Natura (NATU3) perde confiança de bancos após piora da operação brasileira no 2T26

Queda maior que a esperada na receita do Brasil, problemas de estoque e avanço de concorrentes digitais pressionam perspectivas da companhia

Felipe Moreira

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Loja da Natura no Shopping Anália Franco (Foto: Divulgação)
Loja da Natura no Shopping Anália Franco (Foto: Divulgação)

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Após a Natura (NATU3) indicar um desempenho mais fraco da operação brasileira no segundo trimestre de 2026 (1T26), bancos revisaram suas projeções para a companhia e adotaram uma postura mais cautelosa em relação às ações. Itaú BBA e Bradesco BBI reduziram a recomendação para neutra, enquanto JPMorgan manteve visão positiva, mas destacou riscos de execução. Às 11h05, as ações da companhia operavam com leve queda, de 0,12%, cotadas a R$ 8,49.

O Itaú BBA reduziu a recomendação da Natura para market perform (desempenho igual a média do mercado, equivalente à neutro), mantendo o preço-alvo em R$ 10. Segundo o banco, a expectativa de queda de cerca de 14% na receita da Natura Brasil no 2T26 levou a uma revisão das premissas de longo prazo, já que a operação brasileira segue como o principal motor de lucro e geração de caixa do grupo.

O BBA afirma que ainda existe um descompasso entre ganhos de participação de mercado no sell-out (vendas ao consumidor final) e a fraqueza persistente no sell-in (vendas para consultoras), indicando problemas de planejamento de demanda e composição de portfólio. Para o banco, esses fatores parecem mais relevantes do que se imaginava inicialmente e podem tornar a recuperação da receita mais lenta.

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O Itaú BBA reduziu suas projeções de lucro para a Natura, cortando as estimativas de resultado de 2026 em 79% e de 2027 em 37%. O banco agora projeta lucro líquido de R$ 1,14 bilhão em 2027, equivalente a um múltiplo de 10,2 vezes o lucro (P/L).

Para o segundo trimestre, a estimativa é de EBITDA de R$ 503 milhões, com margem de 9,8%, alta de 1,6 ponto percentual em relação ao trimestre anterior. O BBA estima geração de fluxo de caixa livre de cerca de R$ 1 bilhão em 2027, com retorno de aproximadamente 9%, mas afirma que existem outras empresas da cobertura com potencial de geração de caixa mais atrativo no momento.

O relatório do BBA destaca que a concorrência por canais alternativos aumentou, com plataformas como Mercado Livre, Shopee e TikTok Shop ampliando sua presença no mercado de beleza. Segundo o BBA, a venda direta ainda representa mais de 85% das vendas da Natura Brasil, mas a base de consultoras está cada vez mais integrada a um ambiente omnichannel, com mais opções para direcionar o consumo.

O banco estima que o TikTok Shop alcançou cerca de R$ 400 milhões em volume bruto de mercadorias (GMV) em maio de 2026, equivalente a aproximadamente 4% a 7% do GMV do Mercado Livre e da Shopee no Brasil, após apenas um ano de operação. A categoria de cosméticos, especialmente maquiagem, estaria entre as mais expostas ao avanço do comércio social.

O Bradesco BBI também rebaixou a recomendação das ações de compra para neutra e reduziu o preço-alvo para R$ 10. Os analistas Pedro Pinto e Ricardo França afirmaram que, apesar da força das marcas, liderança em segmentos relevantes e histórico de geração de caixa, a companhia ainda precisa demonstrar maior consistência na execução do plano de recuperação.

O banco ressaltou ainda que o ambiente de juros elevados aumenta a importância do controle do endividamento e pode continuar pressionando o resultado financeiro nos próximos trimestres. Embora reconheça que parte das dificuldades do 2T26 possa ter caráter temporário, o BBI avalia que é necessário aguardar sinais mais claros de estabilização das vendas e retomada da rentabilidade.

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O JPMorgan, por outro lado, manteve recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) para Natura, com preço-alvo de R$ 14, apoiado pela expectativa de geração de fluxo de caixa livre, estimada em 13% de retorno (free cash flow yield). Apesar disso, o banco alertou que a execução operacional veio pior do que o esperado.

Segundo o JPMorgan, os indicadores preliminares apontam para uma queda da receita entre 9% e 10% na comparação anual, cerca de 6% abaixo das estimativas do banco e do mercado. A instituição destacou que os problemas relacionados à falta de produtos e questões no sistema SAP ainda não tiveram solução claramente comunicada pela empresa.

Já o Goldman Sachs manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 13, após considerar os dados preliminares do segundo trimestre abaixo de suas projeções. O banco estima receita consolidada entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões, queda anual de 9% a 10%, abaixo do consenso da Visible Alpha, de R$ 5,5 bilhões, e da estimativa do próprio Goldman, de R$ 5,6 bilhões.

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Segundo a administração da Natura, a deterioração da receita no Brasil no segundo trimestre foi maior do que a esperada após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre. O crescimento consistente da América Latina Hispânica, em moeda constante, não foi suficiente para compensar a fraqueza da operação brasileira.

De forma geral, os bancos convergem na avaliação de que a Natura enfrenta desafios operacionais relevantes no curto prazo, principalmente relacionados a disponibilidade de produtos, planejamento de demanda, transformação dos canais de venda e execução da estratégia de recuperação. A principal divergência está no potencial de geração de caixa e na capacidade da companhia de reverter esses problemas nos próximos trimestres.