Repercussão do balanço

Bons dividendos, recompras e prêmio com minério: otimismo de analistas com Vale segue intacto, apesar do Ebitda decepcionar

Custos mais altos afetaram o Ebitda, ainda que recorde, mas analistas do Credit apontam que redução deles também pode ser um bom catalisador pela frente

(Shutterstock)

SÃO PAULO – Um resultado mais uma vez recorde, mas com números que, ainda assim, ficaram abaixo do esperado pelo mercado, com destaque para o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês)em meio ao aumento de custos.

Isso, associado ainda a um cenário incerto sobre os preços de minério de ferro em meio às recentes intervenções da China no mercado, fizeram com que a ação da Vale (VALE3) registrasse queda de 1,47%, a R$ 115,57, na sessão desta quinta-feira (29).

Porém, grande parte dos analistas não mudam a sua tese bastante otimista sobre a ação da mineradora, uma vez que o mercado de commodities segue forte, a empresa pagará bons dividendos e há boas perspectivas com a recompra de ações. Por sinal, há ainda a avaliação de um novo catalisador para o papel no radar.

A mineradora registrou na véspera um lucro líquido de US$ 7,586 bilhões no segundo trimestre de 2021, uma alta de 662% ante o lucro de US$ 995 milhões apresentado um ano antes. Em relação ao primeiro trimestre deste ano a alta foi de 36,78%.

Em reais, a Vale registrou um lucro trimestral de R$ 40,1 bilhões no segundo trimestre deste ano – cerca de 7,6 vezes superior ao ganho de R$ 5,3 bilhões no mesmo período do ano passado e um crescimento de 37% ante o visto nos três primeiros meses do ano.

Já a receita líquida bateu R$ 87,8 bilhões entre abril e junho, aumento de 117% em comparação com igual intervalo de 2020 e um crescimento de 32% ante os três primeiros meses do ano.

O Ebitda ajustado proforma, por sua vez, ficou abaixo do esperado, mesmo com o recorde de US$ 11,2 bilhões. A alta de 33% na comparação trimestral, mas 3,5% abaixo do esperado pela XP e 5,5% abaixo do consenso Bloomberg. O número ficou 2% abaixo da projeção do Credit Suisse.

Na avaliação do Credit, a diferença aconteceu em função do custo de produção dos finos de minério de ferro da mina ao porto – chamado de custo caixa C1 –  que avançou 15% em relação às estimativas dos analistas.

Porém, a companhia já projetou queda nos custos: a expectativa é de que ele apresente uma queda de US$ 1,50 a tonelada no quatro trimestre versus o segundo com a diluição de alguns custos fixos. A geração de caixa de US$ 6,5 bilhões indica um fluxo de caixa livre anualizado de 22%.

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Já a dívida líquida expandiu um pouco, para US$ 11,4 bilhões, vindo de US$ 10,7 bilhões em função do pagamento referente a compra dos ativos de carvão, além de US$ 2,2 bilhões em dividendos e US$ 2 bilhões de recompra.

O Credit também apontou que alguns investidores esperavam um anúncio de dividendo extraordinário, mas os analistas acreditam que possa vir em algum momento nos próximos meses.

A companhia anunciou distribuição mínima de US$ 5,3 bilhões em dividendos a serem pagos em setembro. O montante final e as datas serão definidos pelo Conselho de Administração em momento oportuno.

“Continuamos otimistas com Vale que deve entregar um retorno sobre fluxo de caixa livre (FCF yield) de 20% em 2021 e uma política de dividendo que deve trazer os yields para um patamar próximo de 10% em 2021, assumindo minério de US$ 179 a tonelada. A queda de custos prevista para os próximos meses pode ser o principal catalisador pela frente para uma nova pernada [de alta para as ações da companhia]”, destacam os analistas.

Para o BBI, apesar de um pouco mais fraco do que o esperado, os resultados do segundo trimestre de 2021 não devem ser um fator importante. “No futuro, o programa de recompra deve continuar a fornecer suporte às ações, enquanto pensamos que o excesso de geração de fluxo de caixa livre devido aos altos preços do minério de ferro ainda não está refletido no patrimônio da Vale”, apontam os analistas. Eles reafirmam a recomendação de compra da Vale, com preço-alvo de R$ 133 por ação VALE3.

“Apesar de um resultado forte, esperamos um leve movimento de realização das ações da companhia no curto prazo, uma vez que os números vieram em linha com as estimativas do mercado, com uma leve decepção nos metais básicos que sofreu com eventos inesperados no Canadá”, apontam os analistas da Levante.

O Morgan Stanley destacou que o Ebitda ajustado ficou 3% abaixo da sua estimativa, mas aponta que a receita de operações ficou bem acima, principalmente por conta de gastos financeiros e despesas fiscais menores e necessidade menor de capital de giro.

