Mesmo após reduzir preço da gasolina, Petrobras segue acima do nível internacional

Estatal anunciou que preço médio de venda às distribuidoras passará a ser, a partir desta terça-feira, de R$ 2,57 por litro, recuo de R$ 0,14 por litro

Agência O Globo

Pistola de gasolina em posto de combustíveis, em Brasília
07/03/2022
REUTERS/Adriano Machado
Pistola de gasolina em posto de combustíveis, em Brasília 07/03/2022 REUTERS/Adriano Machado

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A queda no preço do petróleo no mercado internacional levou a Petrobras a anunciar a primeira redução no dos combustíveis no Brasil neste ano. O valor médio cobrado na refinaria vai cair 5,2% a partir de hoje e passará a ser de R$ 2,57 por litro, uma redução de R$ 0,14.

Trata-se do terceiro corte do combustível desde meados do ano passado: o primeiro foi em junho e o segundo ocorreu em outubro, quando o valor passara de R$ 2,85 para R$ 2,71. Isso deve se traduzir em alívio de 1% a 2% nas bombas, projetam analistas, mas o alívio no bolso do consumidor poderia ser maior.

De acordo com dados da Abicom, associação que reúne os importadores de combustíveis, os preços cobrados pela estatal no Brasil ainda estão 5% acima do nível internacional, que acompanha a cotação global do petróleo. Nos cálculos da associação, a diferença de valores praticados no Brasil e no exterior chegou a alcançar até 11% desde o fim de novembro.

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Sérgio Araújo, presidente da Abicom, diz que a desvalorização do petróleo no mundo não será totalmente percebida pelos consumidores no preço da gasolina por aqui. Segundo ele, o valor médio por litro vendido pela Petrobras ainda será R$ 0,12 maior que no exterior.

Fontes do setor avaliam que a estatal reduziu o preço como uma forma de reagir à perda de espaço que vem sofrendo para os importadores, que já respondem por até 20% das vendas de gasolina no país com preço mais baixo devido à queda dos preços lá fora e à recente valorização do real frente ao dólar.

Itaú BBA esperava corte maior

Analistas também chamaram a atenção para o fato de a Petrobras não ter repassado para seus preços todo o alívio no preço dos combustíveis lá fora.

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Relatório do Itaú BBA classificou o corte da estatal de “abaixo das expectativas”. Segundo o banco, o ajuste era amplamente esperado. “Desde o final de novembro, a diferença entre os preços domésticos da gasolina e o preço de paridade internacional (PPI) aumentou e persistiu, levando os investidores a antecipar que uma revisão possa ocorrer no curto prazo”

Com base nas estimativas do Itaú, os preços da gasolina doméstica da Petrobras estavam cerca de 10% acima do cenário externo antes do ajuste. Por isso, “foi um pouco menor do que o previsto”. Após o ajuste, os preços domésticos devem ficar cerca de 5% acima do PPI, diz o banco.

Componente político

Para especialistas, além do preço do petróleo no mercado internacional há um componente político. Isso porque a estatal reduziu apenas o valor da gasolina, mas manteve o valor do diesel, que, de forma invertida, está sendo vendido no Brasil mais barato em relação ao preço do exterior há algumas semanas.

Dados da Abicom indicam que a estatal vem vendendo diesel abaixo do praticado no exterior. Na última semana, o combustível comercializado pela Petrobras estava entre 2% e 9% mais barato.

Além disso, há dúvidas se a queda no preço da gasolina pode de fato chegar às bombas, já que o repasse depende das distribuidoras e da rede de postos.

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Redução acumulada de quase 27%

O corte de ontem foi a primeira redução no preço da gasolina nas refinarias da Petrobras desde o dia 20 de outubro do ano passado, quando a estatal baixou o litro de R$ 2,85 para R$ 2,71. Com isso, a estatal marca a terceira redução seguida desde o ano passado.

