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SÃO PAULO – Para os analistas do Morgan Stanley, a recuperação da economia norte-americana está claramente acontecendo, e é sim sustentável – mas pode ser mais tumultuosa do que se imaginava.
A garantia de uma retomada sustentável é uma estratégia de saída lenta e gradual das políticas de estímulo que, além de impulsionarem a demanda, ofereceram tempo para que o mercado melhore, para que as empresas liquidem seus estoques e para o crescimento da demanda de bens duráveis, que geralmente avança depois de um longo período de baixa.
O banco norte-americano também aponta que a recuperação não será “sem empregos”, como o mercado vem projetando. “Mesmo que as empresas não comecem a contratar até que fiquem confiantes na recuperação, o corte de empregos observado até agora já eliminou praticamente todos os excessos”. Dessa forma, as projeções são que o emprego volte a crescer até o final de 2009, ajudado pela demanda provocada pelas demissões em excesso.
Apesar de ter aumentado as projeções para o avanço do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano na segunda metade de 2009 para 3%, o maior crescimento no terceiro trimestre deve vir ao lado de ganhos tímidos nos últimos três meses do ano.
A desaceleração das projeções do Morgan Stanley reflete os efeitos do fim dos programas de incentivo à compra de moradia e veículos. “Isso pode levar a temores de uma recessão em W, mas acreditamos que a desaceleração no curto prazo simplesmente demonstra que o caminho para o crescimento sustentável será tumultuado”.
Crédito e programas de incentivo
Esse crescimento sustentável se apoia em dois pilares: o primeiro deles é o aumento e barateamento do crédito com a melhora da economia, diminuindo os spreads dos ativos de riscos – que também foram ajudados por programas dos bancos centrais para melhorar a liquidez dos mercados. Dessa forma, segundo o Morgan Stanley, mesmo que as pessoas ainda ajam com cautela, o crédito está mais acessível.
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O segundo é ligado ao fim dos incentivos fiscais e monetários. Além da falta de sinais de novos estímulos, o Morgan Stanley ressalta que o American Recovery and Reinvestment Act indica que a política fiscal dos EUA será ajustada em 2011. Entretanto, apesar de temores de que os estímulos fiscais sejam encerrados em breve, os analistas acreditam que a diferença de tempo entre o estímulo fiscal e o impacto fiscal vai suportar o crescimento.
Outro ponto em relação à política fiscal dos EUA se refere aos conceitos orçamentários ajustados ciclicamente. “Mudanças nessas medidas são geralmente consideradas um bom incentivo fiscal – uma influência do orçamento na demanda agregada”. Os analistas apontam, contudo, que há atrasos entre o impacto no orçamento e na demanda – e afirmam que, na situação atual, esse atraso é significativo.
Segundo os analistas, na metade de 2010, o estímulo fiscal pode chegar a zero – e, se combinado com as leis fiscais do presidente anterior, George W. Bush, pode levar a um problema nessa área. “Como suspeitamos que o atraso entre a implementação das medidas e do impacto seja entre 3 e 9 meses, acreditamos que o impacto fiscal permaneça positivo em 2010”, ressaltam.
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Por fim, o Morgan Stanley aponta que os efeitos de aumento de impostos nos estados não devem ser considerados, pois são comuns nesse estágio da recuperação da economia – já que os estados norte-americanos não podem acumular déficits orçamentários.
Três incentivos temporários
Para o Morgan Stanley, três estímulos parecem ter atraído às atenções, mas, como são temporários, podem levar a uma nova retração no futuro próximo.
Para o banco norte-americano, o programa de incentivo à compra de veículos, o cash-for-clunkers, é o melhor exemplo de um incentivo que temporariamente alavancou a demanda de hoje à custa da demanda de amanhã. Rumores da indústria sugerem que entre 33% e 50% das vendas de 690.114 veículos foram simplesmente antecipadas, aos custos de setembro e outubro.
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Programas anteriores de incentivo de veículos – no período após 11 de setembro e o furacão Katrina, por exemplo – mostram a seguinte tendência: com o fim dos incentivos, as vendas recuam. “Esperamos que as vendas caiam em relação a agosto, mas depois melhorem gradualmente, apoiadas nos sinais de melhora da economia”.
Já em relação aos incentivos ao mercado imobiliário, os analistas apontam que a situação é mais complicada – o programa durou mais, o crédito é proporcionalmente menor ao valor total da moradia e não existe uma base comparativa tão ampla, já que o único programa semelhante (mesmo que mais restrito) aconteceu em 1975.
“Nesse caso, o crédito estimulou a demanda, mas não há como dizer quanto foi adiantado de meses posteriores, e o quanto é uma nova demanda”, afirmam os analistas. A queda nos preços e taxas de hipoteca ajudou, mas a restrição de crédito e a necessidade de um pagamento inicial ainda atrapalham os compradores. “Assim, acreditamos que as vendas de imóveis vão diminuir um pouco no início do próximo ano, e avançar moderadamente depois, caso uma extensão do programa não seja aprovada – o que é provável”.
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O terceiro incentivo temporário, a depreciação de títulos de dívida – ou o financiamento parcial e temporário de investimentos de capital de 50% de investimentos corporativos em ativos com taxa de serviço de 20 anos ou menos – se encerra no final do ano. Entretanto, os analistas acreditam que o final desse incentivo terá efeitos menores, já que seu papel em fomentar a demanda não foi tão significativo.
Saída lenta = crescimento sustentável
Para o banco norte-americano, as autoridades vão sair lentamente de suas políticas de estímulo fiscal e monetário, com a inflação sob controle e o retorno das dinâmicas cíclicas de mercado. “Acreditamos que o Fed vai diminuir gradualmente seus programas de incentivo à economia, e manterá a taxa de juro até a metade de 2010 – o que melhora as projeções para um crescimento sustentável após esse período, quando o Fed deve aumentar a taxa em 150 pontos-base”, afirmam. Além disso, segundo eles, os atrasos nos efeitos das políticas irão persistir até 2011.
Entretanto, mesmo com sinais positivos – como a estabilização dos preços de imóveis, melhora das condições de crédito e financeiras – a expansão projetada pelo Morgan Stanley para 2011 é mais lenta, devido a fatores como problemas decorrentes das políticas fiscais, e preços mais altos do petróleo.
A inflação, por sua vez, deve acompanhar o preço do petróleo, e o crescimento no quarto trimestre de 2011 deve ser de 2,5%, em comparação anual. Já o Fed prevê crescimento de 4,2% para o período. Segundo os analistas, no ano, o PIB real dos EUA deve acelerar 2,8%, frente aos 2,7% previstos para 2010.