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Investidores estrangeiros perguntam diretamente a Levy se ele vai continuar no governo

O ministro da Fazenda foi inquirido em Londres durante uma palestra e desconversou inicialmente. Depois, em entrevista, disse que não pretende sair. O governo continua com dificuldades com a base e o Congresso e isso prejudica cada vez mais o ajuste fiscal.

Joaquim Levy
(Lula Marques/ Agência PT)

Os esforços que a presidente Dilma Rousseff tem feito para acalmar os aliados, entre eles a recente reforma ministerial, na qual cedeu quase tudo que não gostaria, especialmente ao PMDB, estão se revelando em vão.

 

Nem mesmo a disposição do PT, de não espezinhar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no processo levantado contra ele no Conselho de Ética, pelas denúncias de envolvimento na Operação Lava-Jato, têm sido suficientes para melhorar suas relações com o Congresso Nacional e com os partidos da coalizão governista.

 

Todo esse barulho soa também no Exterior como se pôde sentir ontem pelo que passou o ministro Levy em Londres.

 

Ontem, a presidente voltou a sentir duas vezes o alcance dessas dificuldade com os aliados. Na Câmara, foi retirado da pauta de votações, por decisão do plenário, por 195 votos a favor 173 contra, o projeto de repatriação de capitais não declarados de brasileiros no exterior. Os votos contrários não foram somente da oposição.

 

A votação ficou para a próxima semana, atrasando mais uma das propostas de ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy. Mas, para avançar, o texto do substitutivo ao projeto original do governo deverá ser modificado: as resistências a ele existem porque as mudanças abriram brechas para anistias e legalização de caixa 2.

 

Com a repatriação o governo pretende arrecadar R$ 150 bilhões, recursos ainda mais vitais com as resistências – que levaram ao atraso e podem inviabilizar totalmente – à recriação da CPMF.

 

PT “fratricida”

 

Em outra frente, um documento preparado pelo PMDB para seu encontro nacional do dia 17 de novembro, um esboço de um programa de governo, conseguido com exclusividade pela “Folha de S. Paulo”, culpa o governo da presidente Dilma Rousseff “por todos os problemas atuais”, afirma que o PT é “fratricida” e se equivoca na economia.

 

O texto ainda prega a independência do partido: “É preciso que o PMDB passe a trilhar caminhos próprios, apartando-se com elegância do PT”. Também sobram críticas para a oposição, por ter optado pela tática do “enfrentamento político”.

 

Informa a reportagem que o documento começará a ser analisado a partir de hoje e que sua redação contou com a colaboração de alguns dos principais lideres partidos e economistas ligados à legenda, como o ex-ministro Delfim Neto.

 

Há grande expectativa sobre as reações do PT e do ex-presidente Lula em relação aos últimos acontecimentos, classificados por ambos como perseguição orquestrada e tentativa de desmoralizá-los.

 

O PT faz hoje em reunião ampliada do diretório nacional em Brasília um desagravo ao seu principal líder. Não se tem idéia ainda do tom, mas deve ser pesado, pelo tom do artigo do presidente nacional da sigla, Rui Falcão, na “Folha” hoje. Lula também vai discursar, na presença da presidente Dilma Rousseff.

 

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Levy fica?

 

Para completar, ceticismo no Exterior. Segundo reportagem também da “Follha”, do correspondente Leandro Colon, o ministro da Fazenda Joaquim Levy, em uma apresentação para investidores estrangeiros em Londres, pode sentir como o ambiente político contamina – negativamente, óbvio – a percepção externa sobre o Brasil e o governo Dilma. E isto envolve a permanência dele no ministério.

 

Relata a reportagem que Levy foi perguntado diretamente se continuaria no governo, mas não respondeu imediatamente, concentrando-se em fazer uma análise da economia brasileira, explicar o ajuste fiscal que está sendo realizado. Essa atitude evasiva do ministro teria frustrado os presente ao encontro. Mais tarde, em entrevista à rede de televisão CNN Internacional, Levy disse que não está “planejando uma saída” [do governo].

 

Segundo matéria de Vivian Oswald, de “O Globo”, também sobre a reunião de Levy em Londres, um dos analistas depois da palestra, reservadamente, disse que a preocupação dos investidores não é se a presidente Dilma fica ou não, que “o importante é saber o que acontece com o ministro da Fazenda”.

 

Ao voltar ao Brasil, o ministro vai se deparar com seus fantasmas quase reais. O relator do Orçamento de 2016, Ricardo Barros, avisou que o pagamento das “pedaladas” em prestações exigirá outros cortes de despesas para acomodar esses gastos não previstos. Entre eles, aventou novamente a hipótese de cortar verbas do Bolsa Família, o que Dilma já disse que não aceita.

 

Por isso, é crucial para o Ministério da Fazenda que o BNDES, opção em estudo, devolva ao governo R$ 30 bilhões de recursos que lhe foram adiantados pelo Tesouro Nacional nos últimos anos. O total das pedaladas ainda em aberto, segundo o TCU, é de R$ 40 bilhões.

 

Outros destaques dos

jornais do dia

 

 

- “Número de acordos com redução de jornada de trabalho chega a 146” (Globo)

 

- “Concessões feitas em 2013 ainda esperam crédito de R$ 17 bi do BNDES” (Estadão)

 

- “Petrobras é acusada [nos Estados Unidos] de apresentar dados falsos” (Estadão)

 

- “Governo paulista zera o ICMS do arroz e do feijão e aumenta o do cigarro” (Estadão)

 

- BC dos EUA  sinaliza alta do juro em dezembro” (Estadão/Folha)

 

- “Receita e Fazenda pedem quebra de sigilo de ex-ministro [Gilberto de Carvalho] (Folha)

 

-“Receita pede devassa sobre filho de Lula” (Globo)

 

- “Petrobras vai pagar dívidas de empresa da Lava-Jato” (Folha)

 

- “Governo negocia R$ 30 bi do BNDES [para pagar as pedaladas]” (Globo)

 

- “Conselho da Oi aprova, com ressalvas, proposta do russo” (Globo)

 

- “Estados vendem dívida e podem obter R$ 3 bi até o início de 2016” (Valor)

 

- “Processo contra Cunha chega ao Conselho de Ética” (Globo/Estadão/Folha)

 

 

 

LEITURAS RECOMENDADAS

 

  1. Editorial – “É tudo jogo de cena” (diz que parecer sobre impeachment pode ser bem fundamentado, mas foi encomendado por Eduardo Cunha) – Estadão
  2. Celso Ming – “Não há sentido de urgência” (diz que na economia as coisas desandam e as soluções não decolam e que não há vontade política de buscar saídas) – Estadão
  3. Rui Falcão – “Lula, aos 70, resiste a sórdida campanha da elite e da mídia” (diz que há uma campanha visando desmoralizar o campo popular e democrático e que a resistência de Lula atesta a vitalidade política dele) – Folha
  4. Jânio de Freitas – “O que eles vêem” (diz que tudo está pendurado em dois assuntos: o impeachment de Dilma e a cassação de Cunha) - Folha

 

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