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SÃO PAULO – Controlar o comportamento dos preços. Essa é a principal função de um banco central. Mas, se isso não soa como algo óbvio, é porque já estamos acostumados a ver as multifunções dos BCs mundo afora. Acontece que, principalmente por conta da crise financeira de 2008, as autoridades monetárias passaram a dar mais atenção para um conjunto de fatores que vão muito além da inflação e que podem ser determinantes para uma recuperação sustentável.
Controlar os financiamentos dos bancos, fiscalizar o nível de liquidez nos mercados financeiros, entre outros, são aspectos já recorrentes para os BCs no atual cenário. Mas, será que estas instituições estão preparadas para dar conta de monitorar, regular e fiscalizar todos esses fatores econômicos relevantes? É o que se perguntou o economista Patrick Artus, do banco francês Natixis, em relatório divulgado recentemente.
Segundo Artus, o objetivo do banco foi estabelecer quais as chances dessas muitas tarefas atualmente atribuídas aos BCs se colidirem, bem como descobrir se tais órgãos possuem instrumentos suficientes para assumirem tantas atribuições.
Dois regimes?
Na análise da instituição francesa, os bancos centrais têm trabalhado em dois regimes. No primeiro deles, o foco é nas funções essenciais para manter o funcionamento da economia, “onde o principal problema serão as dívidas e os preços dos ativos, e não mais a inflação, por um longo tempo”. Neste regime, Artus destaca que os BCs precisam de mais instrumentos para trabalhar.
O segundo, por sua vez, é tratado como regime da crise, “onde o problema são os defaults dos bancos e países, bem como a liquidez dos mercados financeiros”. O Natixis, porém, destaca que o maior motivo de preocupação é a transição do segundo para o primeiro regime, dada a grande quantidade de liquidez gerada após a crise.
No estágio em que nos encontramos atualmente – regime de crise -, o Natixis explica que o foco atual dos BCs ao redor do globo deveria ser em manter o controle sobre a inflação. “Isso explica a reação de taxas-chave de intervenção na inflação, na capacidade de utilização e nos salários”, destacou Artus.
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Mas, segundo o banco, os BCs estão ampliando seu foco de atuação após a crise. “Uma vez que a crise deveu-se à excessiva taxa de não-pagamentos no setor privado e ao estouro das bolhas no setor imobiliário, os BCs agora querem reagir através do desenvolvimento do crédito e os preços dos ativos, algo que eles não faziam antes da crise”, disse o banco francês.
Conflito de objetivos
De acordo com o Natixis, essa mudança trazida pela crise na postura dos BCs pode gerar um conflito de interesses entre inflação, preços dos ativos e crédito. “O recente caso do BCE (Banco Central Europeu) é bem claro: quando os mercados de dívidas soberanas parar de funcionar e os países não conseguirem mais obter financiamentos, haverão defaults soberanos, o que é intolerável para o BC, forçando-o a adotar o papel de ‘comprador de último recurso’ das dívidas públicas (Grécia, Portugal, etc)”, disse o banco.
Em meio a este cenário, o analista da instituição francesa faz um alerta para o fato de que a passagem entre os objetivos de um regime a outro deve ser feita no prazo certo. “Se as medidas são adotadas muito tarde, bolhas nos preços dos ativos irão inevitavelmente aparecer”, concluiu.