Em mercados

Como o Brasil passou de um dos poderosos BRICs para um dos patéticos "5 frágeis"?

Uma combinação de fatores fez o Brasil passar de queridinho do mercado para um dos preteridos dos investidores; contudo, momento não é de pânico

Dilma pensativa - 29/11/12
(Ueslei Marcelino/Reuters)

SÃO PAULO - O ano era 2001. O economista inglês Jim O'Neill, que ocupava o cargo de pesquisa em economia global do Goldman Sachs designou o termo BRICs (Brasil, Índia, Rússia e China) em um estudo chamado "Building Better Global Economic BRIC".

Desde sua criação, a sigla foi usada como referência para mostrar uma nova tendência do mercado, designando os países que tinham o poder de gerenciar o crescimento dos mercados emergentes e também o crescimento global. E, em meio ao boom de commodities liderado principalmente pela China, as boas perspectivas para a economia brasileira se elevaram ainda mais, sinalizando que o "futuro" para o Brasil finalmente havia chegado.

Entre 2003 e 2007, o crescimento dos quatro países representou 65% da expansão mundial, um grande motor para a economia do globo. A tese de Jim O'Neill parecia confirmada.

Contudo, o tempo passou e a percepção frente a esses países só se deteriorou. De nações que iriam guiar o crescimento global, esses quatro países de destaque levantam cada vez mais dúvidas sobre se ainda vão surpreender. Se, por um lado, a China é a menos afetada pela onda de pessimismo, por outro a expectativa de que haja uma mudança na estrutura de crescimento do gigante asiático - passando de investimento para consumo - leva outros países a registrarem uma baixa ainda maior. 

Do Fed à Petrobras
Neste cenário, o Brasil é um dos mais afetados, uma vez que é um dos maiores exportadores para o mercado chinês, principalmente das "hard commodities", como é o caso de minérios. Soma-se ainda a isso o cenário externo mais complicado, com a redução dos estímulos nos Estados Unidos, com o Federal Reserve colocando em prática o plano de retirada gradual de estímulos na economia norte-americana, já se preparando para uma eventual elevação de juros nos próximos anos.

Além do Fed, o ambiente interno não é o dos melhores. O atual modelo econômico, com baixo crescimento e inflação resiliente e os temores em relação ao cenário de deterioração fiscal e de intervenções do governo em diversos setores. Um dos mais emblemáticos é a intervenção do governo na Petrobras (PETR3;PETR4), que continua com o caixa pressionado com as restrições de ajuste nos preços de combustíveis com base nas cotações internacionais, de modo a segurar a inflação. 

Em destaque, está ainda para a Pimco, gestora que detém o maior fundo de renda fixa do mundo. A Pimco ressaltou que há falta de "Ordem e Progresso" no Brasil, numa alusão à bandeira nacional. Em relatório, Michael A. Gomez - co-responsável pela equipe de gestores do portólio de emergentes da gestora, avaliou que, embora existam ativos atrativos no Brasil, a instauração da "ordem" no mercado financeiro local é incerta a menos que políticas efetivas sejam restauradas.

Novo codinome
Em meio ao cenário ruim e de menor brilho dos emergentes, uma nova denominação acabou ganhando forças. Em relatório de agosto, mas que só tomou maiores proporções no começo deste ano em meio ao aprofundamento da crise entre os emergentes, o Brasil foi incluído entre os "Cinco Frágeis", grupo este também composto pela Turquia, Índia, África do Sul e Indonésia, em relatório feito pela equipe de análise do Morgan Stanley em agosto de 2013. 

Os analistas do Morgan destacam esse grupo de países como economias que se tornaram demasiadamente dependentes de investimentos estrangeiros bastante instáveis para financiar as suas ambições de crescimento. 

A expressão acabou sendo adotada de forma bastante forte pelo mercado pois destaca as tensões que ocorrem quando os países buscam de forma a impulsionar as taxas de crescimento econômico. O termo ganhou força com o começo da retirada de estímulos pelo Fed, tornando-se uma maneira bastante fácil de dar voz ao mercado em meio a uma ampla fuga de investidores dos mercados emergentes, incluindo o Brasil. 

"Guerra de juros" entre emergentes
E os receios com o Brasil se acentuaram ainda mais com a elevação surpreendente da taxa de juros ao dia na Turquia, de 7,75% para 12% no final de janeiro, de modo a conter a forte desvalorização da lira, a moeda nacional. As taxas dos principais contratos futuros dispararam, a aversão ao risco ao mercado brasileiro também aumentou, enquanto tornou mais atrativo o investimento nos países que elevaram os juros: além de Turquia, a Índia e a África do Sul também elevaram os juros. Enquanto isso, a Austrália, que estava em um ciclo de corte dos juros, interrompeu as quedas e manteve a taxa de forma a lutar contra a queda de sua moeda.

Desta forma, as previsões para que a Selic continue a ser elevada aumentaram, como pode ser apontado pelo relatório Focus, que acredita que a taxa subirá para 11,25% ao final do ano. Atualmente, ela está em 10,5%. Por outro lado, o baixo crescimento econômico é um dos pontos para que a Selic não siga em ciclo de elevação, o que vem causando uma situação dúbia para o Banco Central: ou seguir com a elevação da Selic e comprometer ainda mais a situação econômica brasileira ou diminuir o ciclo de ajustes e comprometer a inflação ainda resiliente e diminuir ainda mais a atratividade para a economia brasileira.

Soma-se a isso ainda o quadro de deterioração das contas públicas, o que levou a ameaças de rebaixamento de rating por importantes agências de classificação de risco em meio à combinação de um cenário de elevação de endividamento público e menor crescimento da economia nacional. 

Assim, aponta a Rosenberg Consultores Associados, o mercado parece começar a separar o "joio do trigo" em meio a esse combinação de fatores evidenciada pela redução de estímulos pelo Fed. Com isso, o acrônimo BRICS está perdendo espaço para um novo grupo, o “Fragile Five”.

Pânico justificável? Não é bem assim...
Na contramão destes países, há o Chile, Colômbia, Peru e México, que aproveitaram o forte influxo de capitais pós-crise para tomar a frente de reformas estruturais em suas economias. Como destaque tem-se também o México, o novo queridinho do mercado, que aprovou um leque de reformas bastante amplo e, mesmo que ainda não apresente crescimento substancial no ano de 2013, as reformas elevam o potencial de crescimento do país.

Com essa combinação de fatores, o Brasil passou a sofrer uma maior vulnerabilidade, sendo confirmada assim a consideração de que o País é sim um dos cinco frágeis. Contudo, há quem discorde de que o País está incluso neste grupo: dentre eles, o presidente do Itaú Unibanco (ITUB4), Roberto Setúbal, que durante entrevista para a apresentação dos resultados do banco, afirmou não concordar com o termo: "a nossa situação é bastante melhor e bem mais confortável que o dos outros quatro países", aponta o executivo, ressaltando que o endividamento é menor, com o déficit em conta corrente como proporção do PIB é de cerca de 3%, bem abaixo da dos outros países, enquanto as reservas estão muito mais altas que a das outras nações". Contudo, o país deve passar por um ajuste fiscal e enfrentar um cenário bastante volátil com a redução de estímulos pelo Fed, apontou Setúbal. 

Assim, conforme aponta a Rosenberg, o momento não é para pânico. Contudo, "cabe adicionar mais uma luz amarela às muitas já existentes no cenário". 

 

Contato