Mudanças no cenário trazem de volta à cena preocupações com inflação interna

Demanda aquecida, cenário externo instável e efeitos dos cortes na Selic elevam incertezas quanto à trajetória dos preços

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SÃO PAULO – As expectativas para a inflação avançam há semanas e o mercado já começa a se questionar “quando” e “se” ocorrerá a retomada do processo de flexibilização da taxa básica de juro brasileira, mas o cenário, uma vez considerado benigno para a inflação, está mudando, e o Copom (Comitê de Política Monetária do BC), conforme já sinalizou, adotará postura mais cautelosa frente ao quadro que tem se materializado.

O robusto aumento da demanda interna, decorrente, sobretudo, da forte expansão na concessão de crédito e do aumento dos empregos formais e da renda, combinado à maior instabilidade dos mercados financeiros internacionais e às incertezas associadas aos efeitos das reduções nos juros sobre a atividade econômica, contribui para a maior cautela frente à trajetória da inflação e das expectativas para a mesma, ambas já respaldando tal postura.

Inflação crescente

O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), por exemplo, mostrou significativo aumento da inflação em dezembro frente ao mês imediatamente anterior. Mais do que isso, no ano, o indicador registra alta de 4,36% nos preços, bastante superior à variação positiva de 2,96% registrada em 2006. O IPCA-15 pode ser considerado uma prévia para o IPCA, medida de inflação que baliza o regime de metas de inflação do País.

A aceleração da inflação tem sido captada por outros indicadores, que também têm demonstrado maior aumento do nível geral de preços domésticos e preocupado o mercado, tanto que as projeções para a inflação medidas pelo IPCA foram elevadas nas últimas cinco semanas, segundo o relatório Focus do Banco Central.

O último deles, divulgado na segunda-feira (24), mostrou que as projeções do mercado para a variação do índice em 2007 passaram de 4,21% para 4,35%. Há quatro semanas, as projeções estavam em 3,94%, bastante inferiores, portanto, à meta de 4,50% para 2007. As estimativas para o IGP-DI, IGP-M e IPC-Fipe também sofreram ajustes consecutivos nas últimas semanas.

Vendas evidenciam demanda aquecida

As vendas de final de ano, por sua vez, corroboram a percepção de demanda aquecida e, por conseguinte, de maior probabilidade de pressões inflacionárias. De acordo com a Serasa, o desempenho das vendas do comércio entre 18 e 24 de dezembro aumentou 5,3% em relação ao mesmo período de 2006, enquanto que no período de 22 a 24 de dezembro o aumento foi de 9,9% frente à medição de 2006.

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A Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping) também mostra dados expressivos, com estimativas de que as vendas no Natal elevaram-se entre 10% e 12% frente ao ano passado. As expectativas são de que este pode ter sido o melhor Natal para os varejistas nos últimos anos.

Mecanismos de transmissão

Cabe destacar ainda que a despeito da paralisação recente no processo de flexibilização monetária, desde setembro de 2005, quando a autoridade monetária deu início ao referido processo, a taxa básica de juro já foi reduzida em 850 pontos-base, sendo que parcela significativa dos cortes se deu ao longo deste ano e, como tal, ainda não se refletiu por completo sobre a atividade econômica e, conseqüentemente, sobre a inflação.

Os dados sugerem, desta forma, que a inflação e as expectativas para a mesma estão limitando o espaço do Copom para dar continuidade ao processo de redução da taxa básica de juro, conjectura que tem dado fôlego à alta das taxas de juros futuros e subsidiado a redução das expectativas de corte próximo da taxa Selic.