Minério de ferro: China conseguirá controlar o preço da commodity?

Baixo níveis de estoques, produção acelerada de aço e estímulos imobiliários vão no sentido contrário de tentativas do governo chinês

Vitor Azevedo

Mineração da Vale em Minas Gerais (Mario Tama/Getty Images)

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O minério de ferro vem, já há algum tempo, com uma tendência de alta, saltando de cerca de US$ 105 a tonelada em setembro para a casa dos US$ 130 por agora. O movimento acompanha as notícias de que a China, o maior consumidor da commodity do mundo, irá estimular o seu setor de construção civil. Agora, no entanto, o mesmo país tenta controlar o preço da commodity, buscando evitar a inflação – em um filme que já aconteceu anteriormente.

Órgãos regulatórios do gigante asiático, como a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, prometeram em comunicado nesta quinta-feira (23) intensificar a supervisão sobre as negociações envolvendo o produto não manufaturado para evitar a especulação. Além disso, pediram às empresas que comercializam as commodities para “não exagerarem nos aumentos de preços” ou “fazerem estoques exagerados”.

Isso não é, no entanto, algo novo. Em outras vezes que o minério teve alta relevante as autoridades sinalizaram a mesma coisa.

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“O minério de ferro tem um nível diferencial de trading do que as outras commodities. Nas últimas semanas, saiu a notícia de que eles estavam tentando limitar as negociações., colocando volume máximo, tarifas adicionais, entre outras medidas. Isso já aconteceu diversas vezes. É recorrente”, explica Guilherme Nipps, analista da XP para o setor.

O analista Leonardo Correa, do BTG Pactual, abre um relatório da última semana dizendo que “mais uma vez estamos falando das tentativas de controlar a especulação e de impactar negativamente os preços do minério de ferro”. Segundo ele, é normal estas manchetes serem inicialmente recebidas com preocupação, com investidores tendo como primeira reação vender seus contratos.

“Durante anos, temos observado as autoridades chinesas tentarem controlar a inflação dos preços das matérias-primas em todos os sentidos. Sendo assim, estas manchetes não devem ser uma surpresa para os investidores”, expõe. “No entanto, o que a história sugere é que estes eventos de volatilidade e maior pressão normalmente não duram”.

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Em fevereiro de 2022, houve uma movimentação parecida. Uma manchete da Bloomberg na época afirmava que a China estava “alertando negociadores de minério de ferro contra a especulação”. Olhando um pouco mais para trás, em setembro e em julho de 2021 e no final de 2020 houve manchetes parecidas.

A questão é que, para as duas casas, há mais do que um mero movimento especulativo interferindo no preço do minério.

“Embora não possamos descartar a possibilidade de haver um componente especulativo na formação dos preços do minério de ferro, acreditamos que os fundamentos do minério de ferro irão melhorar a partir daqui”, fala a equipe de Correa, citando, principalmente, a produção de aço chinesa.

Nipps, da XP, vai na mesma linha, mencionando também os baixos estoques vistos na China atualmente e os já mencionados estímulos.

“Voltando um tempo atrás, o setor de construção civil sinalizava uma queda de 30% de novas construções. Estava patinando. Agora, aparentemente, o governo irá soltar um estímulo de US$ 137 bilhões focando na renovação de vias urbanas e em infraestrutura. Além disso, estão cortando algumas taxas de referência, buscando incentivar o setor imobiliário””, contextualiza.

“Olhando o fundamento, a China continua produzindo muito aço e está com baixos estoques. Os estoques de minério estão em níveis muito abaixo da média dos próximos cinco anos, em queda desde a metade do ano”, aponta.

Com isso, as casas continuam vendo uma tendência positiva para a commodity – e, consequentemente, para as companhias que trabalham com ela, caso da Vale (VALE3) e da CSN (CSNA3).

Cabe ressaltar que, nesta semana, diversas casas como Goldman Sachs, Bank of America (BofA) e Itaú BBA elevaram as suas projeções para o minério e, consequentemente, também para a Vale.

O BBA revisou a sua projeção para o minério de US$ 95 para US$ 110 a tonelada para 2024 e de US$ 85 para US$ 100 para 2025; o Goldman também projeta a commodity a US$ 110 a tonelada no ano que vem.

Já o BofA destacou que a commodity pode estender seu recente rali e atingir US$ 150 a tonelada no primeiro trimestre do próximo ano, uma vez que as usinas podem ser forçadas a entrar no mercado devido aos estoques baixos e persistentes. Depois disso, os preços devem cair para mais perto dos US$ 100, mas mesmo assim registrando média para 2024 de US$ 125/t, apontam os analistas do banco.