Mudança no comunicado mostra que BC desistiu de 2016 (e credibilidade diminuiu)

BC desistiu de colocar inflação no centro da meta de 4,5% no ano que vem, em um comunicado considerado confuso por alguns e que teria comprometido ainda mais a credibilidade da autoridade monetária

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SÃO PAULO – Ontem à noite, o Copom (Comitê de Política Monetária) fez o esperado ao manter a Selic em 14,25%. 

Contudo, o que chamou a atenção foi uma alteração bastante importante no comunicado, na frase-chave sobre a sua avaliação prospectiva,  em que afirma que “a manutenção (…) da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta”, a autoridade trocou o horizonte temporal “no final de 2016” por “no horizonte relevante da política monetária”.

Conforme destacam os economistas, como a LCA Consultores, a “mudança sugere que o Banco Central está deslocando de 2016 para 2017 o seu objetivo de trazer a inflação para o centro da meta, provavelmente em razão da magnitude surpreendente da desvalorização cambial recente, num contexto em que a inflação já vinha sendo fortemente pressionada pelo realinhamento de preços controlados”.

Desta forma, reforça a consultoria, a expectativa é de que o BC, ao menos por ora, não esteja inclinado a responder ao aumento dos riscos inflacionários – decorrente da desvalorização aguda do câmbio – com uma nova rodada de elevação da taxa básica de juros. 

Por outro lado, ao ressaltar que “a política monetária se manterá vigilante para a consecução desse objetivo [de trazer a inflação para a meta no horizonte relevante]”, o Copom manteve suas portas abertas para, se julgar necessário, promover um aperto adicional das condições monetárias, afirma.

“Ao alterar o forward guidance e estender o horizonte para atingir a meta, o Copom implicitamente reconhece que a condução da inflação a partir do provável fechamento perto de dois dígitos no final de 2015 para a meta de 4,50% no final de 2016 provavelmente exigiria uma nova rodada de significativa subida das taxas – algo que o Copom não está interessado em validar”, afirma o economista Alberto Ramos, do BTG Pactual. 

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Assim, boa parte dos economistas avalia que a Selic deve ficar estável em 2016, como é o caso da corretora Nomura. A corretora destaca que a mensagem líquida do comunicado é que meta será atingida apenas em 2017 e o banco vai potencialmente responder com aumentos a uma deterioração da expectativa ou previsões de inflação de longo prazo. O risco, contudo, é desancorar a expectativa de inflação.

Já para o BTG Pactual, o cenário base é de três quedas de 50 pontos-base na Selic até o fim do ano que vem, para 12,75%, algo que era visto pelo banco desde o último Relatório Trimestral de Inflação. Porém, “com o passar do tempo, BC pode progressivamente concluir que sua previsão atual de trajetória de desinflação ainda era muito otimista e mesmo com o recente horizonte de convergência adotado pode encontrar espaço menor para o alívio monetário que o contemplado em suas previsões condicionais de inflação”, afirmam os economistas do BTG, Eduardo Loyo e Claudio Ferraz. 

BC desistiu e credibilidade diminuiu
Conforme destaca 
Luiz Eduardo Portella, sócio-gestor da Modal Asset Management, os mercados já esperavam que o BC em algum momento ia desistir de 2016, mas Copom surpreendeu no timing. Em entrevista para a Bloomberg, ele destacou que a “mensagem vai dar margem para especulação de que o BC está preocupado com a dominância fiscal”, embora Portella não considere que já estejamos nessa situação.

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Para a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, o BC quis estender o horizonte de convergência da inflação à meta, mas não quis dizer 2017 e não disse qual prazo. “O comunicado é confuso e traz incerteza porque não determinou prazo de convergência”, afirmou.

Também para a Bloomberg, a economista-chefe da Rosenberg, Thais Zara, afirmou que autoridade monetária se compromete em questão de credibilidade, uma vez que terá um problema mais grave para convencer a sociedade de que vai entregar a inflação na meta.

O cenário é reforçado pela política e também pelo lado fiscal, já que o governo não consegue entregar o ajuste prometido. Ainda para esta semana, está previsto um anúncio do governo de que haverá rombo nas contas públicas este ano. E o clima político de instabilidade continuará afetando expectativas. 

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Como destaca o professor de macroeconomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pedro Raffy Vartanian, “o cenário ainda é preocupante, pois a inflação vem demonstrando resistência para queda.

Para Vartanian, “o desequilíbrio das contas públicas e a demora na correção de tais desequilíbrios estimulam a depreciação do Real em relação ao dólar, o que torna a redução da inflação um processo mais longo e mais custoso para a sociedade. Assim, é possível afirmar que a incerteza sobre a questão fiscal afeta a eficácia da política monetária e resulta em taxas de juros elevadas por um período cada vez mais longo. ”

(Com Bloomberg)

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.