Mesmo com menor ritmo de queda dos preços, mercado aposta em corte da Selic

Projeções do mercado apontam para uma redução de até 1,5 ponto percentual; preços desaceleram ritmo de queda

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SÃO PAULO – A poucos dias da reunião mensal do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, o mercado intensifica suas apostas em relação à decisão que será tomada pela autoridade monetária em relação à taxa básica de juro da economia brasileira – a Selic. Tendo-se em vista os atuais fundamentos da economia brasileira, os investidores acreditam em um corte entre 1,0 e 1,5 ponto percentual na Selic.

Dólar acumulou forte alta em julho

Na última reunião do Copom, ocorrida entre os dias 22 e 23 de julho, a autoridade monetária cortou a taxa básica de juro em 1,5 ponto percentual, de forma que a Selic passou de 26,0% ao ano para 24,5% ao ano, seu atual patamar. Dentre os fatores que fundamentaram a decisão do Copom, teve papel principal o expressivo ritmo de queda dos preços durante as últimas semanas de junho e as primeiras semanas de julho.

Convém lembrar, inclusive, que boa parte do mercado esperava uma atitude bem mais agressiva da autoridade monetária naquela ocasião, projetando um corte de até dois pontos percentuais na taxa Selic, já que os principais índices de preços mostravam uma deflação generalizada tanto no atacado quanto no varejo naquela ocasião. Com relação à reunião deste mês, o mercado já se mostra mais cauteloso em suas apostas, visto que o cenário macroeconômico, sobretudo no que diz respeito aos preços, mudou, principalmente em função do câmbio.

Neste sentido, enquanto o dólar acumulava leve alta de 0,04% nos trinta dias encerrados na sexta-feira imediatamente anterior à reunião de julho do Copom (18 de julho), nos trinta dias encerrados nesta sexta-feira (15 de agosto), a moeda norte-americana acumula forte elevação de 4,95% frente ao real. Em termos de comparação mensal, o dólar acumulou expressiva de alta de 4,76% em julho, revertendo uma queda acumulada de 4,08% no mês anterior.

Preços diminuíram ritmo de queda nas últimas semanas

Como reflexo da desvalorização do real frente ao dólar nas últimas semanas, os índices de preços recentemente divulgados mostraram uma tendência de desaceleração no ritmo de queda dos preços, de forma que alguns chegaram, inclusive, a detectar inflação ao consumidor. Para se ter uma idéia, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo), utilizado pelo governo como padrão para estabelecimento de sua meta de inflação, registrou leve variação positiva de 0,20% em julho.

Apesar de ficar abaixo das expectativas do mercado, que apontavam para uma variação positiva de 0,30% do índice, segundo o relatório Focus, do Banco Central, o IPCA reverteu a queda registrada em junho, quando foi apurada uma deflação de 0,15% pelo índice. A variação positiva do índice, contudo, não deve ser atribuída unicamente aos efeitos da alta do dólar frente ao real, uma vez que os impactos dos reajustes tarifários na conta de luz e telefone também contribuíram para os maiores preços ao consumidor no período.

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Para o mês de agosto, o mercado acredita que a inflação medida pelo IPCA deverá ficar em 0,60%, registrando, portanto, uma aceleração frente ao desempenho de julho, conforme mostrado pelo relatório Focus. Outros índices acompanhados pelo mercado, como o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe e o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) da Fundação Getúlio Vargas, também mostram uma menor tendência de queda dos preços nas últimas semanas.

O IPC da Fipe, por exemplo, apresentou uma variação negativa de 0,08% no mês fechado de julho, após ter apurado deflação de 0,16% no mês anterior. Na primeira quadrissemana de agosto, por sua vez, a deflação foi de apenas 0,01%, confirmando a tendência de menor recuo dos preços. Com relação ao IGP-M, foi registrada uma deflação de 0,42% no mês de julho, mas a primeira prévia de agosto apurou uma estabilidade dos preços no período.

Mercado aposta em corte de até 1,5 ponto percentual

Dessa maneira, as opiniões do mercado convergem para um corte de até 1,5 ponto percentual da Selic durante este mês de agosto, de forma que o contrato do DI futuro com vencimento mais próximo, em setembro de 2003, aponta taxa de 23,20% na BM&F, bastante próxima, portanto, dos 23,0% ao ano.

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Os investidores também acreditam que a Selic deverá continuar em trajetória de queda até o final deste ano, de forma que o contrato de DI futuro com vencimento no início de janeiro de 2004 aponta para uma taxa de 21,35% ao ano, próxima, assim, dos 21,5% ao ano. Vale destacar, porém, que a projeção do relatório Focus, do BC, é mais otimista, apostando que a Selic deva terminar o ano no patamar de 20,0% ao ano.

Vale lembrar que um outro bom motivo para a nova redução da Selic encontra-se no fraco desempenho da atividade econômica nos últimos meses. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a produção industrial ficou praticamente estagnada no primeiro semestre de 2003 frente ao mesmo período do ano anterior, com alta de apenas 0,1%. Com relação ao comércio varejista, cuja performance é diretamente vinculada à política de juros, foi registrada uma queda acumulada de 5,57% no volume de vendas nesta mesma comparação.

Percebe-se, dessa maneira, que o Copom tem não somente os fundamentos técnicos necessários para o corte da taxa básica de juro da economia, como o compromisso de reduzi-la de forma a possibilitar um reaquecimento da economia brasileira ao longo dos próximos meses. O excesso de rigor na condução da política monetária pode passar facilmente, desta maneira, de sinal de austeridade política para falta de bom senso econômico, uma vez que com os atuais fundamentos da economia brasileira não sentido que a Selic ainda continue em patamar tão elevado.