Opinião CoinDesk

NFTs: o novo “manual das redes sociais”

Como as grandes empresas vão realmente usar os tokens não-fungíveis?

Por  CoinDesk -

*Por Eric Lam

É impossível saber se a transição da GameStop de negócio em falência para tokens não-fungíveis (NFTs) vai vingar no final, mas certamente é simbólico de uma mudança de paradigma. Afinal, por trás dos NFTs, mil empreendimentos podem florescer, mas outras mil podem murchar.

Esses ativos digitais únicos — muitas vezes associados a desenhos de animais e golpes de “rug pulls” — são o novo padrão tecnológico e ajudam a conectar criadores e fãs ao remover intermediários.

Então, onde é que as empresas se encaixam nesse novo mundo de NFTs? Partindo da minha experiência, elas ainda estão tentando descobrir isso. Existem várias estratégias diferentes para o uso de NFTs, do mesmo jeito que existem vários “manuais de redes sociais”.

Obviamente, empresas nativas do setor cripto, como Autograph, OpenSea e Dapper Labs, veem o futuro de NFTs com otimismo. Mas empresas tradicionais também, como a Universal Music, que assinou um contrato com um novo grupo de música NFT e comprou seu próprio Bored Ape.

As agências de talento tradicionais UTA e CAA estão começando a assinar projetos de NFT e descobrindo como podem usar essa propriedade intelectual (PI) para criar obras de arte adicionais derivadas dele.

Ou seja, grandes corporações estão levando os tokens não-fungíveis a sério. Mas não são todas. Essa classe de ativos foi criada há menos de 10 anos, então as pessoas ainda estão tentando entendê-la.

Gerar uma tese e ser flexível é a única alternativa das empresas que estão procurando capitalizar na economia digital. Seja criando seus próprios projetos de NFT ou se juntando a projetos populares, as corporações estão envolvidas no crescimento do ecossistema de NFTs.

À medida que esse espaço muda, novos projetos começam a testar os limites tecnológicos e mostrar ao mundo seu verdadeiro poder e potencial.

Novos modelos

Como muitas outras tecnologias disruptivas da era da internet, os NFTs estão mudando as maneiras que você pode escolher para interagir com outras pessoas e marcas. A tendência geral da World Wide Web tem sido mais escolhas, mais relações potenciais e mais domínio.

A lógica é jogar no campo dos NFTs, que permite que detentores de tokens consigam obter participações da empresa à qual se dedicam.

Há diversos projetos impulsionando as capacidades da tecnologia de NFTs e fortalecendo o relacionamento entre detentor de token e criador.

Projetos como o Bored Ape Yacht Club (BAYC), gerenciado pela Yuga Labs, transferem direitos de posse de propriedade intelectual aos seus compradores. Se você comprou um Bored Ape e quer fazer um filme sobre ele, você pode, porque ele lhe pertence.

Jenkins the Valet é outro tipo de projeto de NFTs que está aproveitando esse novo modelo de posse. Recentemente criado por um dos membros da comunidade do BAYC e lançado pela empresa Tally Labs, a visão para esse projeto é criar um sindicato licenciado de propriedade intelectual com financiamento coletivo.

Jenkins the Valet é um personagem no mundo do BAYC, um dos projetos de NFT de maior sucesso até o momento, recém-avaliado em mais de US$ 4 bilhões após rodada de fundos liderada pela famosa empresa de venture capital Andreessen Horowitz. Jenkins está rapidamente crescendo e se tornando sua própria marca.

Normalmente, em Hollywood, empresas como UTA e ICM assinam um contrato com atores, artistas e outros talentos para representá-los em diferentes meios, como filmes e televisão. Jenkins apresenta uma nova visão: vender 6.942 NFTs que dá aos detentores o direito de licenciar sua propriedade intelectual com base no token, e a Tally Labs, dirigindo esses 6.942 membros, vai criar novas PIs em volta desses tokens.

Os criadores de Jenkins the Valet assinaram um contrato com a CAA, uma das maiores agências de talento de Hollywood, para gerenciar sua recém-criada propriedade intelectual. Eles contrataram o escritor best-seller Neil Strauss para escrever um livro baseado nessa propriedade intelectual. A venda dos royalties do livro vai alcançar a comunidade. A Tally Labs está procurando entrar no setor de podcasts e outras mídias em breve.

A empresa está essencialmente criando uma agência de talentos da Web 3, onde, pelo preço de um NFT, qualquer pessoa pode ser um agente, capaz de licenciar seus próprios tokens não-fungíveis ou fazer transações com outros que detêm propriedade intelectual valiosa de NFT, mas não têm o token de Jenkins the Valet.

É essa organização entre as comunidades que pode realmente movimentar a indústria do entretenimento, levando ao crescimento exponencial de projetos criativos e inter-relacionados. Não é à toa que empresas, além de pessoas comuns, estão buscando capitalizar em NFTs: cada novo projeto só faz fortalecer a economia inteira. Pode ser uma maneira gratuita de ganhar renda e desenvolver sua marca.

O Bored Ape Yacht Club, que conquistou algo excepcional e deu o pontapé inicial dessa economia, está fazendo mais experimentos com criptomoedas, com o objetivo de beneficiar sua comunidade.

O BAYC está desenvolvendo jogos play-to-earn, modalidade que permite que as pessoas joguem usando seus NFTs da coleção Bored Ape. Eles também lançaram a ApeCoin (APE), a criptomoeda nativa do ecossistema que detentores podem trocar por produtos adicionais. A ApeCoin pode ser liquidada em uma exchange, como a Coinbase ou FTX.

Alguns detentores de Bored Ape ganharam até US$ 100 mil e o BAYC conseguiu assegurar que apenas os fãs de verdade (que tinham tokens) recebessem a sua parte ao usar a informação de contratos inteligentes para autenticar e provar a posse do Ape.

O futuro

A natureza autônoma dos NFTs tem o potencial de reestruturar as interações entre criadores e fãs, com a possibilidade de estes participarem do resultado financeiro positivo de um projeto. Ou seja, NFTs misturam criptomoedas, cultura e status social.

Os tokens não-fungíveis não são apenas arte, são um novo meio no qual os criadores podem ter interação financeira com seus apoiadores. Isso pode ser usado para fazer o financiamento coletivo de empresas, representar projetos de música independentes e muito mais. As oportunidades criativas são infinitas.

Uma empresa pode emitir 1 de 50 itens de games como um NFT. Outra pode integrar esse item no próprio jogo e permitir que usuários conectem sua carteira virtual ao video game, possibilitando que esse item seja levado ao jogo subsequente.

À medida que criadores e empresários experimentam com tecnologia de blockchain e NFT, existe uma alta probabilidade de que os projetos fiquem cada vez mais abstratos e o valor deles aumente exponencialmente devido ao impacto, que gera precedentes.

Observar o espaço pode ajudar você a entender esses projetos uma vez que eles surgem e se posicionar para tirar vantagem das oportunidades no momento em que elas se apresentam.

Assim como a Amazon e o eBay, que surgiram da bolha da internet, o mesmo provavelmente vai acontecer com NFTs. Embora violentos, os ciclos de expansão e depressão não são necessariamente simbólicos de um mercado murcho, mas de um que parece estar florescendo.

*Eric Lam é gestor de carteira na Mirana Ventures e era líder de estratégia em NFT na Universal Music Publishing Group.

Compartilhe