Mercado procura os culpados, mas quem é o responsável pela devastação das bolsas?

Antes todos queriam apontar, mas ninguém queria assumir o rótulo; agora, resolveram dividi-lo. Ninguém escapa da mira

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SÃO PAULO – É da natureza comum procurar culpados por qualquer situação de desconforto, e da natureza dos mercados também. A crise devasta as bolsas com o mesmo ímpeto que o investidor busca explicações para o insucesso de sua aplicação. Sem poderio frente ao tamanho da crise e na falta de respostas plausíveis, apenas buscam-se culpados.

A crise apareceu em agosto do ano passado, mas suas raízes parecem mais profundas. Estourou há um mês. Por ela desfilam nomes como Bernanke, Greenspan, Bush, Clinton, Fannie, Freddie, Morgan, Lehman, Paulson, entre tantos outros. São muitos os potenciais culpados.

Antes, todos queriam apontar, mas ninguém queria assumir o rótulo. Agora, resolveram dividi-lo. Tentando começar pela raiz, parâmetro nos Estados Unidos. Como tudo apareceu primeiro nas hipotecas, surge o primeiro indiciado. Como não perceberam que oferecer um “tsunami de crédito”, poderia dar no que deu? Não perceberam ou não quiseram perceber?

Ironicamente, Bush parecia saber exatamente o que estava por vir quando assumiu. Trouxe para a cadeira do Federal Reserve senão o maior, um dos maiores especialistas do mundo em crises econômicas. Foi direto em Bernanke, indicação pessoal. Seu antecessor, Alan Greenspan, é tido como culpado por muitos. Sua parcela na culpa, assumida por ele mesmo, vem com a liberdade dada a mercados que mostraram, bem depois, não estarem maduros o suficiente para tê-la.

Não fica só nos Estados Unidos

Pois bem. Até aí, a culpa fica nos Estados Unidos, mas o mundo não condenou. A indisciplina da maior economia do mundo não comprometia; ainda mais, colaborava em boa parte dos ganhos, da demanda, da alta rentabilidade dos ativos, da liquidez proporcionada pelo investidor estrangeiro.

As rédeas frouxas que incluem Greenspan, Bush e até Clinton entre os culpados converteram-se em bolhas. Bolhas especulativas no mercado imobiliário e no mercado de commodities. A disparada do petróleo virou menor patamar de 16 meses, tudo em um intervalo de junho a outubro. A inversão da tendência remete à perspectiva de menor demanda, mas a rapidez da virada sugere capital especulativo.

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Mercado todo na mira

As bolhas também incluem a raiz inicial do problema, o setor imobiliário norte-americano. Quem ignorou os riscos ao apostar nas hipotecas hoje paga caro por isso. As agências de classificação de risco, que deveriam apenas “não ignorar” este risco, falharam e reconheceram seu erro. Chegaram a relacionar casos de má fé, perderam credibilidade.

O investidor não fica de fora, óbvio. Comprou empresas, ou melhor, ações que nem sabia o ramo de atividade. Comprou ações, não empresas. Ignorou fundamentos, alterou seu planejamento inicial e, em alguns casos, foi contra seus próprios princípios. Olhou apenas potencial de valorização, nada além disso.

Não aponte

O mercado todo procura identificar os culpados pela crise, mas todo o mercado parece, de alguma forma, envolvido na trama. Como na célebre frase: “quando apontar com um dedo, se lembre que outros três dedos teus apontam para ti”.