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SÃO PAULO – Sylvia Brasil Coutinho sempre gostou de economia. Foi por isso que aceitou sem pestanejar o desafio de ingressar no Citibank e largar o mestrado que fazia em Economia Agrícola na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) da USP (Universidade de São Paulo). Quase 31 anos depois, ela não se arrepende em nada da escolha, que acabou sendo determinante para que hoje ocupe a presidência do UBS Brasil, a filial nacional de uma das maiores e mais renomadas instituições financeiras do mundo.
O caminho de Sylvia, contudo, é um ponto fora da curva. Em pleno 2015, são pouquíssimas as mulheres que ocupam cargos de chefia em grandes bancos, corretoras, gestoras de recursos e asset managements. O mercado financeiro continua sendo um mundo predominantemente masculino. As razões apontadas para isso são várias, mas praticamente todas as mulheres citadas nesta reportagem disseram uma palavra crucial: preconceito. Luna da Silva, do coletivo feminista Candaces, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), explica que o número de mulheres na faculdade é praticamente igual ao de homens, coisa que também se vê nas dinâmicas de seleção de estágio, mas vai rareando conforme se vai subindo na hierarquia das empresas do mercado financeiro.
Um dos motivos para isso, segundo ela, são barreiras invisíveis que as mulheres encontram e que não se apresentam aos homens. A exigência de um tipo de comportamento é uma delas. “A cobrança de trabalho para mulheres e homens é a mesma, só que a cobrança sobre o comportamento da mulher no ambiente de trabalho é muito maior. A mulher não pode nem ser muito feminina nem apresentar muitos aspectos masculinos”, opina Luna.
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Luiza Jardim, colega de Luna no Candaces, concorda, lembrando que a biologia é muitas vezes evocada para justificar o baixo número de mulheres nestes ambientes. “Se a mulher for agressiva vão dizer que ela está de TPM (Tensão Pré-Menstrual). Se chorar, é porque é sensível demais ou não está preparada para o mercado de trabalho. Dizem que o mercado é muito competitivo e a mulher não aguenta, o que não é provado biologicamente”, explica.
Luiza também lembra que a falta de profissionais mulheres nos altos cargos de companhias financeiras acaba aprofundando este problema, já que as jovens estudantes e aspirantes a carreiras na área não encontram modelos com os quais possam se identificar.
É bom ter em mente que o mesmo país que reelegeu sua primeira presidente mulher na história também é o terceiro pior colocado no ranking das nações com mulheres em cargos de liderança no mundo, segundo a pesquisa “Women in Business 2015”, da Grant Thornton.
De acordo com o estudo, 57% das nossas empresas não têm mulheres nas posições mais altas de comando, número que só é melhor que os da Alemanha (59%) e Japão (66%). Para efeito de comparação, a média global atualmente é de 32%.

“A mulher vê poucas semelhantes na diretoria da sua empresa e acaba não almejando esses postos. Parece muito distante das possibilidades dela”, explica Luiza. Ela está fazendo iniciação científica em carreira e gênero e acredita que isso faz com que menos mulheres tentem crescer neste caminho – e por haver menos mulheres tentando, menos ainda são as que conseguem subir na vida no mercado. “É um sistema que se retroalimenta”, conclui.
Apesar de todas as dificuldades, Sylvia Coutinho, a CEO do UBS Brasil, diz nunca ter ligado para o machismo. Ela lembra que passou a infância jogando futebol, o secundário no Baccalauréat (o curso secundário dos dias de hoje, que na época era separado por áreas do conhecimento) de matemática e física e a faculdade no curso de Engenharia Agrícola da Esalq. Ou seja, sua vida inteira foi vivida em ambientes predominantemente masculinos. O trabalho no mercado financeiro, para ela, foi apenas uma extensão disso.
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Mas Sylvia não deixa de admitir que ter uma família que a deixou escolher a bola em vez da boneca e a apoiou quando quis seguir a vida profissional em bancos de investimento no lugar da vida doméstica foi essencial para o seu sucesso.

“Nas palestras nas quais falo deste assunto, sempre digo aos pais que têm filhas que evitem ao máximo fazer diferença e que sempre tratem as suas filhas como tratariam os filhos. Até porque nunca vi até hoje nenhum pai dizer que gostaria que sua filha fosse dependente de um homem. Pelo contrario, todos querem ver suas filhas independentes financeiramente.”
Filhos ou carreira
Esta questão de carreira e filhos, aliás, é uma das mais citadas pelas mulheres para justificar que tantas abandonem as pretensões de crescer no mercado financeiro. Em uma palestra que o coletivo Candaces organizou com executivas do Morgan Stanley, Luiza conta que diversas alunas levantaram a dúvida sobre como conciliar a vida de carga horária agressiva de um banco de investimento ou corretora com o cuidado com os filhos. Segundo Luiza, essa é uma questão que se impõe de maneira muito menos pesada para os homens, que mesmo com todos os avanços sociais e de mudança de mentalidade das últimas décadas, ainda são vistos como provedores das famílias e não como responsáveis pela gestão do lar.
