Morgan Stanley vê Brasil investindo em infraestrutura e destaca ações beneficiadas

Banco estima necessidade de gastar 4% do PIB nos próximos 10 anos para Brasil manter crescimento de 5% ao ano

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SÃO PAULO – O Brasil precisa dobrar sua taxa de investimento em infraestrutura para 4% do PIB (Produto Interno Bruto)  se quiser crescer 5% ao ano na próxima década, de acordo com o Morgan Stanley. Em uma nova série de estudos sobre investimentos e perspectivas setoriais, o banco avaliou os gastos brasileiros e concluiu que é necessário mais do que o que está sendo feito atualmente.

“A relação entre investimentos gerais e PIB do Brasil teve uma média de 17% nos últimos cinco anos, bem abaixo dos níveis da China (44%), Índia (38%) e Rússia (24%) – as outras economias do BRIC – durante o mesmo período”, explica o analista do Morgan Stanley, Guilherme Paiva.

Segundo ele, o Brasil precisa investir 4% do PIB em infraestrtutura nos próximos 20 anos para alcançar o Chile, o benchmark latino-americano nesse quesito. Para alcançar o benchmark asiático – a Coreia do Sul – o País precisa fazer ainda mais, investindo entre 6% e 8% do PIB por ano.

Apesar dos números desanimadores, a expectativa é otimista. De acordo com Marcelo Carvalho, economista do Morgan Stanley, o Brasil irá atingir o cenário base de investimento em infraestrutura traçado pelo banco, de 4% do PIB. Para tanto, quatro drivers devem influenciar no futuro próximo: a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016, o desenvolvimento das reservas de petróleo do pré-sal e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Investimentos do BNDES
Olhando para como o Brasil planeja investir em infraestrutura do médio prazo, o Morgan Stanley destaca as estimativas de gastos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de R$ 274 bilhões entre 2010 e 2013, o que corresponde a apenas 2,2% do PIB. Os analistas ressaltam, contudo, que nos últimos 10 anos os setores público e privado dividiram pela metade os gastos com infraestrutura.

Os investimentos previstos pelo BNDES devem ser alocados em sua maioria com o setor de eletricidade, correspondendo a 34% do total, ou R$ 92 bilhões. Ferrovias e saneamento ficam com uma fatia de 25%, ou R$ 69 bilhões, enquanto o setor de telecomunicações fica com 24% do total (R$ 67 bilhões). Por fim, os investimentos previstos em rodovias, portos e aeroportos respondem por 17% do total, ou R$ 47 bilhões.

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“No geral, vemos as maiores oportunidades em áreas como infraestrutura de rodovias, ferrovias e portos. A expansão do investimento em portos e ferrovias já é estimada em um ritmo anualizado de 24,8% e 12,7%, respectivamente”, afirma o analista Guilherme Paiva.

Desafios brasileiros
Embora a visão otimista impere, o Morgan Stanley ressalta quatro desafios complicados para o investimento em infraestrutura no Brasil. Entre eles, está a melhora do ambiente corporativo, com um cenário regulatório mais estável e com maior credibilidade, para elevar o gasto privado. Entre os principais problemas destacados pelo banco estão os gargalos regulatórios e incertezas políticas, a excessiva renegociação de concessões e a falta de eficiência de agências reguladoras.

O segundo desafio se refere às prioridades dos gastos fiscais. Os analistas indicam que o governo precisa conter o crescimento das despesas e repensar suas prioridades através de maior rigidez orçamentária, redução das reservas obrigatórias no orçamento e revisão de direitos estruturais.

Em terceiro lugar, há o desafio de reformar o sistema tributário. Segundo o Morgan Stanley, atualmente, o governo tem uma arrecadação próxima a 40% do PIB, enquanto as companhias gastam em média 2.600 horas por ano para preparar, arquivar e pagar seus impostos. “As duas cifras estão fora dos padrões internacionais”, diz.

Por fim, o banco lista a atual estrutura fiscal, que deve ser melhorada. “O Brasil precisa determinar uma clara estrutura fiscal de médio prazo para restaurar a transparência a suas contas fiscais e metas”, alerta Paiva.

Além disso, o Morgan Stanley vê como principal risco a complacência. Enquanto muitos esperam que as receitas do setor petrolífero ajudem a financiar as necessidades fiscais e a infraestrutura, Paiva afirma que se nada for feito para apoiar ou complementar isso, o País pode perder o timing do boom da infraestrutura.

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Como aproveitar do otimismo no mercado acionário
“Nossos analistas selecionaram as melhores companhias de cinco setores no Brasil para ganhar exposição ao crescimento investimento em infraestrutura”, informa o Morgan Stanley. Confira as recomendações:

Agronegócio: Cosan e Cosan Limited;

Prestação de serviços petrolíferos: OSX Brasil e Lupatech;

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Siderurgia: Gerdau e Usiminas;

Transporte: CCR e ALL;

Energia e saneamento: Tractebel e CPFL.

