“Não é hora de complacência: os riscos para o crescimento global cresceram”, diz BofA

Banco avalia os impactos da valorização do petróleo em meio ao clima de cautela com a oferta da commodity

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SÃO PAULO – “Esta não é uma hora para complacência: os riscos para o crescimento global aumentaram significativamente”. A frase, do analista Ethan S. Harris, do Bank of America Merrill Lynch, ilustra o que tem se refletido nos principais mercados globais ao longo dos últimos dias: um novo clima de cautela. E no centro do palco está desta vez o petróleo.

Com o contágio das manifestações populares no mundo árabe, as quais tiveram início no Egito e acabaram chegando à Líbia, a preocupação dos investidores com a oferta global da commodity se traduziu em um aumento brusco das cotações desde o início deste ano. O quadro tem piorado com rumores de que os protestos podem alcançar a Árabia Saudita, região de suma importância para o mercado petrolífero mundial.

Segundo o analista do BofA, as preocupações com a situação no Oriente Médio e no norte da África “levantam uma bandeira vermelha”, especialmente porque elas surgiram após uma sequência de acontecimentos que trouxeram volatilidade às bolsas internacionais. Harris lembrou que nos últimos dois anos a economia global parece estar atravessando um constante ciclo semestral de “esperança e temor”.

Isso porque, de acordo com o analista, entre junho de 2009 e fevereiro de 2010 o sentimento de medo de uma recuperação em forma de “L” foi dissipado frente aos primeiros sinais de uma retomada gradual da economia mundial. Em seguida, a crise fiscal na Europa e o lento avanço dos EUA voltaram a trazer um viés negativo aos mercados. No início de agosto de 2010, porém, a esperança voltou a dar as caras, ao passo que o Federal Reserve anunciou o Quantitative Easing 2 e os indicadores europeus e norte-americanos melhoraram. Mas, no início deste ano, o salto das cotações das commodities parecem ter aparecido para estragar a festa.

“Assim como a maioria das equipes econômicas, nós ainda não mudamos nosso cenário base para as projeções ao crescimento econômico e à inflação em resposta dos eventos no Oriente Médio e norte da África”, destacou Harris. Porém, o analista do BofA deixou claro que “a gama de cenários econômicos plausíveis se estendeu consideravelmente”.

Avanço no preço das commodities, alerta para a inflação
Com a intensificação dos conflitos no mundo árabe, as autoridades monetárias ao redor do globo têm de lidar com outro problema: o avanço das commodities pressionando a inflação. Para o BofA, o BCE (Banco Central Europeu) deve reagir às pressões inflacionárias mais rapidamente do que o Federal Reserve, nos Estados Unidos.

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“Nossa equipe de cobertura da Zona do Euro modificou sua projeção para o primeiro aumento na taxa de juros (da região) de dezembro para abril deste ano”, afirmou Harris. Segundo o analista do BofA, as duas autoridades tendem a reagir aos “choques de demanda” de uma maneira bastante similar: “se a forte demanda impulsiona a inflação e reduz a taxa de desemprego, ambos os bancos centrais tentam frear a inflação através da elevação dos juros”.

Ao mesmo tempo, Harris avalia que “choques de oferta” também representam outro problema. Segundo o analista do BofA, quando a redução da oferta impulsiona os preços dos alimentos e das commodities energéticas, os bancos centrais enfrentam um dilema: combater o risco inflacionário ou o risco de recessão.

Na ótica do analista, o BCE parece já ter aprendido esta lição no passado, lembrando que em 2008 a autoridade europeia, preocupada com a credibilidade de seu sistema anti-inflação, elevou o juro da região, enquanto que o Fed manteve reduzida a taxa básica de juros dos EUA, focado na crescente crise de crédito.

Harris ressaltou ainda que alguns sinais de um aperto monetário próximo na Zona do Euro já foram dados. Mesmo assim, o analista acredita que “enquanto a autoridade planeja elevar os juros, ela ainda reconhece a fragilidade do sistema financeiro europeu”. Assim, o BCE continua prometendo que irá reabastecer os bancos da região através de seu programa de refinanciamento, lembra Harris.

Melhora dos indicadores não é tão positiva assim
Em relação ao crescimento global, o analista do BofA destacou que os mais recentes dados industriais de muitos países são muito encorajadores. Apesar disso, “antes que estouremos um champagne”, precisamos ver se tais números realmente representam um forte avanço da economia global, segundo Harris.

Para ele, estes indicadores econômicos têm demonstrado forte avanço por conta de três fatores: o setor manufatureiro global tem demonstrado um desempenho bem melhor do que o PIB (Produto Interno Bruto) mundial; os PMIs podem estar medindo mais esperança do que realidade, uma vez que certamente o mundo parace estar em um patamar econômico melhor do que há dois anos atrás; e os indicadores também podem estar sendo influenciados por sobreviventes da crise, ou seja, empresas que “estão indo bem, obrigado”.

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“Finalmente, em muitos casos estes PMIs podem não ter uma qualidade muito boa: quem exatamente preenche estas pesquisas? – é o executivo de negócios ou um mero funcionário interno? – e será que esta pessoa vê de qual forma a companhia como um todo está se saindo?”, concluiu o analista do Bank of America Merrill Lynch.