Monitoramento estilo “Big Brother” pode ajudar a detectar crimes de mercado

Softwares que conseguem acompanhar informações sobre as negociações realizadas no pregão já são normalmente vistos nos EUA e Europa, sendo utilizado até mesmo pelos órgãos reguladores locais

Felipe Moreno

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SÃO PAULO – Assim como em qualquer bolsa do mundo, a BM&FBovespa está fadada a sofrer com a incômoda tentativa de investidores que utilizam de meios ilegais para auferir lucros indevidos nas operações. Não é incomum presenciarmos suspeitas e acusações de casos de insider trading (negociações com informações privilegiadas) e rogue trading (negociações ilegais com capital de terceiros) tanto por aqui quanto nos mercados internacionais. Para Luis Gustavo Penteado, diretor de Capital Markets da Progress, há uma forma de minimizar esse tipo de problema: a adoção de softwares de monitoramento de dados por parte das autoridades cabíveis.

Há softwares que podem ajudar na vigilância do mercado, como o Apama – da própria Progress – e o relatório Cross & Ranking, da CMA Solutions. A própria CMA também possui uma plataforma para gerenciamento de risco – a CMA Risk Management -, que pode ser usada para monitorar internamente a execução de trades indevidos. De forma rudimentar, softwares de análise técnica, como o ProfitChart, da Nelogica, desempenham funções básicas na captação de dados em tempo real, mas precisam ser operados de forma manual.

Uma ferramenta dessas pode ser usada como uma espécie de “Big Brother”, que vê tudo que ocorre no mercado e pode agir com mais certeza e eficiência, como o personagem do livro 1984, de George Orwell. Esse tipo de monitoramento já é comum no exterior, como nos EUA e Europa, onde além das reguladoras do mercado, como a SEC (Securities Exchange Comission, o órgão regulador do mercado norte-americano), alguns grandes grupos já o utilizam – como Icap, Citigroup e Turquoise.

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A BM&FBovespa e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) já possuem monitoramentos, mas distintos. Enquanto a bolsa possui uma equipe de olho no mercado com alguns diferentes tipos de software, a CVM usa apenas um que foi desenvolvido pela empresa SIA, mas que não conta com informações em tempo real. Como parte de sua tentativa de manter o ambiente bem regulado, a operadora da bolsa costuma dividir informações com a reguladora – e com o mercado em geral, ao indagar as empresas sob oscilações de preços e volumes financeiros fora do comum de algumas ações.

Basicamente, os softwares desse tipo compilam milhares de dados em tempo real, como o tempo de cada trade, o tamanho de cada operação e quem a realizou. Pode-se, então, existir alarmes automáticos que alertariam para quando uma operação sai do normal. “Nossa solução tem 84 padrões pré-programados para detectar trades suspeitos. Com isso, algumas movimentações ‘estranhas’ no mercado seriam analisadas em tempo real e a investigação poderia ser feita imediatamente”, explica Penteado.

Por um mercado mais seguro
Ele garante que a utilização de uma ferramenta em tempo real pela CVM colaboraria para a diminuição desses comportamentos indesejados – já que a autarquia teria formas de identificar operações suspeitas, como um volume acima do esperado vindo de apenas de um banco de investimentos ou corretora, na hora que ocoressem. Embora a CVM garanta que seu software garanta as informações necessária, o fluxo de punições é muito baixo.

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Fortalecer a própria Bovespa também poderia ser uma boa opção para coibir movimentos indesejados. Hoje em dia, a operadora da bolsa conta praticamente com os “circuit breakers” – a paralisação imediata das negociações quando a oscilação do Ibovespa ultrapassa o limite de 10% para cima ou para baixo -, que na opinião do executivo, desarmam apenas parte desse problema. Mesmo de mãos atadas em muitos casos da bolsa, a operadora conta com boas vantagens. O próprio circuit breaker é algo que não existe fora do país para ações, além de contar com uma bom estatuto de autorregulação.

Serviço não é apenas Bolsa e CVM
Mas se a CVM e a Bovespa estão satisfeitas com seus modelos, vale lembrar que não são únicas que são prejudicadas pela ocorrência de trades criminosos: corretoras e bancos de investimentos têm interesse em coibir os rogue traders, que utilizam capital indevido para suas operações, sem a devida autorização do banco. Para isso, o Apama e o CMA Risk Management permitem que uma única pessoa monitore isso de maneira facilmente. “A ideia é pegar isso antes que chegue na CVM e na Bovespa”, diz Penteado.

Segundo o diretor da Progress, a plataforma avisa toda vez que um trader da corretora faz algo indevido, como operar em mercados mais arriscados e optar por papéis proibidos pela corretora. “No Brasil ainda não tivemos nenhum caso extremo como no exterior, mas não temos essas soluções implantadas ainda”, alerta. Já o CMA Risk Management tem uma estrutura de radar, alertando quais posições estão próximas de apresentar problema.

Além disso, a plataforma Apama é originalmente conhecida pelas suas utilizações com HFT (High Frequency Trading), a utilização de algoritmos para realizar diversos trades automáticos. Alguns deles, quando ligados, apresentam problemas e realizam diversos trades perdedores por segundo. O monitoramento por parte de corretoras, Bovespa e CVM pode detectar esses movimentos mais agilmente e proteger o mercado desse tipo de problema.

Baixa sofisticação do mercado brasileiro é uma “bênção”
Penteado também destaca a atual baixa sofisticação do mercado brasileiro, que conta com apenas uma bolsa, a BM&FBovespa, e um centro de liquidação, a CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia). “A pouca complexidade, de uma certa forma, ainda permite metodologias e sistemas não tão sofisticados, mas com o aumento da velocidade, volume de negócios e a entrada de novas bolsas, caso isto ocorra, comeca ficar mandatório sistemas com grande capacidade de processamento de dados”, afirma.

Para ele, com certeza ao menos um outro local de liquidação além da CBLC entrará em ação nos próximos cinco anos, o que faz com que aumente a necessidade de monitoramento por parte dos reguladores, bolsa, corretoras e bancos. “Atualmente apenas cerca de 0,05% da população opera no mercado acionário, este número deve aumentar gradativamente com o trabalho que as corretoras e a própria bolsa vem fazendo, além da queda da taxa de juros”, conclui.