesa, Ignácio Crespo acredita que a análise continua válida e que a possibilidade de novos rebaixamentos não pode ser descartada. "A gente não esperava mesmo que o S&P mudasse a nota", afirma. Ele ainda lembra que embora a percepção de risco brasileira tenha caído após a manutenção do rating desta semana, ainda há uma alta de 36 pontos percentuais no mês de março.  

Outro motivo usado por Crespo para corroborar sua linha de análise é que as agências de rating são apenas reativas, rebaixando as notas de crédito de países e empresas que já estão sendo vistos pelo mercado como mais arriscados. "O CDS reage muito mais rápido. Elas [as agências] podem não se antecipar ao que vai acontecer, mas é o que o mercado que vê", explica Crespo.

O que fica claro é que o mercado inteiro olhará com muita atenção para os próximos comunicados das agências de rating. A Fitch se reuniu na semana passada com Levy e com membros do Banco Central e a agência já avisou que nas próximas semanas deve anunciar a decisão da nota de crédito brasileira. Quando o resultado for finalmente divulgado, os investidores saberão se realmente o CDS já estava prevendo o que ocorreria ou se o mercado realmente está dando colocando fé no trabalho do ministro da Fazenda. 

 

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