Mesmo sem TEC, trigo dos EUA é 15% mais caro do que o da Argentina

Abitrigo prefere não prever impactos que essa diferença tem nos derivados, "porque não há cereal argentino disponível"

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SÃO PAULO – Mesmo sem a TEC (tarifa externa comum), o trigo vindo dos Estados Unidos custa cerca de 15% a mais do que o oriundo da Argentina. A constatação é de análise da consultoria especializada em agronegócio Safras e Mercados: enquanto, no primeiro caso, a tonelada fica, em média, em R$ 820, no segundo, sai por volta de R$ 940* – em ambas as situações, para o mercado do Sudeste.

“Dentro deste cenário, o produto deve continuar valorizado”, previu Elcio Bento, analista da empresa. Em sua avaliação, o cereal argentino deve se valorizar também, por conta da disparidade de preços com o grão norte-americano.

Impacto ao consumidor

O presidente do Conselho Deliberativo da Abitrigo (Associação Brasileira das Indústrias do Trigo), Luiz Martins, prefere não fazer previsões sobre o impacto que essa diferença de preço pode ter nos produtos feitos com a matéria-prima.

“O fato é que não há trigo argentino disponível. Então, não adianta imaginar como seria se houvesse”, opinou. “A decisão de reduzir a tarifa de importação foi muito acertada”, opinou.

O Sindicato da Indústria de Panificação de São Paulo não vê motivos para mais aumentos. “Em 2007, as padarias pagaram de 12% a 15% a mais pela farinha, o que fez com que alimentos, como pãozinho, ficassem 5% mais caros, em média”, explicou o presidente da entidade, Antero Pereira.

“Agora, não há expectativas para isso voltar a ocorrer”, adicionou. O quilo do pão de sal custa de R$ 4,5 a R$ 7 nas panificadoras paulistanas, com o preço variando de acordo com a localização do comércio.

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Decisão da Camex

No início deste mês, a Camex (Câmara de Comércio Exterior) reduziu a zero a TEC (tarifa externa comum) do trigo comprado de fora do Mercosul. A medida valerá até 30 de junho deste ano, para uma cota de um milhão de toneladas do produto.

A decisão veio porque, no ano passado, a Argentina, fornecedor de mais da metade do trigo moído no Brasil, fechou seus portos para a exportação. Por se tratar de uma nação pertencente ao bloco econômico sul-americano, o produto não sofre essa incidência de 10% da TEC. Foi necessário, então, que o País recorresse a nações de fora do bloco econômico sul-americano – principalmente Canadá e Estados Unidos – para comprar o grão.

Como resultado, de janeiro a dezembro, no âmbito do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o pão francês teve encarecimento de 7,93%; o macarrão, de 7,58%; e o biscoito, de 5,20%. A expectativa era de valorização em até 16% desses itens, caso a tarifa fosse mantida.

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Dois milhões de toneladas

Também em fevereiro, a Argentina anunciou extra-oficialmente que venderia, neste ano, dois milhões de toneladas ao mercado externo. Dias depois, oficialmente, foi informado que seriam 450 mil toneladas por mês, mas a quantidade de meses não foi detalhada. O Brasil tem capacidade de moer 800 mil toneladas por mês e precisa importar cerca de 60% de seu consumo.

A liberação argentina deve ocorrer apenas em 3 de março, sendo que, se for direcionado ao Brasil, o produto estará disponível um mês depois. “Não sabemos por quanto tempo esse total será vendido nem se virá completamente para o Brasil”, afirmou Martins. Conforme a entidade, a demanda estimada para o cereal é de 9,3 milhões de toneladas neste ano.

A produção nacional foi de 3,8 milhões de toneladas, da safra iniciada em agosto – volume completamente vendido. De maneira geral, a entidade estima que seja necessária, ainda neste ano, a compra de 4,2 milhões de toneladas.

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* Cotação de 15 de fevereiro em Kansas, com o dólar cotado a R$ 1,75.