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Mais uma vez, Sylvia acaba sendo exceção à regra. Ela diz que o passo mais importante que tomou na carreira foi ter aceitado o convite para se transferir aos Estados Unidos e se mudado com a família, primeiro para Los Angeles, por dois anos, e depois para Nova York, por dez anos. Depois disso ela voltou ao Brasil, em 2005, mudou-se novamente para Nova York, em 2010 e retornou às nossas terras, em 2012. “Uma coisa fundamental para a carreira de qualquer executivo de empresa internacional é ter mobilidade. Na minha opinião, este é um ponto que prejudica as mulheres muito mais do que os homens, já que é muito comum a esposa largar tudo para acompanhar o marido quando este tem uma oportunidade de expatriação. Já o contrario é bem raro”, explica a presidente do UBS.
De fato, não é toda mulher que conta com o mesmo apoio que Sylvia tem em casa. A maioria das famílias hoje em dia ainda não conseguiu sepultar os antigos valores, de que ao homem compete trabalhar e à mulher cuidar dos filhos. Por isso, a executiva dá a dica: “se uma mulher tem a ambição de seguir sua carreira, deve escolher bem o seu par, ter ao seu lado alguém sem preconceitos e que esteja disposto a dividir o cuidado de uma casa e de uma família de maneira igualitária.”
Representatividade
Se vivemos em uma sociedade capitalista de mercado, por que discriminar na hora da contratação e das promoções um grupo que representa 50% da força de trabalho do mundo? Não há consenso e nem uma explicação exata, mas as meninas do Candaces dão suas opiniões.
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Segundo Luiza, em meios como a universidade já se vê o desenvolvimento de um preconceito arraigado desde a infância, com a separação das coisas “de menino” e “de menina”. O reflexo disso é que a velha questão da falta de representatividade se reproduz mesmo nos ambientes universitários. “Nas entidades aqui da FGV, de sete, só uma delas tem mais mulheres historicamente ocupando a presidência do que homens; em todas as outras a proporção fica abaixo de 30%. Há até entidades que de 56 presidentes, apenas duas foram mulheres”, alerta a estudante. Isso em uma instituição em que, apesar do senso comum para as escolas de negócios, existe quase paridade na proporção entre homens e mulheres matriculados.
Para ela isso é um grande problema, porque desde a faculdade o homem não se acostuma a ser liderado por uma mulher, assim como a mulher não aprende a liderar. Mas elas garantem que isso está mudando. Recentemente, foi criada na FGV uma disciplina optativa eletiva que tem como objetivo discutir o papel da mulher nas organizações. A aula é ministrada pela professora Maria José Tonelli.
O surgimento da disciplina, do coletivo feminista e o crescimento de movimentos como o “Mulheres do Brasil”, liderado por Luiza Trajano, presidente da varejista Magazine Luiza, também têm ajudado a discutir o problema, trazendo mais mulheres para o mundo das finanças e negócios. As participantes do coletivo afirmam que até a recepção delas dentro da faculdade melhorou muito nos últimos tempos. “Agora a coordenação está se juntando com a gente para fazer evento, outras entidades também vêm dando um apoio que não existia antes”, explica Luiza Jardim.
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Para ela, a imagem que se criou das feministas como mulheres radicais, que querem acabar com os homens, está sendo desmistificada aos poucos. Com isso, mais mulheres trocam experiências e ganham incentivos para não desistir dos seus sonhos por conta de uma visão muitas vezes imposta pela família e até por empregadores – a de que elas não são capazes. “As mulheres torcem o nariz pelo estereótipo, mas todas compartilham das ideias feministas. Ninguém quer chegar ao mercado de trabalho ganhando menos do que um homem. E isso é uma ideia feminista. Ninguém aqui está queimando sutiã”, afirma a estudante Luna da Silva.
Caminho das pedras
Para as mulheres que desejam seguir uma carreira no mercado financeiro, mas têm dúvidas do que fazer e do que é preciso, Sylvia Coutinho dá conselhos com amplo conhecimento de causa. “Ajuda fazer as escolhas certas, e não se ‘sabotar’. Percebo que muitas mulheres não acreditam no próprio potencial e em momentos cruciais, em que novos desafios e oportunidades são apresentados, acabam não querendo assumir certos riscos.”
Em resumo, a ideia é lutar pelo próprio espaço, porque apesar de todos os problemas e barreiras, há exemplos que mostram que as mulheres podem crescer no meio financeiro. Para este caso, como para tantos outros relativos ao mercado, vale a máxima de Guimarães Rosa: “o que a vida quer da gente é coragem”.
*Esta matéria foi primeiramente publicada na Revista InfoMoney edição 59 (novembro/dezembro de 2015).