Mesmo com a alta do Ibovespa, fundos de ações perdem recursos

Elevado patamar da taxa real de juro e perfil conservador dos investidores brasileiros tornam categoria menos atrativa

Publicidade

SÃO PAULO – Apesar do avanço do Ibovespa desde o final de 2002, os fundos de ações continuam representando uma parcela de recursos relativamente pequena na indústria de fundos. Isso mostra a percepção do mercado de que ainda existem melhores oportunidades de investimento no Brasil, além, é claro, da postura conservadora de muitos investidores, que acabam preferindo fundos com menor risco.

Assim, mesmo com o cenário positivo e o forte ritmo de captações da indústria de fundos de investimento, os fundos de ações não conseguem fazer sua parcela crescer. Vale lembrar que, desde o início de 2004, a indústria de fundos já captou R$ 14,68 bilhões, segundo dados da Anbid (Associação Nacional de Bancos de Investimento). Esse valor é quase um terço do registrado no mesmo período de 2003, quando foram captados R$ 43,77 bilhões de recursos.

Vale lembrar, entretanto, que o ano de 2003 foi bastante atípico no mercado brasileiro, uma vez que foi caracterizado por um movimento de recuperação, dada a forte saída de recursos em 2002. Naquele ano, a polêmica da marcação a mercado e a preocupação diante das eleições, com as incertezas sobre a economia brasileira, foram responsáveis pela saída de R$ 63,97 bilhões na indústria de fundos.

Fundos de ações registraram saída de recursos

Contrastando com este quadro favorável, desde o início deste ano os fundos de ações perderam R$ 921 milhões. Para entender esse fenômeno, é importante observar outras variáveis que não se restringem somente ao desempenho do mercado de ações.

Entre os motivos que explicam a saída de recursos da categoria, dois podem ser destacados: o elevado patamar das taxas reais de juros no Brasil e o perfil conservador dos investidores brasileiros. De fato, com juros elevados, muita gente têm preferido opções de investimento menos arriscadas, mesmo que isso signifique rentabilidade menor.

Exemplo dentre dos fundos multimercados

Para exemplificar a disparidade da captação com a rentabilidade, podemos observar a categoria de fundos multimercados com renda variável alavancado, que podem comprar ações fazer uso de derivativos para tentar melhorar a rentabilidade de suas carteiras. Esta é a categoria com maior perfil de risco entre os fundos multimercados

Continua depois da publicidade

Confirmando o conservadorismo dos investidores, até o dia 29 de setembro a categoria registrou saída de R$ 1,5 bilhão de recursos, de acordo com os dados da Anbid. As outras categorias de fundos multimercados, por outro lado, registraram entrada de recursos no período: sem ações (+R$ 4,24 bilhões), com ações (+R$ 180 milhões) e sem ações com alavancagem (+R$ 1,46 bilhão).

Por outro lado, a rentabilidade média dos fundos multimercados alavancados com ações no período foi de 13,50%, acima do retorno das outras categorias de fundos multimercados: sem ações (+12,05%), com ações (+12,65%) e sem ações com alavancagem ( + 8,75%). Entretanto, como a composição do fundo é mais agressiva, ela foi a única a registrar saída de capitais.

Assim, também dentre os fundos multimercados o fenômeno se repete: apesar da maior rentabilidade das alternativas de investimento que incluem ações, os investidores têm direcionado a maior parte dos novos recursos às categorias que apresentam menor perfil de risco.

Continua depois da publicidade

Percepção de que há melhores opções

Mas o que justifica, além dos fatores mencionados anteriormente, esta tendência ? Em primeiro lugar, muitos investidores acreditam que os fundos que investem em ações, tanto de forma exclusiva como os multimercados, devem ter um potencial de ganho limitado, já que o mercado acionário subiu de forma significativa recentemente.

Outros acreditam, em uma posição mais conservadora, que o mercado de renda variável é bastante instável, o que não justifica a opção como principal forma de investimento.

Há também a perspectiva de elevação da Selic, taxa básica de juro da economia, de modo a aumentar a rentabilidade de outros fundos, como os que investem em títulos públicos pós-fixados. Isso porque o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) tem sinalizado que adotará uma elevação gradual no juro básico da economia, para deter pressões inflacionárias.