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Além disso, o banco montou uma cesta com 20 papéis ligados à infraestrutura, com os ROEs (retornos sobre patrimônio, na sigla em inglês) mais altos e Sharpe ratios (retorno médio sobre patrimônio dividido pelo desvio padrão nos últimos cinco anos) maiores do que um.

Cesta de Infraestrutura Brasileira
Companhia Código Setor Peso
Gerdau GGBR4 Metais 15,5%
Usiminas USIM5 Metais 11,8%
Metalúrgica Gerdau GOAU4 Metais 5,5%
Ferbasa FESA4 Metais 0,5%
CPFL Energia CPFE3 Energia e Saneamento 7,3%
Tractebel Energia TBLE3 Energia e Saneamento 6,2%
Energias do Brasil ENBR3 Energia e Saneamento 2,3%
Light LIGT3 Energia e Saneamento 2,0%
Copel CPLE6 Energia e Saneamento 4,1%
Transmissão Paulista TRPL4 Energia e Saneamento 3,1%
AES Tietê GETI4 Energia e Saneamento 2,9%
Eletropaulo ELPL6 Energia e Saneamento 2,4%
Copasa CSMG3 Energia e Saneamento 1,2%
Equatorial Energia EQTL3 Energia e Saneamento 0,7%
Coelce COCE5 Energia e Saneamento 1,0%
CCR CCRO3 Concessões Rodoviárias 24,7%
Randon Participações RAPT4 Autopeças 3,3%
Iochpe-Maxion MYPK3 Autopeças 2,1%
Marcopolo POMO4 Autopeças 2,5%
Plascar Participações PLAS3 Autopeças 0,8%
Fonte: Morgan Stanley

Por fim, o banco listou 42 companhias alavancadas ao investimento em infraestrutura.

   Companhias alavancadas ao investimento em infraestrutura   
Companhia Código Setor
Eucatex EUCA4 Materiais Básicos
Kepler Weber KEPL3 Materiais Básicos
Magnesita Refratário MAGG3 Materiais Básicos
Cosan CSAN3 Commodities Energéticas/Logística
Cosan Limited CZLT11 Commodities Energéticas/Logística
Ultrapar UGPA3 Commodities Energéticas/Logística
Weg WEGE3 Bens de capital
ALL América Latina ALLL11 Logística
LLX Logística LLXL3 Logística
NET NETC4 Mídia/Telecomunicações
GOL GOLL4 Aéreas
TAM TAMM4 Aéreas
Gerdau GGBR4 Metais
Usiminas USIM5 Metais
Metalúrgica Gerdau GOAU4 Metais
Ferbasa FESA4 Metais
Confab CNFB4 Serviços petrolíferos
Lupatech LUPA3 Serviços petrolíferos
OSX Brasil OSXB3 Serviços petrolíferos
Santos Brasil STBP11 Portos
Sabesp SBSP3 Energia e Saneamento
Eletrobras ELET6 Energia e Saneamento
Comgás CGAS5 Energia e Saneamento
Cesp CESP6 Energia e Saneamento
MPX Energia MPXE3 Energia e Saneamento
Terna TRNA11 Energia e Saneamento
CPFL Energia CPFE3 Energia e Saneamento
Tractebel Energia TBLE3 Energia e Saneamento
Energias do Brasil ENBR3 Energia e Saneamento
Light LIGT3 Energia e Saneamento
Copel CPLE6 Energia e Saneamento
Transmissão Paulista TRPL4 Energia e Saneamento
AES Tietê GETI4 Energia e Saneamento
Eletropaulo ELPL6 Energia e Saneamento
Copasa CSMG3 Energia e Saneamento
Equatorial Energia EQTL3 Energia e Saneamento
Coelce COCE5 Energia e Saneamento
CCR CCRO3 Concessões Rodoviárias
Randon Participações RAPT4 Autopeças
Iochpe-Maxion MYPK3 Autopeças
Marcopolo POMO4 Autopeças
Plascar Participações PLAS3 Autopeças
Fonte: Morgan Stanley

Nesse caso, os analistas ressaltam a discrepância entre lucratividade e perspectiva de crescimento. Olhando para as duas métricas anteriormente adotadas (ROE e Sharpe ratio), o Morgan Stanley chegou à seguinte conclusão: quando ajustadas ao risco, as empresas de energia e saneamento parecem mais interessantes.

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Olhando apenas para o retorno sobre patrimônio, “os segmentos mais lucrativos foram o de concessões rodoviárias (29%), seguido de perto pelos industriais (28%) e companhias de serviços petrolíferos (25%) (…) Enquanto isso, os segmentos menos lucrativos foram portos (5%), materiais de construção (6%) e logística/petróleo (8%)”, conclui o banco.