Ninguém entende o que está acontecendo na Europa

Conteúdo do Portal InfoMoney - Editoria Mercados

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14h50 – 11/06
Comentário do colunista Alberto Tamer
PARIS – Não dá para entender nem a economia americana nem a política monetária do Banco Central Europeu (BCE). Nos Estados Unidos, enquanto Greenspan enfrenta a primeira grande oposição no conselho do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) para cortar de novo os juros – e vai cortar mesmo, nem que seja na marra -, o PIB cresce só 1,3%, mas explode o número de jovens que estão sendo empregados para trabalhar nas férias de verão (aqui também, na Europa, os estudantes costumam tirar um mês de férias e trabalhar no outro). Só 14% dos candidatos estão encontrando alguma dificuldade, enquanto no ano passado, já no início da retração, eram 17%, um recorde desde 1990.

Em Bruxelas, a agência de estatística da União Européia divulgou na sexta-feira que, no primeiro trimestre, o PIB na eurozona cresceu apenas 0,5% e, anualizado, recuou 2,5%. Em toda a União Européia, os números são idênticos, confirmando que a tendência, neste ano, é de, quando muito, chegar aos 2,5% contra 3,2% do ano passado. As causas básicas continuam sendo a queda das importações dos Estados Unidos e a redução do consumo interno.

“Estamos vivendo num clima de grande incerteza porque muitos dos nossos clientes, principalmente dos Estados Unidos, mostram-se muito cautelosos quanto à formação de estoques”, afirma o executivo-chefe da Electrolux, Michael Treshow. “Acreditamos que, até o fim do ano, vamos continuar tendo condições de mercado muito duras”, acrescenta George Simpson, executivo-chefe da Marconi, maior fábrica de equipamentos telefônicos na Grã-Bretanha.

As exportações européias, no trimestre, recuaram 0,1%, sentindo diretamente os efeitos da retração mundial. Isso jogou água fria no entusiasmo dos que há algumas semanas previam uma auto-sustentação do mercado regional europeu.

Nossas vendas regionais (dentro da União Européia) aumentaram 3% no último trimestre do ano passado, afirmavam, eufóricos, estigmatizando o secretário do Tesouro dos EUA que dizia não poder acreditar no que estava ouvindo. O déficit da balança comercial da eurozona, nos últimos 12 meses, já é da ordem de 32,6 bilhões.

BCE se desdiz novamente

Enquanto a economia americana se sustenta, nessa semana, em Frankfurt, o Banco Central Europeu decidiu manter em 4,5% a taxa básica de juros, mesmo com o crescimento econômico minguando e o euro despencando para US$ 0,84. Até aí, não há novidade. Só que, desta vez, o presidente do BCE ganhou o primeiro prêmio da contradição. Há alguns dias, Win Duisenberg afirmou, textualmente, que a meta do BCE não era sustentar o euro, mas zelar pela estabilidade monetária. O crescimento econômico, repetiu para quem quisesse ouvir, precisa ser obtido por ações dos próprios governos e não pelo estímulo monetário. E dizia isso mesmo sabendo que estava falando para países de estrutura econômica e desenvolvimento diferentes, que vão desde Portugal e a Grécia (sim, a Grécia) até a Alemanha, a França e a Itália.

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Mas, até aí, tudo bem. Moeda é moeda, PIB é PIB. Está até nos compêndios elementares de economia que tratam de situações normais. Só que dois dias antes o próprio Duisenberg havia afirmado também que a cotação do euro estava a um nível tal que, na sua mente, abre espaço para uma valorização futura. E, mais ainda, no texto oficial distribuído pelo banco à imprensa:

“Nós estamos fortemente interessados num euro forte.” No fundo, ele sabe que um euro frágil – nos níveis mais baixos desde sua criação – acaba pressionando a inflação que o próprio BCE pretende combater. Ou ele não diz o que pensa ou não pensa no que diz, o que é grave e levou o ministro do Tesouro da Grã-Bretanha a pedir “mais transparência do BCE” (Ou seja: afinal, o que é que vocês pensam ou o que pretendem fazer?).

Mas estão rindo por quê?

E, para aqueles que em algum ministério ou na Camex estão soltando notícias entusiasmadas sobre o aumento de 175% das exportações brasileiras para a China, US$ 473 milhões, nos cinco primeiros meses do ano, é bom reler o relatório anual da OMC (www.wto.org), página 14. No ano passado, as importações chinesas totalizaram US$ 225,1 bilhões, 3,5% do mercado mundial, e as exportações, US$ 249,2 bilhões, 3,9% do mercado. A China é o oitavo país mais importador do mundo, superado apenas pelos EUA (US$ 1,2 trilhão), a Alemanha (US$ 500 bilhões), o Japão (US$ 379 bilhões), a Grã-Bretanha (US$ 331 bilhões), a França (US$ 305 bilhões), o Canadá (US$ 249 bilhões) e a Itália (US$ 233 bilhões). E lá estamos nós, alegres, vendendo para eles US$ 473 milhões. Um dinheirão! Ah! Só para não esquecer o que demos em coluna anterior: no ano passado, o Brasil representou apenas 0,9% das exportações mundiais, que estão agora em franco declínio. Sabendo-se já que o déficit comercial deve ficar aí no mínimo em US$ 1,5 até parece a tal da crise anunciada de energia elétrica.

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Será que, também neste caso, não tem ninguém fazendo nada por aí a não ser reclamar contra o protecionismo mundial? Ufa! Que cansa, cansa!

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