Desde dezembro de 2022, o custo da gasolina na refinaria caiu R$ 0,50 por litro. Considerando a inflação do período, trata-se de uma redução de 26,9%, informou a estatal.

A Petrobras mantém seus preços de venda do diesel no mesmo patamar desde maio do ano passado — quando, na ocasião, reduziu de R$ 3,43 para R$ 3,27 por litro. Desde dezembro de 2022, diz a estatal, a redução acumulada nos preços de diesel para as distribuidoras, também considerando a alta dos preços ao consumidor, é de 36,3%, bem maior que a da gasolina.

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Araújo, da Abicom, ressaltou a necessidade de elevar o preço do diesel. Quando ele está muito baixo no país, que não produz todo o combustível que consome, em relação ao exterior há desestímulo à importação.

“A redução na gasolina já era esperada. Considerando a elevadíssima volatilidade dos preços do petróleo e de seus derivados, acho que a Petrobras foi prudente ao anunciar a redução na gasolina. Mas o preço do diesel deveria ser alterado com aumento já que, na média, está 7% (R$0,23 por litro) abaixo da paridade.”

‘Recíproca não é verdadeira’

Na avaliação de Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE, a gasolina vinha sendo vendida acima do mercado externo. Com isso, ao se levar em conta o cenário da política de paridade de preços no mercado internacional, há espaço para redução. Ele pondera, no entanto, que, no caso do diesel, a lógica é diferente.

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“No diesel, a recíproca não é verdadeira, já que a estatal vem vendendo abaixo do mercado internacional em cerca de 8%. Portanto, deveria elevar o preço do diesel. Mas, se a estatal não segue a PPI, cria-se uma artificialidade, pois o mercado não sabe quando os preços serão alterados. Hoje, a companhia está perdendo dinheiro com o diesel. Assim, esse anúncio da Petrobras soa mais como algo político do que como um anúncio corporativo”, afirma Rodrigues.

Petróleo em queda no mundo

A expectativa das petroleiras é de preços mais baixos do barril de petróleo a médio prazo. A cotação do barril do Brent, que serve de referência no mercado internacional, teve queda ontem de 0,35%, sendo negociado a US$ 65,64 o barril.

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Eventos contribuíram para aumentar a incerteza, como a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Do começo do ano para cá, o barril acumula alta de 6,5%. No entanto, desde o fim de setembro do ano passado, acumula queda de 7%.

Para Rodrigues, o cenário é de preços baixos do barril de petróleo, lembrando que o presidente dos EUA, Donald Trump, citou a interlocutores há algumas semanas, segundo o Wall Street Journal, que seu objetivo com a ação na Venezuela era levar o barril a um patamar na faixa de US$ 50, o que facilitaria controlar a inflação americana.

“E no Brasil há ainda a influência do câmbio sobre o preço do combustível. Mesmo com o anúncio de aumento da produção da Venezuela, não se sabe em que prazo isso vai ocorrer, pois depende dos desafios políticos que os governos americano e venezuelano terão do ponto de vista institucional para que as empresas voltem a investir no país. Esse ainda é um desafio”, disse Rodrigues.

Aumento do ICMS

Gabrielle Moreira, responsável por precificação de combustíveis da Argus, avalia que a redução no preço da gasolina era esperada por agentes do setor de combustíveis, que já apostavam em uma alteração nos primeiros dias de 2026.

“Os fundamentos econômicos e a elevação do ICMS sobre o combustível (de R$ 0,10 por litro de gasolina a partir de janeiro) justificam o movimento, que agora deve amenizar o interesse pelo produto importado. A queda nos preços acontece previamente ao início da safra de cana-de-açúcar, em abril. A expectativa é que esse ciclo seja mais alcooleiro, o que tende a deixar os preços do etanol mais competitivos no mercado doméstico. O reajuste da gasolina contribuiu para a manutenção da competitividade do produto no mercado de combustíveis.”