Moody’s e Ibope dão choque no mercado, que começa a se fechar

Rebaixamento, alta do risco-país e incertezas em relação à sucessão presidencial prejudicam duramente títulos brasileiros

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LONDRES – Não houve pânico – é exagerado usar esta palavra -, mas a semana foi uma das mais difíceis para o Brasil no mercado financeiro internacional. A conjugação de dois fatores – o rebaixamento da perspectiva de neutra para negativa da cotação brasileira pela agência de rating Moody’s, seguido pela diminuição da nota do País pela agência Fitch, e o resultado da pesquisa eleitoral do Ibope – fez com que os investidores, até agora em posição de cautela, passassem a vender pesadamente papéis brasileiros.
O pique de queda foi quinta-feira, com os C-bond, que representam quase 50% do índice de risco do Brasil calculado diariamente, caindo 11%. Entre quinta e sexta, continuou a tendência de baixa e esses títulos recuaram 1,5%, isso no fechamento do mercado londrino. Em uma semana, a queda foi de 13%. Entre quinta e sexta-feira o risco Brasil aumentou em 6%.
Cenário externo

Para os analistas, não foram só aqueles dois fatores que provocaram a derrocada das cotações e o aumento do risco. Todo o cenário externo está ruim, com a bolsa americana recuando 4% em apenas uma semana e o dólar, arrastado pelo déficit comercial americano, de US$ 35,9 bilhões, chegando aos níveis mais baixos dos últimos dois anos.
Ele caminha rapidamente para equiparar-se ao euro, que fechou a semana cotado a US$ 0,9710. É o pior resultado desde abril de 2000. O dólar já se desvalorizou em 11,5% desde janeiro e 2,5% esta semana.
“Os Estados Unidos precisam de US$ 1,5 bilhão por dia – sim, por dia – de dinheiro novo para cumprir suas obrigações externas”, lembra Paul Donovan, economista do UBS Warburg, de Londres. “O dólar está caindo porque os europeus estão tirando seu dinheiro dos Estados Unidos mais do que os americanos investem no exterior.
Ele deve chegar à paridade com o euro na próxima semana”, acrescenta Ivka Kalusbystricky, do Independence Investment, em Boston, que administra um fundo de ações da ordem de US$ 2 bilhões. Para outro analista, Stuart Kinnersley, da Nikko Global Asset Management (fundo misto de US$ 4 bilhões), “há falta de confiança nos EUA. O dólar vai continuar recuando, num mercado da ordem de US$ 1,2 trilhão por dia.”
Mas não é só nos EUA. As cotações das principais ações das bolsas européias caíram aos níveis mais baixos dos últimos nove meses. As ações das empresas de telecomunicação tiveram um desempenho ainda pior, os menores valores desde 1997.
Vem tudo junto

Isso, mais as reavaliações do risco Brasil e as incertezas políticas, levou o investidor em títulos de países emergentes a vendas maciças, simplesmente porque neste cenário financeiro interno e externo sombrio a aversão ao risco aumentou consideravelmente.
Na sexta-feira, por exemplo, somente alguns investidores privados e traders do mercado estavam operando com papéis brasileiros, comprando e vendendo para realizar lucros rapidamente. Foi um dia nervoso e parado.
Ainda aqui, não foi só o Brasil. Os papéis de todos os países emergentes continuaram se desvalorizando, inclusive da Rússia, que era, até agora, a estrela desse mercado.
“A nota do Moody’s foi apenas a cereja que colocaram no sorvete”, ironiza um analista londrino, que passou o dia sem fazer nada, apenas acompanhando as cotações na tela. Outro acrescenta que “se não fosse esse cenário externo ruim, certamente teríamos sofrido menos”.
Mas todos concordam que essa instabilidade e tendência de baixa deve continuar pelo menos até que se defina mais o quadro eleitoral. “Vamos ter um mês de julho nada agradável”, diz o “analista da cereja”.
Vamos ver esse filme repetir-se mais vezes, talvez com menos ruído e susto até agosto, quando as tendências eleitorais estarão mais definidas. Até lá, é administrar o dia-a-dia e tentar convencer os participantes do mercado que está havendo uma exarcebação exagerada e que o Brasil tem condições de honrar sua dívida.
É isso o que o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vem fazer aqui. E é exatamente o oposto disso que o imprudente secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O’Neill, insensatamente não quer, ao afirmar, de forma truculenta, que se opõe a novos empréstimos ao Brasil.
Suas declarações foram feitas quando o mercado londrino já estava fechado, mas ninguém entendeu, afinal, o que o sr. O’Neill pretende ao tumultuar ainda mais o mercado dos países emergentes, já abalado.
Ninguém precisa dele para isso…
E que tal se o sr. O’Neill fizesse mais uma viagenzinha humano-turística de 15 dias pela África?
Crédito difícil

Uma das conseqüências desse clima ruim é que empresas brasileiras estão sentido na City dificuldade de obter crédito para exportação. Isso preocupa, pois, mesmo com crédito, as exportações vêm declinando mês a mês.
Outra conseqüência é que empresas que acreditavam poder girar com facilidade suas dívidas estão encontrando dificuldades em renová-las aqui. Muitas terão de levantar recursos, no Brasil, nas taxas atuais do dólar, para saldar seus compromissos.
Dificuldade de rolar dívida e de obter crédito de financiamento para exportar são dois fatos que preocupam mais do que a queda dos títulos.
E a operação de recompra de títulos brasileiros, da ordem de US$ 3 bilhões, anunciada pelo Banco Central, com o objetivo de resgatar papéis que vencem nos próximos dois anos e abrir espaço para as empresas privadas? Aqui, dizem os analistas, está tudo muito obscuro. Se o dinheiro entrou, ninguém viu.
Uma fonte bem informada diz à coluna que o BC teria entrado resgatando pouco para testar o mercado.
Isso repercutiu apenas em alguns títulos do Tesouro que vencem em 2004, mas voltaram a recuar. Nos mais negociados, os C-bonds, o efeito foi contrário. Eles se desvalorizam ainda mais. E, diante dessa reação, acrescenta a fonte, muito provalmente o BC teria recuado, convencido de que iria desperdiçar recursos.