O banco mantém avaliação overweight (expectativa de valorização acima da média do mercado) para os papéis da Vale negociados em Nova York, com preço-alvo de US$ 27.

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A XP também manteve recomendação de compra para o papel, destacando que o papel da companhia segue sendo a múltiplo de 3,4 vezes a relação entre o Valor da Empresa e o Ebitda esperado 2021, contra pares globais em torno de 5 vezes.

“Em nossa opinião, a Vale deve negociar com prêmio em relação aos pares em (1) mudanças estruturais no setor de siderurgia na China (taxas de utilização mais altas) em favor de prêmios de qualidade e, portanto, dos produtos da Vale, (2) tendência de queda de custos no longo prazo com a retomada das operações e (3) dividendos elevados”, avaliam os analistas.

Revisão da meta de dívida: espaço para mais dividendos?

A tese de dividendos mais elevados, por sinal, teve reforça após a teleconferência de resultados, conforme apontou o BBI. Para os analistas, a gestão da Vale adotou um tom positivo, especialmente na alocação de capital, com espaço para uma aceleração de dividendos e recompras. Além da forte geração de caixa, a companhia considera revisar a sua projeção de dívida líquida expandida para US$ 15 bilhões (contra a meta de US$ 10 bilhões anteriormente e US$ 11 bilhões relatados no segundo trimestre).

Sobre isso, o Itaú BBA destacou a revisão para cima da meta da dívida líquida poderia abrir a porta para até
maiores pagamentos de dividendos extraordinários no curto prazo. Os analistas reforçam que a Vale não cogita mudar sua atual política de dividendos e lembrou que deseja maior visibilidade em relação a possíveis mudanças na tributação de dividendos da proposta de reforma tributária do Brasil. Eles seguem com recomendação outperform para os ADRs da companhia, com preço-alvo de US$ 26, e veem potencial de alta para as suas estimativas.

Conforme destaca a Levante Ideias de Investimentos, a companhia encontra-se em patamar diferente do último superciclo de commodities.

“Desta vez, possui um maior volume de produção, minério de melhor qualidade e necessidade baixa de investimentos que, combinados com o baixo nível de endividamento, possibilita em uma farta distribuição de dividendos”, avaliam os analistas da casa de research.

Eles ressaltam que há certa preocupação com a trajetória dos preços do minério de ferro em um futuro próximo devido às restrições de produção impostas na China devido a questões ambientais, além da percepção cada vez maior de preços em patamares insustentáveis, “o que dá a impressão de que a bonança está em seu pico”. O mercado imobiliário na China também preocupa, começando a apresentar problemas de crédito e de demanda por imóveis, um dos grandes motores do setor de siderurgia e, por consequência, do minério de ferro.

“Mesmo assim, a Vale é capaz de gerar altos retornos e começa a se firmar como uma das principais pagadoras de proventos para os próximos anos, mesmo com preços de minério a US$ 100 por tonelada (metade do negociado atualmente)”, apontam.

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Além disso, em teleconferência, a mineradora destacou elevará a produção de minério de ferro nos próximos dois trimestres ante o ano passado, com suporte da sazonalidade e avanço em algumas atividades, e deve concluir 2021 dentro da meta estabelecida de 315 milhões a 335 milhões de toneladas.

Dentre as operações que contribuirão com o avanço da produção, a mineradora apontou Serra Leste e Fábrica, que deverão operar com capacidade plena, e Brucutu, com previsão de mais minério alta sílica em meio às condições de mercado. Além disso, a empresa também citou a barragem Maravilhas III, em operação desde a última terça-feira, que permite a produção a úmido no ativo de Vargem Grande e é vista como um passo importante para a retomada da capacidade de produção.

“Todas essas contribuições nos fazem acreditar que dá para entregar mais do que o ano passado no segundo semestre”, disse o vice-presidente executivo de Ferrosos da companhia, Marcello Spinelli. Ele acrescentou que a companhia também aguarda, para o final deste trimestre, a liberação da correia transportadora sobre a barragem de Vargem Grande, “para dar mais um salto de produção”.

Mesmo assim, Spinelli ponderou que o aumento de produção esperado para o restante de 2021 não é fundamental para que as metas do ano sejam atingidas.

“Se nós não aumentarmos a produção no segundo semestre comparado com o ano passado, significa que nós já estamos no ‘low range’ do nosso guidance”, afirmou Spinelli na conferência.

O executivo ressaltou ainda que a empresa prevê manter prêmios elevados sobre seu minério de ferro, até pelo menos o primeiro semestre de 2022, com o suporte do crescimento da economia na China e de outros países, e uma demanda chinesa por minério de maior qualidade – como o da Vale – para reduzir emissões.

(com Reuters)

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